Artistas do Vale do Aço criam o projeto “Quarta Preta”

Entenda mais sobre esse movimento de valorização da cultura negra

Artistas do Vale do Aço criam o projeto “Quarta Preta”
Matí Lima, do Ecoar. Foto: Divulgação

Salvador (BA), com A Cena Tá Preta, e Belo Horizonte (MG), com a Segunda Preta, foram cidades  pioneiras na construção do pretagonismo para as produções cênicas negras através de uma  programação especial. Depois vieram as Segundas Crespas, em São Paulo (SP), e a Segunda  Black, no Rio de Janeiro (RJ). Assim, nasceu um movimento nacional de fortalecimento das cenas  e das artes negras.

 

No Vale do Aço, Gustavo Nascimento (Coordenador do Negrume Teatro), Matí Lima  (Coordenador do ECOAR), e Dani Adestino (Coordenadora do Coletivo Negro do Vale do Aço),  através das ações de seus coletivos, tem pautado e dialogado com outros artistas e com o  público as existências negras nas artes em nossa região.  

Atravessando as encruzilhadas de seus territórios, começaram a dialogar entre si, a falar de suas  inquietações, de seus desejos, do cenário da produção cultural e da economia criativa para  artistas negros e negras; da necessidade em construir espaços para apresentações  cênicas e performáticas que sejam também para trocas, diálogos, debates, estudos e  afetividades. Pensar suas existências – sujeito/artista – e negritudes através do movimento de  Sankofa. 

A Quarta Preta é um projeto idealizado e realizado por artistas negros e negras do Vale do Aço, surge de um desejo coletivo, para além de seus realizadores; é sobre desejos  verbalizados e nominados por artistas em diferentes encontros e diálogos realizados nos últimos  dois anos. Nasce com o intuito de fortalecer, estimular a criação artística afro-brasileira e  diaspórica, democratizar a potencialidade da arte negra e garantir que nossas humanidades sejam vistas e pautadas durante todo o ano e não apenas nos meses de maio e novembro. 

Segundo Gustavo Nascimento, do Negrume Teatro, a Quarta Preta é um movimento de  aquilombamento de expressões artísticas negras. “Sua existência ocorre pela ausência desse tipo  de movimento, nas últimas décadas, no Vale do Aço. É importante artistas pretos estarem  juntos, produzindo e pensando artisticamente. Sobretudo, quando dentro de um mercado,  temos nossa arte desmerecida, desvalorizada e inferiorizada por agentes brancos da produção  cultural. É sobre instaurar na região um ponto de segurança para que pessoas pretas – artistas  e público – não precisem disputar subjetividades; que possamos – SER. No nosso cotidiano existe  a luta pelas subjetividades; e já está instituído o espaço do outro ao qual não podemos ultrapassar, mas pessoas brancas ultrapassam nossos espaços o tempo todo”.

Gustavo Nascimento, do Negrume Teatro. Foto: Divulgação

 

A 1ª Edição da Quarta Preta será realizada em março, e os artistas negros e negras poderão  participar através de inscrição de sua proposta cênica e/ou performática. Em breve, será lançado  o Edital de Chamamento Público. 

Para Dani Adestino, do Coletivo Negro Vale do Aço, é importante compreendermos nossos  corpos como políticos. Admitir para nós que existe uma engrenagem sistêmica, de manutenção  das desigualdades, que está sempre privilegiando corpos não negros e/ou de outros grupos que  são minorizados; e esta engrenagem se faz presente na cadeia da produção cultural.

Dani Adestino, do Coletivo Negro do Vale do Aço. Foto: Divulgação

Mati Lima, do ECOAR, completa que é preciso dialogarmos como estas fronteiras se estabelecem  no campo artístico. “Qual é a nossa disputa de narrativas? Qual é a luta que estamos travando? Quando falamos de aquilombamentos é sobre a luta coletiva pela construção de outras  possibilidades de existências para além do pensamento eurocêntrico do que é cultura e arte. Não sermos ingênuos. Ao ter uma produção que fala sobre negritudes precisamos refletir e  questionar se o projeto é encabeçado, pensado e gestado por pessoas negras. Não generalizando, precisamos entender que há projetos que abordam nossas existências, ornado  com a roupagem da representatividade, e no fundo o que interessa a estes realizadores é o nosso corpo presente nestes espaços e não o nosso fazer artístico, e assim continuamos sujeitos subalternizados. Nossa Humanidade tem que ser inegociável. Ao estarmos dispersos, criamos  possibilidades para que roubem os bônus de nossa existência”.

A Quarta Preta é um projetomovimento artístico antirracista, voltada para um público plural,  pois a luta antirracista precisa ser uma luta de todos nós. Todos são bem-vindos! A pessoa  branca ou não negra, precisa ter ciência que este é um território para o protagonismo preto em  todas as cadeias da produção cultural e atentar para a não reprodução de atitudes racistas, seja o  racismo organizacional, institucional e/ou em suas diversificadas estruturas.  

Um quilombo – lugar de falas, escutas, vivências e afetos!

O que é Sankofa? 

Conceito da tradição africana, o sankofa, parte de um conjunto de ideogramas  chamados adinkra, representado por um pássaro que volta a cabeça à cauda. O símbolo é  traduzido por: “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”.

Ancestralidade nas Cenas Negras 

Reverenciamos os que vieram antes de nós! 

O movimento pelo fortalecimento das cenas e artes negras começou no século XXI.  Em 1944, no Rio de Janeiro, surgiu o Teatro Experimental do Negro (TEN), como um projeto  idealizado por Abdias Nascimento (1914-2011), com a proposta de valorização social do negro  e da cultura afro-brasileira por meio da educação e arte, bem como com a ambição de delinear  um novo estilo dramatúrgico, com uma estética própria, não uma mera recriação do que se  produzia em outros países. 

Alguns anos antes, aflorara em Abdias uma inquietação perante a ausência dos negros e dos  temas sensíveis à história da população negra nas representações teatrais brasileiras. Em geral,  quando lhes era concedido algum espaço cênico, este vinha para reforçar estereótipos, a partir  do direcionamento dos atores/atrizes negros/as a papéis secundários e pejorativos. Havia,  segundo ele, uma rejeição do negro como “personagem e intérprete, e de sua vida própria, com  peripécias específicas no campo sociocultural e religioso, como temática da nossa literatura  dramática.” (Nascimento, 2004, p. 210).

Por essa razão, o TEN foi pensado para ser um organismo teatral que promovesse o  protagonismo negro. Nas palavras do próprio Abdias do Nascimento, desde que era ainda uma  ideia em gestação, o TEN teria como papel defender a “verdade cultural do Brasil”. 

Fonte: https://www.palmares.gov.br/?p=40416 

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