CVV busca apoio para combater de forma mais efetiva os suicídios em Itabira
Entidade apresentou dados e pediu apoio para combater o suicídio em Itabira

A triste situação do índice de suicídios em Itabira foi tema de debate e palestra na última quarta-feira, 27 de abril, em evento promovido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), no Buffet Gut's. No local, a Organização Não Governamental (ONG) reuniu a imprensa local, a Secretaria de Saúde e outros órgãos, pedindo apoio ao fortalecimento das ações da entidade, criada na cidade no ano de 1999.
Embora Itabira não esteja, conforme o Mapa da Violência, entre as primeiras cidades com maior número de autoextermínio no país – a cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, foi a cidade com maior registro de suicídios por número de habitantes em 2012 (20 casos) – os dados são preocupantes.
O CVV buscou autoridades para defender que o assunto seja mais discutido na cidade, e em múltiplas esferas. A voluntária e membro da comissão de divulgação da ONG, Andreza de Souza Figueiredo, elencou o fortalecimento das políticas públicas de saúde mental no município nos últimos anos, mas frisou que o tema vai além da esfera da saúde, uma vez que o público que precisa ser alcançado por vezes não procura os serviços. “A valorização da vida perpassa diversas áreas”, sublinhou.
No encontro, representantes do poder público se colocaram à disposição da ONG para discutir e implementar ações de fortalecimento do serviço do CVV em Itabira. Presente à mesa, o secretário municipal de Saúde, Reynaldo Damasceno, propôs abordagens do CVV em seminário de saúde, além do agendamento de reuniões na administração do município para alinhar um cronograma de ações. A imprensa local alinhou ainda a divulgação das atividades da organização para conhecimento público.
Estatísticas
Ao contrário do que por vezes é difundido, atualmente Itabira não lidera estatísticas de suicídio no país. Não segundo os dados do Mapa da Violência, que no último estudo divulgado apontou que, em 2012, o município do Médio Piracicaba ocupava a 172ª posição nacional na listagem de óbitos por suicídios em cidades brasileiras com mais de 20 mil habitantes. Naquele ano, uma taxa de 11,7 suicídios foi registrada para cada 100 mil habitantes na cidade (em 2012, Itabira tinha uma população de 111.514 habitantes). Ao todo, 13 pessoas consumaram o suicídio em Itabira naquele ano.
No entanto, no período entre 2008 e 2012, o número de pessoas que cometeram suicídio na cidade aumentou de forma contínua – um percentual de 160% de crescimento – de cinco casos em 2008 para 13 em 2012. Quanto à população jovem, isto é, entre 15 e 29 anos, o levantamento “Os Jovens do Brasil”, do Mapa da Violência 2014, aponta que três morreram sob esta condição no ano de 2012 na cidade. Nesse sentido, quanto à taxa de suicídios de jovens por número de habitantes, Itabira integrou a 99º posição no país no referido ano.
O suicídio ainda é um forte tabu religioso e sociocultural no Brasil. O Mapa da Violência descreve que os suicídios vêm crescendo à sombra dos dois gigantes “de nossa mortalidade violenta”: a dos acidentes de trânsito e a dos homicídios, com taxas entre 4 e 6 vezes maiores. Nos anos considerados pelo levantamento divulgado em 2014, o país apresentou 5,5 homicídios e 4,5 mortes no trânsito para cada suicídio. No Japão ocorria totalmente o contrário: eram 70 suicídios para cada homicídio; 4,2 mortes no trânsito para cada homicídio.
A popularidade de Itabira no assunto ocorreu em especial por casos ocorridos entre os anos 1996 e 2002, quando houve um aumento significativo no índice de pessoas que relataram sofrimento de crises internas e sociais, se sentindo estimuladas a tentar suicídio, com aumento de 71,6% de casos durante esses anos e 65,5% nos fatos consumados. Os dados constam no estudo “O reflexo social na cidade de Itabira após o período de privatização da Companhia Vale do Rio Doce”, tese de doutorado do professor Ronaldo Gomes Alvim, que atualmente leciona no Centro Universitário Tiradentes (Unit/Alagoas).
Saúde mental
Presente no encontro, o secretário Reynaldo Damasceno citou ações do poder público municipal para a promoção de qualidade de vida à população, com serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), com unidades voltadas à Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (Capsi) e Álcool e Drogas (Caps AD). Implantando em 2014, o Caps AD, no entanto, está em imóvel alugado no bairro Penha, próximo ao Hospital Nossa Senhora das Dores. O município agora busca recursos para a construção de uma sede própria ao serviço, permitindo um Caps III, com atendimento 24 horas.
“Uma outra ação é na mudança do Hospital Carlos Chagas, que passa a ser gerido pela Fundação São Francisco Xavier, a implantação dos seis leitos de saúde mental que o município já está credenciado mas não tinha conseguido implantar”, acrescentou Reynaldo. Os leitos citados por ele deverão funcionar a partir da segunda fase da nova gestão do HCC, a partir de julho. Até o mês, apenas leitos clínicos já em funcionamento estarão em operação.
A entidade
O Centro de Valorização da Vida foi criado no país há mais de 50 anos. Em Itabira, por sua vez, tem atividades há 17 anos. O CVV oferece apoio emocional gratuito para pessoas que estejam passando por momentos difíceis, com sigilo total. O serviço de escuta respeitosa é oferecido na cidade por meio do telefone (31) 3831-4111. O funcionamento do canal é das 18h às 22h, todos os dias.
O Centro está presente atualmente em três municípios mineiros. Além de Itabira, há voluntários da iniciativa nacional em Uberaba em Belo Horizonte. No entanto, um desafio enfrentando pela ONG é a rede de voluntários, ainda pequena. Um desejo dos participantes é a ampliação dos serviços e quadro de participantes a fim de retomar o atendimento por 24 horas e em outros canais de atendimento. Hoje, uma média de 166 ligações são recebidas por mês pelo grupo de trabalho.
O principal objetivo do CVV é a prevenção do suicídio. “Itabira não está mais no ranking de suicídios, como ouvimos tantas pessoas falarem. Temos feito um árduo trabalho e a partir do apoio da imprensa, do governo, poderemos ampliar nossas ações. Queremos fazer com esse trabalho chegue aos quatro cantos da cidade e ultrapasse fronteiras”, citou, por sua vez, a coordenadora da ONG no município, Valdélia Almeida Chagas Fonseca.
Quem pretende se voluntariar ao CVV precisa ter pelo menos quatro horas de disponibilidade semanal para o serviço e ser submetido a um treinamento oferecido pela ONG. O treinamento para a abordagem adequada e respeitosa dura aproximadamente dois meses e é necessário ser maior de 18 anos. O grupo também depende de doações financeiras para a manutenção dos serviços. Outras informações são possíveis no telefone da entidade – (31) 3831-4111.