Moradores de bairros atendidos pela ETA Rio de Peixe relatam dificuldades por causa da água

Empresária Neide Augusta Rosa compara a água que sai das torneiras com a água mineral

Moradores de bairros atendidos pela ETA Rio de Peixe relatam dificuldades por causa da água

“Como que eu vou ter coragem de dar esta água para os meus filhos?”. É com essa pergunta que a dona de casa Antônia Santos, 31 anos, moradora do Fênix, em Itabira, convive há meses. A água que chega pela torneira é de cor turva, tem mau cheiro e gosto ruim. Esse tem sido um problema como nos bairros da região, como Bálsamos, João XXIII, Santa Ruth e Machado, todos atendidos pela Estação de Tratamento de Água (ETA) Rio de Peixe. Além de sofrer por causa da qualidade do líquido, os moradores também sofrem constantemente com a falta dele.

Antônia contou que ela e seus filhos não estão mais consumindo a água. Conforme a dona de casa, seus vizinhos que consumiram apresentaram diarreia. Nesta quarta-feira, 21 de setembro, está completando três dias que a dona de casa está sem água. “Quando ela chega, está suja”, lamenta. A moradora dá graças à Deus por ter condições de comprar água mineral, mas que muitos dos seus vizinhos não têm. “No meu bairro tem muita gente carente. Então, estão tomando essa água suja e tendo diarreia. Direto escuto o pessoal do PSF João XXIII falando de casos de pessoas que chegam muito mal por causa da água”, contou.


Antônia mostra a coloração da água que sai da torneira de sua casa

Há cinco meses, a moradora do bairro Santa Ruth, Maria da Conceição Oliveira Alves, enfrenta problemas com a água. “Para escovar dente está péssimo. Para fazer uso da água, tenho que fervê-la antes. Só após fervida é coloco no filtro. Dá muito trabalho”, conta. Segundo Maria, quem não tem filtro está correndo para comprar um, mas mesmo o equipamento não está sendo eficiente. “A vela do filtro está ficando muito suja. Temos que trocá-la quase que diariamente”, diz. Para Maria, o Saae deveria orientar melhor os moradores e dar uma explicação cabível para a situação. “Deveriam conversar mais com a gente. Porque a situação está piorando a cada dia. O Saae deve tomar uma providência o mais rápido possível”, aconselhou.

Já a situação da empresária Neide Augusta Rosa, 41 anos, não é muito diferente. Proprietária de um salão de beleza no Fênix e moradora do bairro, ela conta que há vários meses enfrenta o problema, que piorou nas últimas semanas. “A água não está saborosa e está com um cheiro muito forte. Mau cheiro mesmo. E parece que tem alguma gordura”, relata a empresária. Neide considera que está com a saúde em risco e lamenta ter que pagar a conta de água no final do mês. “Além disso, gasto de três a quatro galões de água mineral por semana”, disse. Em média, um galão de água custa $ 13.

“Tive que lavar roupas na casa da minha mãe esta semana. Porque aqui as roupas brancas estão ficando manchadas”, conta Neide, ressaltando que está optando por vestir roupas escuras.


Lidiane Martins diz que precisa beber da água, mesmo desconfiando da qualidade

Grávida e com dois filhos pequenos, de 2 e 4 anos, a moradora do bairro Machado, Lidiane Martins Oliveira, 19 anos, relatou que seu cotidiano está sendo difícil por causa da água. “Bebo ela assim mesmo, porque senão vou morrer de sede”, lamenta. “Ela está com um gosto muito ruim, não tem cabimento”, esbraveja. Segundo Lidiane, todas as vezes que ingere a água, sente queimação no estômago. “A Prefeitura deve olhar isso com seriedade. Pois a água está estragando nossa saúde e a saúde das nossas crianças”, ressalta.

Demanda por água


Ketlyn Guedes informa que venda de água triplicou no supermercado em que trabalha

Funcionários de um supermercado do bairro Santa Ruth contam que nas últimas semanas aumentaram as vendas de água mineral. “Quase que triplicou a procura”, afirmou Ketlyin Guedes, 19 anos. “O que mais vende é o galão de 20 litros. Ontem vendemos tanto que quase acabou”, completa.

A funcionária Andrea Cristina, também moradora do bairro, diz que tem visto muitas crianças e idosos adoecendo. “É muito crítico ver nessa crise que estamos vivendo, na qual falta dinheiro até para comida, termos que pagar por uma água mineral”, criticou.

Andrea também apontou que existem casos de moradores da região que chegaram a adoecer por causa da água e tiveram que se afastar do trabalho. “Na verdade estamos até pedindo um socorro para as autoridades”, afirma.

“Essa água que o Saae está fornecendo é imprópria até para um animal”, diz Roberto Carlos de Oliveira, 52 anos. “A água está com um cheiro horrível, turva e com um gosto inimaginável. Acredito que estão pegando a água direto da represa, sem tratar e colocando para a gente. Estamos pagando e somos tratados dessa maneira?”, indaga. 

Debate

A qualidade da água que chega aos moradores de bairros atendidos pela ETA Rio de Peixe foi tema de debate durante a reunião da Câmara de Itabira nessa terça-feira, 20 de setembro. O vereador Lúcio Mauro Dias (PSC), morador do bairro Bálsamos, contou que sua filha passou mal e teve que procurar uma unidade de saúde após ingerir água dentro de casa. "Estamos sofrendo", lamentou o parlamentar. 

Os vereadores pediram que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) tome providências e que forneça água mineral aos moradores afetados enquanto a situação não seja resolvida. Eles também aprovaram a convocação do diretor da autarquia, Jacir Primo, para que vá até a Câmara explicar porque a água tem chegado com qualidade duvidosa às residências. 

Minerais

Em documento enviado ao verador Lúcio Mauro, o Saae informa que foi identificado que a água possui concentração de ferro e manganês, já que é captada dentro de uma barragem na área da Vale. Segundo a autarquia, desde o fim de agosto é colocado um agente desincrustante que tem causado a redução média nos valores de turbidez da água tratada. Também de acordo com o Saae, em julho foi alterado o sistema de dosagem de cloro na ETA Rio de Peixe, que passou de líquido a gasoso, o que possibilita a eliminação dos metais presentes.

Outra medida apontada pela autarquia foi um acordo com a Vale para que a captação mude de ponto dentro da barragem. Para isso, foi necessária a aquisição de três quilômetros de tubulação. Pelo que afirmou Jacir Primo no ofício endereçado ao vereador, a obra deve ser finalizada no fim deste mês de setembro ou no início de outubro. “Quando captaremos uma água de melhor qualidade para tratamento”, afirma o presidente.

Em reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), no início de agosto, técnicos do Saae afirmaram que a água tratatada na ETA Rio de Peixe apresenta condições de consumo.