‘Carlos era um avô maneiríssimo e sentia muita saudade de Itabira’
Pedro Drummond, Dolores Dutra de Moraes (esposa de CDA) e o poeta Carlos Drummond de Andrade: avô deixou lições ao neto que hoje cuida de seu acervo
Família e Itabira sempre foram dois temas muito presentes nos poemas e crônicas de Carlos Drummond de Andrade. O escritor gostava de falar de sua infância, rendia homenagens apaixonadas à sua mãe, Julieta Drummond de Andrade, e à filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, e não cansava de citar sua terra natal.
Itabira e os tempos de menino foram sempre retratados com muita ternura por Drummond, e isso não é apenas constatação de quem lê suas obras. É atestado pela própria família do poeta. Neto mais novo de CDA e com a recompensadora missão de cuidar de todo o acervo do avô, o cenógrafo Pedro Augusto Graña Drummond é uma dessas vozes que passa recibo de que Carlos – como ele se refere ao poeta – era um saudosista. E refletia isso ao falar e escrever sobre Itabira.
No dia em que se completa 30 anos da morte de Drummond (o poeta faleceu em 17 de agosto de 1987, vítima de um infarto), DeFato Online foi atrás de quem respira as obras do poeta 24 horas por dia. Pedro Drummond vive no apartamento em que avô morou, em Copacabana, conserva bens do poeta e está à frente de tudo o que é publicado com o nome de CDA. E mais: tem na memória os anos de convívio com o avô Carlos, a quem chama de “maneiríssimo”.
Filho de Maria Julieta com o escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, Pedro nasceu em Buenos Aires e veio morar no Brasil em 1980. Foram sete anos de convivência bem próxima ao avô, até que em 1987, 12 dias antes de morrer, o próprio Drummond deu ao neto a incumbência de cuidar de seu acervo. Casado com uma itabirana e pai do pequeno Miguel, Pedro vem à terra natal do avô com certa constância.
Na entrevista a seguir, Pedro fala da relação de Carlos Drummond de Andrade com a família, com Itabira, avalia a utilização do nome do poeta na cidade e aborda outros temas. Confira!
– Como foi a sua relação na infância com Drummond?
Suponho que minha relação com Carlos foi a que todo neto tem com um avô amoroso, por isso guardo ótimas lembranças dos tempos em que vinha passar as férias aqui no Rio de Janeiro e das raras visitas que ele e vovó nos fizeram em Buenos Aires, antes de 1980, quando vim definitivamente ao Brasil. Carlos foi um avô maneiríssimo.
– Como era a relação de Drummond com a família em geral, sobretudo aqueles que ficaram em Itabira?
Em nosso pequeno núcleo familiar, composto por vovó, Carlos, mamãe, papai e meus dois irmãos, a relação entre todos sempre foi afetuosa, apesar da distância entre Buenos Aires e Rio de Janeiro. Naquele tempo a gente se comunicava por cartas enviadas pelo correio ou através de amigos que viajavam, ocasionalmente marcava-se um dia para falar ao telefone (não existia DDI e uma chamada internacional era um luxo complicadíssimo).
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A filha Maria Julieta, a esposa Dolores Moraes e Drummond Foto: Acervo CDA
– Depois de se mudar para o Rio de Janeiro Drummond voltou a Itabira com constância? De que maneira ele falava de sua terra natal para a família?
Pelo que tenho entendido, a relação dele com a família que permaneceu em Minas se deu, também, através de correspondência. Houve ocasiões nas que ele viajou a Belo Horizonte e a Itabira, por motivos familiares, como a doença e morte da mãe e de irmãos. Ele escreveu sobre isso em páginas do diário, que entregou para mamãe em um envelope e que serão publicadas em breve sob o título "Uma forma de saudade – Páginas de diário", onde narra a perda de seus parentes e de dois grandes amigos (Manuel Bandeira e Rodrigo Mello Franco de Andrade); por sinal, trabalhei na organização deste livro que também terá vários poemas de Carlos inspirados nos episódios narrados.
– O quadro de Itabira, que “provocava dor” no poeta, continua no mesmo local?
Lembro que Carlos tinha uma foto de Itabira no seu escritório, mas não posso afirmar que essa tenha sido a foto citada no poema. Há quem diga que era uma foto de Itabira no escritório onde ele trabalhou anos, no MEC. A foto do poema é um símbolo de um tempo que não existe mais, essa era a dor de Carlos: a saudade. Lamentavelmente houve interpretações erradas que levaram algumas pessoas a acreditar que Carlos não gostava de Itabira. Basicamente, Carlos não gostava de viajar. Itabira está presente em muitos de seus livros de poesia, do primeiro ao último, e em inúmeras crônicas que publicou nos jornais.

Os "vários Drummonds" Foto: Acervo CDA
– O senhor possui grande acervo de Drummond, especialmente cartas trocadas com muita gente. Consegue sintetizar qual era o principal sentimento que ele exprimia nessas correspondências?
O "Acervo CDA", como costumamos chamá-lo, está distribuído da seguinte maneira: no Arquivo Museu de Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa, aqui do Rio, está o arquivo pessoal que ele mesmo fez questão de doar ainda em vida (o inventário deste acervo foi publicado pelo AMLB); no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro está a biblioteca pessoal de CDA, mais algumas pastas com documentos sobre sua família, Itabira, recordações e cartas que ele recebeu da mãe; aí em Itabira, além dos equipamentos drummondianos da cidade, há documentos e objetos pessoais como móveis que ele e vovó usavam (última máquina de escrever, tapetes da sala de visitas, máquina Singer de vovó, além de livros, fotos e das cartas que Carlos escreveu para sua mãe que Itabira adquiriu há poucos anos, durante a gestão anterior, por recomendação minha). Aqui em casa ficaram as cartas que ele nos mandou, a correspondência dele com mamãe e papai, além de fotos familiares. Também há documentos drummondianos dignos de estudo no Arquivo Público Mineiro e na UFMG. Suponho que deve ter muita gente por aí com cartas e autógrafos de Carlos.
– O que de mais forte o senhor carrega de característica de Drummond?
Não posso afirmar que característica de Carlos eu assimilei melhor, se é que assimilei alguma virtude dele além da falta de cabelo. Pelo menos tento emular sua conduta coerente da melhor maneira possível, seguindo aqueles conselhos que ele recebeu de sua própria mãe, não interferindo na vida dos outros e sendo um pai amoroso e justo com meu filho, como ele foi com mamãe e, por extensão, com os netos.

"Carlos era um avô maneiríssimo", diz neto Pedro Drummond Foto: Acervo CDA
– O senhor já esteve em Itabira e recentemente chegou a conversar com lideranças políticas da cidade. Como avalia a presença do nome de Carlos Drummond de Andrade na cidade em que ele nasceu?
Não tenho tido contato com "lideranças políticas" de Itabira.
Visito Itabira com alguma frequência: minha mulher e companheira é itabirana, temos um filho que adora passar as férias em Itabira, na casa dos avós, onde ainda pode brincar de jogar bola na rua com os primos e amigos.
– Para marcar os 30 anos da morte de Drummond, a FCCDA e a Câmara elaboraram uma programação especial. Entre os assuntos discutidos está a importância do poeta para o desenvolvimento socioeconômico de Itabira. Se fosse convidado a opinar, de que maneira acha que esse desenvolvimento poderia ser alcançado?
De uns anos pra cá, Itabira começou a cultuar e potencializar mais a memória de CDA na cidade. A instauração muito original dos "Caminhos Drummondianos", a Casa de Drummond, o Memorial CDA, a Fazenda do Pontal, são exemplos de ações que transcendem qualquer homenagem efêmera, isso é muito bom para todos. O próprio nome (FCCDA) da Secretaria Municipal de Cultura na cidade é mais um reflexo da importância que Itabira dá ao nosso querido poeta.
Minha família e eu, sempre agradecemos comovidos todas as homenagens que vocês prestam ao Carlos. Quando me convidaram para opinar, no tempo do Prefeito Jackson (Jackson Alberto de Pinho Tavares), sugeri ações para fortalecer a união da memória de CDA à imagem de Itabira, algumas dessas sugestões ainda valem. O obstáculo a ser vencido é a falta de continuidade de um trabalho profissional, regular e consistente, isto é, digno de Itabira e de CDA. Aqui entram questões de ordem administrativa e política que não me cabe comentar, até porque não sou eleitor na cidade. Entendo que o desenvolvimento cultural de qualquer cidade é algo que deveria ser ponto comum a todas as administrações, consideradas antes, claro, as prioridades de cada lugar. Em todo caso, temos exemplos de cidades pelo mundo afora que trabalham muito bem a memória de seus cidadãos ilustres e obtém enormes benefícios com isso. Em Itabira há enorme potencial para esse trabalho, basta querer fazê-lo corretamente.

Drummond em evento no Jóquei Clube do Rio de Jeneiro Foto: Acervo CDA
– Família, Itabira, mulheres e suas impressões do cotidiano sempre estiveram muito presentes nos poemas de Drummond. Pelo que conheceu de seu avô, se ele escrevesse nos dias de hoje, quais seriam os principais temas de seus poemas?
Se Carlos escrevesse crônicas hoje em dia, suponho manifestaria sua desconformidade ao ver o Brasil na situação em que está e não teria razões, como não teve antes, para alimentar muitas esperanças. E provavelmente, daria algum jeito de escrever algum poema, porque ele se comovia tanto por vitórias como por derrotas.
– O último governo conversou com o senhor sobre a possibilidade de um museu casa em Itabira. A ideia, no entanto, não foi para frente. O que a cidade teria que fazer para ter um acervo maior do poeta?
A ideia de fazer um museu drummoniano em Itabira não é nova. Para dizer a verdade é um sonho que completa uns 30 anos… Itabira tem todas as condições e acervo para fazer isso de maneira exemplar. Agora, como investir num museu novo se o da cidade está fechado há um tempão? O povo itabirano tem a resposta, e aqueles que trabalham em nome dele precisam acreditar na utilidade desses espaços e organizar, junto com a sociedade, equipes qualificadas para fazer o trabalho. Não estamos falando apenas de cultura, mas de turismo e desenvolvimento social e econômico. (Não se preocupa que não sou candidato a nada.)
– Para encerrar, se Drummond hoje escrevesse uma carta para Itabira, o que acha que ele escreveria?
Carlos tinha saudade de sua Itabira, assim como todos nós podemos ter saudade de nossa infância e mocidade. A diferença é que Itabira deixou uma marca profunda na obra e na vida de Carlos, tão profunda que no século XXI o bisneto dele (que já estuda sua obra na escola) ama a cidade onde há 90% de ferro nas calçadas.