O futuro ainda é incerto

Cristiano Monteiro, do Sindiextra, diz que mercado minerador passa por momento de incerteza

O futuro ainda é incerto

D epender demais de uma única atividade econômica é sempre um risco para os municípios. A mineração, carro-chefe da economia em Minas Gerais, é um exemplo disso. Se o mercado vai bem, não há do que se queixar. Mas se o preço cai lá na China, o efeito dominó chega ao seio das famílias mineiras quase que imediatamente.

Em tempos de crise, sindicatos, associações comerciais e outras entidades de classe reagem, fazem grandes manifestações públicas e defendem seus representados cada um à sua maneira. Sobre as perspectivas da mineração para 2016 e próximos anos, DeFato conversou com o diretor administrativo do Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (Sindiextra), Cristiano Monteiro Parreiras, que tem uma visão pouco otimista acerca do que vem por aí. Segundo ele, não há consenso entre os especialistas. “A única certeza é a de que o cenário para os próximos anos é bastante desafi ador”, diz.

Diagnóstico

“A economia brasileira atravessa um momento delicado, onde se percebe uma significativa diminuição do PIB e, consequentemente, a redução dos investimentos. O setor mineral, por sua vez, é duplamente impactado. O desaquecimento da economia nacional, especialmente no setor de construção civil, acarreta uma redução acentuada na demanda pelos minerais que chamamos de agregados da construção civil, tais como areia, brita e calcário. A crise na construção civil associada à queda nas vendas da indústria automobilística impacta na produção de aço que, por sua vez, leva a uma menor demanda de minério de ferro no mercado doméstico. No cenário internacional, a redução do ritmo de crescimento da economia mundial, notadamente da economia chinesa, que é a maior consumidora do minério de ferro exportado pelo Brasil, somada ao crescimento da produção deste mineral pela Austrália, provocou uma queda de mais de 50% no valor da commodity, fazendo com que o setor atravesse a mais grave e profunda crise das últimas décadas”.

Pode piorar?

“O futuro ainda é incerto. Não há consenso. Alguns analistas dizem que o preço tende a recuperar, outros dizem que tende a se manter baixo. A única certeza que temos é de que o cenário para os próximos anos é bastante desafiador. O mercado de commodities é cíclico. A diferença do que enfrentamos em 2008/2009 para agora é que, naquela época, o preço rapidamente se recuperou, ao passo que hoje já temos mais de um ano de baixos preços da cotação do minério de ferro. O momento é de união de esforços para superarmos a situação. As empresas estão tendo de se reinventar e readequar para enfrentar a crise. Eventuais ajustes são necessários para que as empresas sobrevivam nesse cenário de preço baixo, caso contrário, serão obrigadas a encerrar as suas atividades, o que agravaria ainda mais a questão dos empregos”.

Diversificação

“Mudar a vocação das economias´locais é uma equação de muitas variáveis, pois depende da interação próxima, e por um longo período, de diversos atores. As empresas do setor têm procurado auxiliar o Poder Público e a sociedade neste desafio. Em Itabira, já observamos algumas iniciativas com êxito que, nos últimos anos, vêm se transformando em um polo educacional”.

Minas Gerais

“O Brasil tem várias vantagens competitivas em relação aos demais países mineradores e, neste ponto, Minas Gerais é protagonista. Costumo dizer que em Minas Gerais encontramos quase todos os elementos da Tabela Periódica. Somos um estado rico em minerais. Temos grandes minas de minério de ferro de boa qualidade, somos o maior produtor mundial e temos as maiores reservas de nióbio, mineral estratégico para a indústria mundial. O estado é responsável por aproximadamente 53% da produção brasileira de minerais metálicos e 29% de minérios em geral. Neste contexto, o nosso maior diferencial competitivo é a nossa riqueza mineral. Por outro lado, temos de melhorar a nossa infraestrutura e a produtividade da nossa indústria”.

                                                                                                                                                                      Sérgio Santiago/DeFato
Mineração é carro-chefe da economia de Minas Gerais e passa por grave crise financeira

Economia mais competitiva

“Nesse ponto há muito a ser feito. Temos de procurar reduzir o chamado custo Brasil, pois temos uma infraestrutura precária e ineficiente. Temos elevados custos de energia e difícil acesso a fontes de fi nanciamento mais baratas. O nosso processo de licenciamento ambiental é muito caro, longo e burocrático. Tudo isso torna os nossos produtos mais caros quando comparados com a indústria mundial e, por isso, pouco competitivos”.

Desafiador

“O cenário atual é desafiador, porém tenho confi ança de que, com a qualidade das nossas reservas minerais, com a competência da nossa gente e com a resiliência da nossa indústria, superaremos este momento de crise. É o momento de buscarmos reformas para melhorarmos a nossa competitividade e buscarmos novamente o protagonismo mundial na exploração mineral”.