Governo alerta para pior seca em 111 anos em 5 estados; Minas está na lista
A situação é classificada como “severa” e a previsão é de pouco volume de chuvas para o período
O Governo Federal publicou nesta sexta-feira (28) um alerta de emergência hídrica para o período de junho a setembro em cinco estados brasileiros: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Todas as unidades da federação atingidas estão na bacia do Rio Paraná, polo de produção agropecuária e de grandes hidrelétricas. Na região, a situação é classificada como “severa” e a previsão é de pouco volume de chuvas para o período.
É o primeiro alerta dessa natureza em 111 anos de serviços meteorológicos do País. A medida corrobora as declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e do ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, de que o Brasil enfrenta a maior crise hídrica dos últimos tempos.
O alerta de emergência hídrica foi divulgado de forma conjunta pelo Sistema Nacional de Meteorologia (SNM), órgãos federais ligados à meteorologia, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden). As instituições reforçam que a emergência hídrica é associada à escassez de precipitação na região hidrográfica e a previsão de que o cenário persista até setembro
Dessa forma, o governo reconheceu a importância de flexibilizar restrições hidráulicas em usinas localizadas nas bacias dos rios Grande e Paraná. Serão adotadas medidas para “segurar” água nos reservatórios das hidrelétricas, evitando que seja liberado um volume usado, por exemplo, para assegurar a navegação em rios e garantir água potável para a população de alguns municípios onde a força dos rios que deságuam no mar evita o retorno da água salgada.
A decisão foi anunciada na noite de quinta-feira (27) após reunião extraordinária do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), presidido pelo Ministério de Minas e Energia. No encontro, o colegiado foi informado da situação hidrológica crítica vivenciada na bacia do rio Paraná, onde estão localizadas usinas hidrelétricas com os principais reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Causas
De acordo com o SNM, o déficit de precipitação na bacia do Paraná está provavelmente relacionado à influência de dois fenômenos atmosféricos de grande escala. O primeiro é La Niña, de outubro de 2020 a março de 2021. O fenômeno traz resfriamento das águas do Oceano Pacífico, diminui a temperatura da superfície do mar, altera o padrão de circulação global e, entre as características do período, reduziu chuvas no Sul do Brasil.
O segundo é a Oscilação Antártica (OA), responsável por alterar o padrão de pressão atmosférica na região. Desde outubro de 2020 a OA tem atuado para impedir que sistemas causadores de chuvas se desloquem sobre as regiões continentais da América do Sul.
A situação de escassez hídrica, no entanto, é anterior. Segundo levantamento feito pelos órgãos a partir da análise de chuvas entre outubro de 2019 e abril de 2021 na bacia do Paraná, apenas em dezembro de 2019, agosto de 2020 e janeiro de 2021 as precipitações ficaram acima da média. “Durante a maior parte do período houve predomínio de déficit de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021”.
Essa característica se mantém no mês atual, com acumulado parcial de 27 milímetros para a bacia, ou seja, abaixo do acumulado climatológico que é de 98 milímetros. “O SNM alerta que o índice de precipitação na maior parte da bacia hidrográfica apresenta-se moderado a extremo, considerando os últimos 6 e 12 meses, bem como em uma análise de um período mais longo, dos últimos 48 meses. Ou seja, a situação atual de déficit de precipitação é severa”, alerta.
A previsão de precipitação indica acumulado máximo em 15 dias de 60 mm apenas na região central do Paraná, ocasionados por sistemas meteorológicos de pequena escala. Nos outros quatro estados da bacia, incluindo Minas Gerais, a previsão indica pouco volume de precipitação para os próximos dias. Para o trimestre entre junho e agosto, a previsão indica chuva abaixo da faixa normal sobre o centro-sul do estado do Paraná e pouco volume de chuva em toda a bacia.
Setor elétrico faz pente-fino em térmicas
Com o volume escasso de água nos principais reservatórios do país e um alerta de emergência hídrica publicado, ONS decidiu fazer uma varredura em cada usina térmica instalada e em operação, para saber exatamente com o que poderá contar, a fim de afastar riscos de apagão e racionamento de energia.
Na segunda-feira (24), a diretoria do ONS, que é o órgão responsável por fazer a gestão diária do abastecimento elétrico nacional, disparou um documento a 40 empresas do setor elétrico que possuem usinas térmicas movidas a gás, óleo diesel, biomassa e carvão. Na lista estão empresas como Petrobras, Engie e Neoenergia, além das estatais do Grupo Eletrobras.
No documento, ao qual a reportagem teve acesso, o ONS pede que, até a próxima segunda-feira(31), cada empresa informe detalhadamente, quais são as usinas térmicas que cada empresa possui, com detalhamento semanal ou diário de seus cronogramas de manutenção e operação previstos até dezembro de 2021.
“Considerando o final do período chuvoso nas principais bacias integrantes do SIN (Sistema Interligado Nacional) e os baixos níveis de armazenamento alcançados nos principais reservatórios de regularização, torna-se imprescindível a maximização da disponibilidade de geração térmica para garantir o atendimento eletroenergético”, afirma a diretoria do ONS, no documento.
No último período chuvoso, iniciado no fim de novembro e encerrado em abril, as águas podem ter caído em bom volume sobre muitos centros urbanos, mas não é isso o que se viu nas principais cabeceiras de rios do País. Se há ocorrência de água abundante nessas áreas, todo o sistema hidrelétrico passa a ser irrigado. Quando as chuvas nessas localidades não ocorrem, porém, as usinas rio abaixo ficam prejudicadas.
No documento enviado às empresas, o ONS alerta que, considerando o potencial de geração de energia hidrelétrica acumulado entre setembro de 2020 e maio deste ano, esta “configurou-se como a pior condição hidrológica” de todo o histórico de vazões em 91 anos de medição (1931/2021).
Segurança energética
A necessidade do Brasil recorrer às suas usinas térmicas para garantir o abastecimento elétrico deve-se à possibilidade de garantir um volume específico de geração, diferentemente do que acontece com as demais fontes do país.
Usinas hidrelétricas, eólicas e solares dependem, fundamentalmente, de condições naturais para gerar energia. Se não há água, vento e sol, não tem geração.
Acrescenta-se a isso o fato de que a energia deve ser consumida no momento em que é gerada, ou seja, não pode ser armazenada para ser usada em outro momento. Com as térmicas, porém, é possível gerenciar o volume e o tempo de produção. O preço dessa energia, no entanto, é bem mais caro que as demais, além de serem mais poluentes.
O Brasil conta hoje com 3.180 usinas térmicas em operação, que respondem por 25% de toda a potência instalada de geração de energia do País. Diariamente, o ONS define o que deve ser acionado e aquilo que não será utilizado. Atualmente, a ordem é colocar as térmicas a plena carga e é isso o que tem ocorrido.
Na quinta-feira, por exemplo, 21% de toda a energia consumida no Brasil foi gerada por usinas térmicas, cujo funcionamento básico se baseia no aquecimento de água e produção de vapor, um processo que impulsiona a turbina e gera energia.
Nesta sexta-feira, o governo publicou um alerta de emergência hídrica para o período de junho a setembro em cinco Estados brasileiros: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.
Todas as unidades da federação atingidas estão na bacia do Rio Paraná, polo de produção agropecuária e de grandes hidrelétricas Na região a situação é classificada como “severa” e a previsão é de pouco volume de chuvas para o período. É o primeiro alerta dessa natureza em 111 anos de serviços meteorológicos do País.




