O itabirano Marco Antônio Lage, diretor de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da Fiat, enviou uma carta à redação de DeFato Online para se posicionar sobre a construção de uma sede da Associação de Proteção e Assitência ao Condenado (Apac) em Itabira. O executivo, que também é presidente do Instituto Minas Pela Paz, é um dos principais defensores da instalação da entidade no município. No relato, ele pede que a comunidade de Córrego do Meio e aos vereadores que "baixem as armas" e procurem conhecer melhor a metodologia e os propósitos da Apac.
Leia, na íntegra, a carta de Marco Antônio Lage:
Carta de um Itabirano aos conterrâneos e aos vereadores da cidade
(Marco Antônio Lage)*
Há dez anos eu observava um conflito velado entre uma comunidade e uma indústria. De um lado da rodovia 381, uma grande favela com tudo aquilo que uma grande favela tem e que podemos resumir em falta de oportunidade e violência. Do outro lado, uma montadora de carros com tudo aquilo que uma grande indústria tem e que podemos resumir em poder e empregos.
Eu como diretor da Fiat, poderia ter seguido a minha vida ignorando a comunidade do Jardim Teresópolis, fingindo para mim mesmo que ela não estava ali, assim como a sociedade em que vivo ignora um deficiente físico empoeirado ao chão da rua pedindo esmola. Sim, eu poderia. Poderia porque a cultura de comportamento da classe média e da elite de países como o meu permite que eu conviva sem culpa com o cruel abismo social, como se a miséria alheia não fosse responsabilidade minha também. Afinal, além de ter meus impostos retidos na fonte, o fato de eu trabalhar duro me dá uma pseudo garantia de que não sendo um vagabundo estou fazendo minha parte para garantir o meu e o dos meus. O mendigo empoeirado não era meu. Até eu entender que não só um doente ao chão, como o craqueiro, o assaltante ou qualquer outra vítima da falta de oportunidade ou de qualquer outra circunstância são todos socialmente nossos.
Assim eu atravessei a rodovia, atravessei o preconceito de quem me recomendava a não cutucar a onça com vara curta e construí uma ponte sobre aquele abismo. Essa ponte se chama Árvore da Vida, sobre a qual escrevi um livro recentemente. Mas esta carta não é sobre o sucesso dessa experiência, que fez com que a Fiat e a comunidade alcançassem o fim do conflito através da união entre suas culturas, suas pessoas e suas potencialidades.
Esta carta é sobre responsabilidade social. Algo que eu tenho e que talvez, neste momento, esteja faltando aos ilustres vereadores e amados conterrâneos de Itabira que estão indo às ruas manifestar contra a construção de uma APAC.
Depois de anos dirigindo o programa Árvore da Vida (além da diretoria de Comunicação e Sustentabilidade da Fiat), aceitei há quatro anos acumular voluntariamente um outro desafio social que é a direção do programa Minas Pela Paz.
Vou te dizer, caro Itabirano, que é muito fácil montar um coral e colocar meninos carentes para cantar com um astro como Andrea Bocceli. Vou te dizer, caro itabirano, que é muito gratificante empoderar donas de casa dando a elas curso de design e viagem à Itália. Vou te dizer, caro itabirano, que fazer o bem para pessoas de bem é mais fácil que andar pra frente. Ainda mais quando se trata de redistribuição de renda através de oportunidade em programas de isenção de impostos.
Não há nada mais bonito que construir uma escola, dar merenda e garantir a qualidade pedagógica para crianças carentes. Tudo isso é tão lindo quanto necessário. E viva o terceiro setor e as empresas que arregaçam as mangas e praticam suas boas ações. Mas, repito, isso é mole!
Difícil, difícil mesmo, é fazer tudo isso para quem não tem mais meia dúzia de anos de idade, e sim, mais de uma dúzia de crimes nas costas.
Eu te entendo, caro manifestante, que não é fácil olhar para este sujeito. Muito menos, defender sua dignidade, seu direito a uma Apac.
Hoje temos um conflito entre a Unifei e seu Parque Tecnológico e a Apac. Entre o que há de mais legítimo – a educação – e o que há de mais marginal (no pensamento comum e restrito) – os direitos (humanos) de quem violou a sociedade.
Dos senhores e senhoras manifestantes contra essa segunda turma, chegamos a ouvir que se as obras da Apac começarem no terreno vizinho ao que será o parque tecnológico, na comunidade do Posto Agropecuário, os senhores e senhoras vão quebrar tudo e tacar fogo nas máquinas (conforme declarou um manifestante na tribuna da Câmara ). Ok! Mas cuidado, caso os senhores ou senhoras sejam presos por conta deste ato de revolta, Itabira não terá uma Apac para acalmar seus ânimos e ressocializá-los.
Mas não vamos ficar aqui com mesquinharias discutindo quem é mais importante que quem. Não se trata de uma disputa entre escola e cadeia.
Se existe o crime é porque faltou educação. Neste caso, perderíamos nosso tempo debatendo questões de hierarquia entre o ovo e a galinha. Não é o caso, não temos tempo pra isso. (O mundo corporativo fez de mim um homem apressado e pragmático, então mãos à obra que o tempo urge e a Sapucaí é longa).
Temos aqui uma oportunidade de unir duas coisas fundamentais para a sociedade: educação e segurança. Não existe segurança sem educação e não existe educação sem segurança. Vamos brigar agora?
Ao invés de levantar a voz contra alguma coisa, vamos nos unir, vamos entender que uma Apac é motivo de muito orgulho para uma cidade assim como sua Universidade e seu centro tecnológico. Vamos entender que já nos basta a violência daqueles que precisam de Apac, não sejamos nós tão violentos quanto os que já foram julgados pela Justiça!
Que papo é este de tacar fogo nas máquinas e quebrar a construção de uma escola?
Sim! Vc sabia que a função da Apac é ressocializar através da educação e não da exclusiva punição?
Você sabia que no sistema Apac isso sai da teoria, do discurso ideológico e vira realidade?
Você sabia que o cara que assaltou a padaria do Sr. Fulano está preso e que se ele não for educado (como já não foi quando era uma criança de uma comunidade miserável) vai sair da cadeia para assaltar a padaria do Sr. Fulano novamente e do Beltrano também?
Você sabia que assaltar a padaria é o que ele sabe fazer de melhor? Mas você já parou para pensar que se ele tiver uma Apac ele vai aprender outras coisas mais legais, úteis, salutares e edificantes do que simplesmente roubar o que é do outro?
Amigos e amigas da manifestação, abaixem suas armas, abaixem o tom de suas vozes e vamos conversar. Vamos conciliar. Vamos olhar o outro. Vamos encontrar uma solução mais inteligente do que incendiar.
Temos um projeto belíssimo, uma experiência dando certo em diversas comarcas de Minas Gerais e precisamos implantar isso em Itabira. O terreno que nos deram foi este ou opções impossíveis, totalmente inviáveis. Então seguiremos neste terreno e temos certeza que os senhores vão se orgulhar de ter uma Apac para contar aos que estão além de nossas montanhas itabiranas, que na nossa terra existe recuperação de indivíduos.
Quem sabe teremos um ex recuperando, um ex sentenciado, estudando na nossa Unifei?
Se é possível? Claro que sim! Desde que a gente construa uma ponte. Esta ponte se chama Apac.
*(Marco Antônio Lage é Diretor da Fiat e Diretor Geral do Instituto Minas Pela Paz)