Depoimentos, emoção e protesto marcam 1º Seminário da Apac em Itabira
A juíza Cibele Mourão chegou a se emocionar ao falar sobre os presidiários

A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados de Itabira promoveu na noite dessa quarta-feira, 5 de outubro, o 1º seminário do método Apac no município. A iniciativa abrangeu o tema “Matar o criminoso e salvar o homem – a Apac como caminho de transformação do indivíduo e da sociedade”. O seminário ocorreu no auditório da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita).
O encontro reuniu diversas pessoas e autoridades que são a favor da Apac. Do lado de fora da Acita, moradores da região em que a Apac está sendo construída, em Itabira, manifestaram, de forma pacífica, contra a instituição com cartazes e faixas.
Um dos momentos mais marcantes do seminário foi a apresentação da juíza da 2ª Vara Criminal e de Execuções Penais de Itabira, dra. Cibele Mourão Barroso, do promotor de justiça, Matheus Beghini, e do delegado de Polícia Civil, dr. Paulo Henrique Moreira Campos, que falaram sobre os desafios da segurança pública em Itabira.
A juíza Cibele Mourão apresentou dados sobre a criminalidade no município. Em 2014, Itabira tinha aproximadamente 16 mil casos criminais aguardando julgamento nas varas criminais. Hoje, a cidade possui apenas 14 mil. “Em dois anos, reduzimos o número de casos em mais de 2 mil. Estamos conseguindo resolver muito mais casos do que estamos recebendo”, contou. Mas, mesmo com esse dado positivo, Cibele apresentou outro diagnóstico crítico.
Segundo Cibele, o Presídio de Itabira possui capacidade para abrigar 194 presos, mas no momento está com 445 pessoas cumprindo pena ou aguardando julgamento. “Esse dado é, de certa forma, preocupante”, alegou. Cibele acredita que Itabira está longe do panorama ideal.
Na opinião da juíza, o sistema Apac poderia ser a saída para a superlotação. “Espero que possamos reverter esse quadro, reduzir a nossa população carcerária e dar as pessoas uma chance real de conseguir uma vida digna”, argumentou.
Favoráveis a Apac
O objetivo do seminário foi salientar a ideia de que a instituição seria uma alternativa para solucionar o problema de infraestrutura do Presídio de Itabira hoje. O primeiro a se apresentar foi o coordenador geral do programa Novos Rumos, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), o desembargador José Antônio Braga. “A Apac consegue recuperar o homem por trás do bandido. Vi isso acontecendo inúmeras vezes”, contou.
O desembargador elogiou as pessoas presentes, que são a favor da construção da Apac na cidade. “Isso mostra que Itabira não está disposta a varrer o lixo para debaixo do tapete”, disse. José Antônio também se mostrou contra o ideal das pessoas desfavoráveis a Apac. “Quem é contra a Apac é a favor da violência”, alegou.
Em um dos dois painéis temáticos, o presidente da Federação Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), Valdeci Ferreira, apresentou o método com narrativas sobre experiências de sucesso, destacando os 12 elementos que orientam sua implantação. "Não é possível que a sociedade enxergue a prisão como vingança", disse. Na sequência, recuperandos e familiares de condenados deram depoimentos, apresentando a realidade do cumprimento de pena no sistema comum e na Apac.
O professor universitário Tio Flávio, apoiador da causa APAC, fez a palestra “Realizar e Sonhar”. Na sequência, a secretária Municipal de Educação, Luciane Maria Ribeiro da Cruz Santos, encerrou o seminário com a apresentação do projeto de Leitura para o Presídio de Itabira, mostrando práticas em vigor também no sistema comum.
O evento também teve emoção, com a apresentação do Coral Madrigal Liberatus, da Apac de Nova Lima, criado em 2014. Com um teclado, o maestro Leandro Dantas regia o coral, composto por recuperandos do regime fechado, semi-aberto e aberto, foi criado em 2014. No final, foram aplaudidos de pé.
Protesto
Moradores da comunidade de Posto Agropecuário, que são contra a construção da entidade, se aglomeraram na porta da Acita. Sem alarmes, de forma pacifica e silenciosa, os manifestantes apenas exibiram faixas e cartazes, dizendo que a “Apac não respeita a decisão da comunidade”.
Segundo o presidente da associação de moradores da região, Eli Vitor Pereira, o protesto foi realizado porque a Apac não os ouviu. “Eles não nos ouviram, então estão nos desrespeitando”, alegou. Conforme o presidente, sem a comunicação entre Apac e comunidade, o apoio nunca existirá. “Não nos deram a oportunidade de nos manifestar, então não terão nosso apoio em nada”, criticou.
Eli afirmou que novas manifestações devem ocorrer. “Queremos apenas ser ouvidos e não vamos fazer nada de maneira truculenta”, disse.
Sobre a Apac
O método Apac estabelece uma relação que transita entre o tratamento humanizado e a disciplina. Assim, respeito e responsabilidade se tornam realidade para os seus recuperando. A recuperação da autoestima e as exigências com o cumprimento de tarefas e deveres contribuem para que os recuperando possam ter uma nova compreensão da vida em sociedade e, dessa forma, desenvolver os mecanismos necessários para que possam se reintegrar ao convívio em comunidade.