Para relembrar Drummond: cinco poemas que talvez você não conheça

Familiares e conhecedores da obra do poeta deixaram as suas dicas

Para relembrar Drummond: cinco poemas que talvez você não conheça
Foto: FCCDA
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Nesta terça-feira (17), completaram-se 34 anos desde a morte do poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. Nas datas relacionadas ao ícone itabirano, geralmente surgem várias matérias relembrando seus principais poemas, com depoimentos de familiares próximos, entre outras coisas.

No entanto, desta vez decidimos fazer algo diferente. Entre estudiosos da obra drummondiana e familiares, a DeFato conversou com cinco pessoas que se conectam, de certa forma, ao poeta. A elas foi incumbida a missão de escolher um poema que não costuma ser citado entre os versos mais conhecidos do itabirano, mas que você precisa conhecer. Confira!

Fernando Silva – Jornalista

Poema: A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

Segundo Fernando Silva, jornalista da DeFato, o poema “A bunda que engraçada” revela o lado eclético de Drummond, cuja obra perpassou por vertentes como filosofia, psicologia, antropologia e sociologia.

“‘A bunda que engraçada’ revela um Drummond maravilhosamente inusitado ao homenagear a preferência nacional (a parte mais sublime da anatomia feminina, uma atração internacional). Vale a pena ler o livro (póstumo) com os poemas eróticos do mais ilustre dos itabiranos: ‘O Amor Natural'”.

Edmilson Caminha – Escritor, jornalista e professor

Poema: Cota Zero

Grande conhecedor da obra drummondiana, Edmilson também foi convidado pela reportagem para participar da matéria. O escritor escolheu aquele que acredita ser o trabalho mais curto de Drummond: Cota Zero. Abordando a morte, o poema possui apenas três versos, como pode ser visto abaixo.

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

Além do tamanho inusitado, o poema também possui uma história curiosa por trás. Segundo Caminha, em 2002 o produtor Paulinho Lima, dono da editora musical “Luz da Cidade”, decidiu homenagear o centenário do nascimento de Drummond e solicitou a artistas de vários ramos que gravassem alguns poemas do itabirano.

Um dos participantes foi o escritor mineiro Roberto Drummond, que, por não contar com tanto tempo para a realizar a gravação, optou por algo mais sucinto e escolheu, justamente, Cota Zero. A infeliz coincidência é que horas depois de gravar o poema, cujo tema é a finitude humana, Roberto sofreu um infarto e faleceu.

Mas além de relatar a história, Edmilson Caminha também faz questão de lembrar o conceito de imortalidade que gira em torno do artista. “Os membros da Academia Brasileira de Letras são chamados de imortais. Drummond nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras, e resistiu, enfaticamente, aos convites feitos para se candidatar. Mas Drummond é imortal, porque ele e a sua obra continuam. E daqui a 100, 200 anos, Drummond continuará lido, admirado e lembrado. Isso que é imortalidade, não é você ocupar a cadeira em uma academia”, destaca.

Marcos Alcântara – Superintendente da FCCDA

Poema: Ilusão do Migrante

Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.

Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é consequência
de um certo nascer ali.

Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.

Que carregamos as coisas,
moldura da nossa vida,
rígida cerca de arame,
na mais anônima célula,
e um chão, um riso, uma voz
ressoa incessantemente
em nossas fundas paredes.

Novas coisas, sucedendo-se,
iludem a nossa fome
de primitivo alimento.
As descobertas são máscaras
do mais obscuro real,
essa ferida alastrada
na pele de nossas almas.

Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim mesmo,
este vivente enganado, enganoso.

Superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), Marcos Alcântara escolheu “Ilusão do Migrante” porque, segundo ele, este foi um dos primeiros poemas que o fez vivenciar a obra drummondiana em Itabira. Os versos trazidos acima servem como uma forma de fortalecer seu vínculo com a terra natal durante suas viagens por outros locais.

“Nesse poema o Carlos demonstra, realmente, um grande amor por Itabira. E nas minhas andanças pelo Brasil e pelo mundo, eu sempre tive esse poema como um fortalecimento do vínculo com a minha terra natal. Acho que nesses 34 anos sem o Carlos, estamos, a cada dia, descobrindo mais o amor dele por Itabira, a defesa política do Carlos, a defesa econômica e a preocupação com o bem-estar da nossa cidade”, opina.

Otávia Senhoria – Sobrinha-neta

Poema: Além da Terra, além do Céu.

Além da Terra, além do Céu

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam o pensamento e o coração vamos!

vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramáticas

e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar,

razão de ser e de viver

Sobrinha-neta de Drummond, com quem tinha uma relação muito afetiva, Otávia Sinhoria afirma que o poema “Além da Terra, além do Céu” expressa a importância do amor, o que o torna o mais lindo da obra drummondiana.

“O considero o poema mais lindo de Drummond porque ele expressa a importância de amar. Tem uma parte, que acho fascinante, que é: ‘o verbo fundamental, essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política, o verbo sempreamar, o verbo pluriamar, razão de ser e de viver’. Ou seja, o amor resume tudo, resume a razão de estarmos vivos. Então eu acho que é um dos poemas mais significativos – e pouco conhecido – do Drummond. Eu, particularmente, o considero maravilhoso”, explica.

Solange Alvarenga – Coordenadora do Memorial Carlos Drummond de Andrade

Poema: O Eco

A fazenda fica perto da cidade

entre a fazenda e a cidade

um morro, a farpa de arame, a porteira, o eco.

O eco é um ser soturno,

acorrentado na espessura da mata

e profundamente silencioso em seu mistério não desafiado.

Passo

Não resisto a provocá-lo.

O eco me repete ou me responde?

Forte e monossílabos

grita, ulula, blasfema

brinca, chalaceia, diz imoralidades

finais de coisas doidas que lhe digo

e nunca é alegre, mesmo quando brinco.

É o último selvagem sobre a terra

todos os índios foram exterminados ou fugiram

restou o eco, prisioneiro da minha voz.

De tanto se entrevar no mato, já nem sei se é mais índio ou vegetal, ou pedra

na ânsia da passagem de um som do mundo em boca de menino

som libertador, som moleque, som perverso

qualquer som de vida despertada

o eco no caminho entre a cidade e a fazenda

é no fundo de mim que se repete

Por fim, quem deixa a sua sugestão é a coordenadora do Memorial Carlos Drummond de Andrade, Solange Alvarenga. A escolha por “O Eco” passa por questões afetivas da também professora. Segundo Solange, o poema, que faz parte do livro “Boitempo”, remete à sua infância, quando ela e outros familiares faziam visitas à “tiazinha”.

“Em seus poemas no livro Boitempo, Drummond faz-me lembrar a minha infância, inclusive no poema chamado ‘O Eco’. Por quê? Porque nos domingos a gente ia visitar a tiazinha lá no pontal, e, antes de chegar na casa dela, meu avô falava com meu pai ‘para parar a rural’. Aí descíamos da rural, onde havia um mato cheio de xique-xique, uma plantinha muito linda. E mesmo meu avô, que era todo fechado, não gostava de muita conversa, parava e dava um grito. Logo após vinha a resposta, era o eco”, relembra.