“Pedimos um olhar mais carinhoso para a Serra dos Alves”, diz presidente de instituto
Os excessos cometidos pelo turismo predatório tem deixado a comunidade preocupada

A Prefeitura de Itabira informou que nesse feriado prolongado, entre os dias 9 (aniversário da cidade) e 12 de outubro (Dia de Nossa Senhora Aparecida), os turistas estarão proibidos de visitar os atrativos naturais dos distritos. [link]
Para fiscalizar as restrições, equipes das secretarias municipais de Saúde e de Desenvolvimento Urbano farão barreiras sanitárias em Senhora do Carmo, Ipoema, Boa Vista e na Serra dos Alves. Desta vez, as barreiras serão restritivas e a entrada de visitantes não será permitida.
A decisão visa endurecer a fiscalização de possíveis pontos de aglomerações e de contágio do novo coronavírus. A recente flexibilização e reabertura do comércio têm mostrado que parte da população está descumprindo orientações e normas.
A medida chega em boa hora, já que os moradores da comunidade de Serra dos Alves vem passando por sérios problemas com os excessos cometidos pelos turistas. “As pessoas saem de Itabira, com carros cheios, churrasqueira, cerveja, vão para beirada do rio e fazem o que chamamos de turismo predatório. O turista vem, não respeita e depois vai embora sem sequer contribuir com a economia local”, explica Carlos Henrique Moura Andrade, mais conhecido como Carlos Cabeça.
Frequentador da Serra dos Alves a pouco mais de 15 anos e morador desde 2018, Carlos Cabeça é presidente do Instituto Bromélia que, recentemente, passou a ser de utilidade pública. A entidade tem a base como uma associação comunitária. “Vimos a necessidade de uma representação jurídica para desenvolver projetos nos âmbitos cultural, de saúde, meio ambiente e turismo”, explica.
Desrespeito
Carlos Cabeça conta que é preciso entender um pouco de como era a rotina da Serra dos Alves antes da pandemia. “É importante ressaltar que os moradores locais não dependem do turismo para viver. A economia fundamentada na produção rural e num serviço mais braçal. Antes da pandemia, havia uma tranquilidade em relação ao turista. Eles vinham em busca da calmaria”, relembra.
Para ele, os problemas com a chegada repentina, e em grande volume, de turistas vão além do risco de contágio dos moradores da comunidade que, em sua maioria, fazem parte de grupos de risco.
“A gente está cansado de frisar a questão de desrespeito às recomendações e protocolos sanitários e de isolamento. Com essa pequena flexibilização houve um tumulto. Tentamos nos mobilizar para abordar as pessoas e conscientizá-las. Mas a gente não tem autoridade para fazer mais do que isso. O mês de setembro nos deixou em situações fora do controle e ficamos sem saber como agir como comunidade em si”.
Barreiras Sanitárias
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia, Inovação e Turismo, José Don Carlos Alves Santos, explicou que no as altas temperaturas no mês de setembro fizeram com que toda a zona rural de Itabira recebesse muitos visitantes.
“Os nossos gestores acompanharam e monitoraram este fato. As barreiras sanitárias são uma forma inibir o turismo, sobretudo por termos voltado para a onda amarela. Elas também são uma forma de controle e prevenção ao covid 19. Mas, mais importante e eficaz é a conscientização da população”, reforça.
Para Carlos Cabeça, “essa barreira a gente quer todo dia e todo fim de semana se possível. Ela inibe sim! Temos o exemplo claro de Itambé”.
Crescimento do Turismo
Recentemente, a Prefeitura de Itabira investiu em diversas melhorias para a comunidade da Serra dos Alves e para os turistas que visitam a localidade. Entras melhorias estão o asfalto de acesso, calçamento e obras do SAAE, com o tratamento de água.
“A gente tem que agradecer, porque nunca nos viram dessa forma. Mas há uma contrapartida em outro ponto como ausência na preparação dos locais para receber a curiosidade das pessoas. Agora tem gente que vem aqui para ver asfalto e calçamento, mas ainda está sem demarcação de sinalização de trânsito, por exemplo”, frisa Carlos.
Ele narra que é possível encontrar motoristas desrespeitando leis de trânsito, empresas de turismo que estacionam ônibus e vans em qualquer lugar. “Eles sequer contratam um condutor local, sequer informam a chegada e ‘mal-mal’ almoçam por aqui”.
Don Carlos destaca que “há um trabalho, em parceria com o Sebrae, voltado para o turismo inteligente em Ipoema e na Serra dos Alves. O projeto é conduzido pela secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo, junto com a Empresa Plano A Engenharia, para diagnóstico e planejamento de ações para inclusão econômica e social dos habitantes”.
Algo que atende aos apelos dos moradores locais. Carlos enfatiza que “o crescimento do turismo é inevitável. Mas eu preferia que o turismo nos Alves crescesse em conceitos e não em espaços. O ponto principal é que a gente tenha um turismo consciente e que respeite os costumes locais”.
Informação e treinamento
Um pedido constante entre os moradores da Serra dos Alves é a viabilização de um controle na entrada de turistas. Eles veem com bons olhos a implementação do Centro de Atendimento ao Turista (CAT). “E a gente espera que ele realmente funcione como uma barreira para a conscientização do turista. Espero que tenha pessoas qualificadas e que atuem de forma eficaz”, reitera Carlos Cabeça.
Don Carlos reforça que faz parte do programa Turismo Sustentável “o bom atendimento e a devida orientação aos turistas, e para tal contaremos, já no mês que vem, com pessoas aptas e qualificadas no CAT Serra dos Alves”.
Para Carlos Cabeça, ainda é preciso mais. “Vai precisar haver um trabalho junto ao CAT para o controle de entrada das pessoas. Ninguém levantou, por exemplo, a nossa capacidade máxima de visitantes. Acho que é indispensável o investimento em estruturação. O foco principal precisa ser o treinamento e a profissionalização para que os moradores locais. Eles não vivem do turismo e não tem visto algo positivo nele. Precisamos atender as pessoas que querem vir nos visitar, mas elas precisam entender que aqui há pessoas que vivem uma vida inteira. Estamos falando mesmo é de respeito!”
Para o secretário de Turismo é preciso “o trabalho conjunto entre gestão publica, ICMBio, moradores e empresários da localidade para definirmos as melhores ações que gerem a sustentabilidade. É uma tela que já começamos a pintá-la junto com todos os stakeholders da Serra dos Alves”.
Prós e contras do potencial turístico
Carlos Cabeça faz questão de enfatizar que os investimentos do governo municipal estão sendo bem recebidos pela comunidade. “As pessoas que moram na beirada da rua se livraram da poeira que incomodava muito. A gente tinha problema com barro, as crianças ficavam se ir para a escola, por exemplo. O calçamento ficou de muito bom gosto, ficou bonito”.
Mas ele também justifica que é preciso ter consciência dos contras. “A gente continua sem transporte público, sem atendimento médico emergencial, sem segurança ou policiamento. Como praticar um turismo sustentável se não há investimentos em normatização? Há o aumento do fluxo e da demanda e nós não temos preparo e nem capacidade para suprir tudo isso”.
Ele não deixa de citar, também, o fato de Itabira estar de volta a onda amarela do Minas Consciente. “O que agente espera como comunidade é que as pessoas entendam o momento que estamos passando, seja o turista, o morador ou as pessoas naturais daqui. Pedimos um olhar mais carinhoso diante de tudo que vem acontecendo. Além de uma fiscalização e uma atuação maior do poder público”, conclui.




