Minerais críticos e disputa geopolítica: por que o mundo quer o subsolo brasileiro

Lítio, nióbio e terras raras colocam o Brasil no centro da geopolítica global, com interesse de EUA, Europa e China

Minerais críticos e disputa geopolítica: por que o mundo quer o subsolo brasileiro
CBL – COMPANHIA BRASILEIRA DE LÍTIO

O subsolo brasileiro passou a ocupar posição central no tabuleiro da geopolítica global. Em meio à guerra na Ucrânia, à intensificação da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e, sobretudo, à aceleração da transição energética, minerais como lítio, nióbio, grafita, cobre, níquel e terras raras tornaram-se ativos estratégicos — hoje comparáveis ao petróleo no século XX.

Nesse contexto, dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) durante coletiva à imprensa realizada nesta terça-feira (3) mostram que o Brasil não apenas participa desse cenário, como assume papel estratégico. Em 2025, a mineração respondeu por 55% do saldo da balança comercial brasileira. Ao mesmo tempo, o setor ampliou investimentos justamente nos chamados minerais críticos e estratégicos, que despertam interesse direto das grandes potências econômicas.

Além disso, o crescimento do setor ocorre em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimento, nas quais segurança mineral passou a ser tratada como tema de soberania nacional.

Quem são os maiores consumidores de minerais estratégicos

A corrida global por minerais críticos se concentra, principalmente, em três grandes polos econômicos. Cada um deles adota estratégias próprias para garantir abastecimento de longo prazo e reduzir vulnerabilidades geopolíticas.

China

Atualmente, a China lidera o consumo mundial de minerais estratégicos. Além disso, o país domina etapas essenciais da cadeia produtiva, especialmente refino e processamento. A China concentra parcela significativa da produção global de terras raras e atua de forma agressiva para assegurar suprimento contínuo, tanto dentro quanto fora de seu território.

Por esse motivo, Pequim mantém forte presença em projetos minerais na África, na América Latina e na Ásia, consolidando influência sobre insumos considerados sensíveis para defesa, tecnologia e indústria de ponta.

Estados Unidos


Por outro lado, os Estados Unidos buscam reduzir a dependência chinesa em cadeias classificadas como estratégicas. O foco recai, sobretudo, sobre os setores de defesa, tecnologia avançada e energia limpa. Para isso, o governo americano lançou programas bilionários voltados à formação de estoques estratégicos e ao financiamento de projetos em países considerados aliados.

Durante a coletiva do IBRAM, dirigentes confirmaram que o instituto foi convidado a participar de um simpósio com os Estados Unidos, previsto para ocorrer no próximo mês, em São Paulo. O evento deve reunir autoridades americanas, representantes do setor mineral e mineradoras brasileiras.

Segundo o instituto, o simpósio integra as negociações em curso para ampliar a cooperação bilateral e discutir possíveis investimentos em minerais críticos no Brasil.

“Os Estados Unidos têm demonstrado interesse e os contatos continuam avançando. Fomos convidados para um simpósio em São Paulo, no mês que vem, que deve reunir mineradoras brasileiras e representantes americanos”, afirmou o vice-presidente do IBRAM, Fernando Azevedo.

União Europeia


Enquanto isso, a União Europeia enfrenta elevada dependência externa de minerais essenciais para sua estratégia de reindustrialização verde. Diante disso, países e blocos europeus buscam diversificar fornecedores e reduzir riscos geopolíticos associados à concentração da produção global.

Nesse cenário, o subsolo latino-americano — e, especialmente, o brasileiro — passou a atrair atenção crescente, tanto por sua diversidade mineral quanto por sua estabilidade institucional relativa.

O que o Brasil tem que o mundo quer

O Brasil reúne reservas expressivas de diversos minerais estratégicos. Entre os principais, destacam-se:

  • Nióbio – o país lidera a produção mundial, com uso em ligas metálicas de alta resistência

  • Grafita – insumo essencial para baterias de veículos elétricos

  • Cobre e níquel – base da eletrificação e da transição energética

  • Terras raras – fundamentais para defesa, tecnologia e indústria eletrônica

  • Lítio – insumo-chave para armazenamento de energia

De acordo com o IBRAM, os investimentos projetados especificamente para minerais críticos e estratégicos somam US$ 21,3 bilhões até 2030. Esse valor representa crescimento de 15,2% em relação ao ciclo anterior, o que reforça o interesse internacional no setor mineral brasileiro.

Uso militar, tecnológico e energético

Durante a coletiva, o IBRAM deixou clara a relação direta entre mineração e soberania nacional. Fernando Azevedo destacou o uso militar como exemplo da centralidade dos minerais estratégicos na geopolítica contemporânea.

“Uma aeronave de combate de última geração utiliza mais de 400 quilos de terras raras. Energia, tecnologia avançada e defesa dependem diretamente do minério”, afirmou.

Além do setor militar, esses minerais sustentam a expansão de painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias de alta capacidade e redes inteligentes. Assim, a mineração se consolida como um dos pilares da transição energética global.

PL 2.780: regras para um setor em disputa

Diante desse cenário, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2.780, que estabelece diretrizes para a política nacional de minerais críticos e estratégicos. O texto surgiu a partir de debates entre o IBRAM, o Ministério de Minas e Energia e a Frente Parlamentar da Mineração e tramita em regime de urgência.

A proposta busca garantir segurança jurídica, previsibilidade regulatória e alinhamento estratégico, especialmente em um momento em que o Brasil se torna alvo crescente de investidores estrangeiros interessados em ativos minerais.

Exportador de matéria-prima ou potência industrial?

Apesar do protagonismo no subsolo, o Brasil ainda atua majoritariamente como exportador de minério bruto. Em 2025, o minério de ferro respondeu por quase 63% das exportações minerais. Enquanto isso, etapas de maior valor agregado permanecem concentradas fora do país.

Dessa forma, o desafio se impõe de maneira clara: o Brasil seguirá como fornecedor de insumos estratégicos ou conseguirá transformar sua riqueza mineral em desenvolvimento industrial, tecnológico e soberano?

Riqueza estratégica, dilema histórico

O interesse crescente de Estados Unidos e Europa, materializado no convite ao IBRAM para o simpósio em São Paulo, confirma que o subsolo brasileiro ocupa posição estratégica no cenário global. Ao mesmo tempo, os dados revelam um dilema histórico: abundância mineral, por si só, não garante industrialização, inovação nem desenvolvimento social.

Por fim, enquanto grandes potências disputam acesso aos minerais brasileiros, o país enfrenta o desafio de transformar essa vantagem natural em uma estratégia nacional de longo prazo, capaz de equilibrar crescimento econômico, soberania e responsabilidade socioambiental.