Reportagem publicada na edição 270 da Revista DeFato
Amor às montanhas, às caminhadas e à natureza! É com essa filosofia que cada vez mais trekkeiros se juntam para caminhar pelas mais variadas trilhas no Brasil e no exterior. A modalidade é uma atividade física, aeróbica, e que, na tradução literal, significa andar por locais naturais. O trekking é, na verdade, a mais antiga e conhecida forma de deslocamento do ser humano, mas que pode ser praticado tanto por lazer quanto em competições.
O trekking é muito praticado nos Estados Unidos e na Europa, e nos últimos anos tem se popularizado no Brasil, principalmente em Minas Gerais, que possui diversas belezas naturais. Em Itabira e região, o número de adeptos não para de crescer. Gente como os amigos João Ricardo Dornelas, 56, e o chileno Ricardo Rocco, 37, que sempre que podem se reúnem para andar por aí. “Nós gostamos de caminhar, fazer escalada, andar de bicicleta e começamos a praticar o trekking com pequenas travessias, mas já fizemos algumas consideradas as mais difíceis do Brasil”, conta João.
João acredita que o trekking é uma das atividades ao ar livre mais seguras, e que pode ser praticada por qualquer pessoa saudável, independente da idade.A acessibilidade fi nanceira é outro ponto favorável. Para os iniciantes, é recomendável a prática de caminhadas regulares antes de partir para as trilhas. “O ideal é que o iniciante esteja acompanhado sempre de guias experientes, que já tenham feito a trilha anteriormente. Não recomendamos ninguém a praticar o trekking sem ter o mínimo de equipamentos adequado. Por exemplo, se estiver sem uma bota, que é o calçado aconselhado, pode correr o risco de causar uma torsão”, diz Ricardo Rocco.
A dupla acredita que o trekking é um estilo de vida que proporciona diversos prazeres, como a saúde, o contemplo da natureza – do amanhecer ao pôr do sol – e a fuga do stress do dia-a-dia. Entre os principais desafi os estão a falta de água – várias trilhas não têm água e é preciso levar – e o percurso em si. Ricardo afi rma que praticar trekking não é simplesmente andar. “É interessante prestar atenção no caminho e nas soluções dadas aos problemas que surgirem para aprender a caminhar em ambientes naturais”, ensina Ricardo.
Outro aspecto importante é o companheirismo. “Se um machuca, abortamos a missão. Estamos ali para um apoiar o outro. Caminhar, chegar e voltar com segurança, mas se acontecer algum imprevisto temos os amigos ali”, conta Ricardo. Segundo eles, a lei da montanha é clara para os praticantes. “Nunca subestime a montanha. Se alguém precisa de ajuda, esse alguém tem que ser ajudado, isso é lei”, completa João.
No Brasil, existe uma época certa no ano para praticar a modalidade. “A temporada no Brasil é de abril adiante, porque o tempo fi ca mais estável”, explica Ricardo. Em setembro, os dois amigos partirão para uma empreitada diferente. Eles irão para um trekking de nove dias na Patagônia Chilena. “Tem dois anos que estamos programando essa viagem, vamos pegar ventos acima de 120 quilômetros por hora e neve”, diz o aventureiro, empolgado e ansioso.
Do escritório para o mato
O consultor de marketing Marco Santos pratica o trekking desde criança e hoje, com 37 anos, coleciona trilhas pelo Brasil. “Eu comecei quando tinha uns sete anos, sem saber que estava praticando o esporte, e virou uma paixão”, conta. Durante os dias úteis, Marco trabalha em um escritório em Itabira. Quando chega o final de semana, calça a bota e sai para caminhar pelas matas.
Para ele, a caminhada em si não faz No Brasil, existe uma época certa sentido se não estiver acompanhada de alguma motivação, seja física ou psíquica. “Quero que mais pessoas compartilhem desse meu sonho, porque não tem graça conquistar sozinho. Acredito no trabalho em equipe. É como um amigo meu que pesava mais de 100 quilos, e hoje, com o trekking, já perdeu 12 quilos”, diz.
Outro ponto que Marco afirma ser muito importante é o “heroísmo”, que deve ser evitado. Segundo ele, as pessoas não podem querer fazer o trekking de qualquer forma e achando que são capazes de qualquer coisa. “Muitos jovens têm uma visão vaga sobre perigo e morte, se julgam heróis, e isso não pode, porque uma pisada em falso, já machuca. Se machucou é que não prestou atenção nos sinais. Precisamos ter essa responsabilidade e tentar sempre o máximo de segurança”, aconselha.
Causos e casos
Andar por trilhas rende não só boas imagens, mas também boas histórias. Marco conta que um colega foi para a Serra do Lobo, no lugarejo conhecido como Cabeça de Boi, em Itambé do Mato Dentro, e levou uma cachorra labrador junto. Já no alto da Serra, descobriu que a cadela estava no cio. “Ele teve que dormir com ela dentro da barraca e um lobo
ficou do lado de fora dando arranhões e fungadas a noite inteira. De manhã, a barraca estava toda urinada. Ele passou um aperto”, narra o consultor de marketing. Na Serra Fina, entre os estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, os amigos João e Ricardo estavam no terceiro de quatro dias de trekking quando encontraram com três pessoas perdidas. “Eles estavam desidratados e quase desmaiando”, recorda João. A dupla deu barracas, blusas de frio, comida e ajudou o trio a ir embora da trilha. “Nem GPS eles tinham, não iam saber sair dali. Por isso é importante estudar o percurso”, afirma Rica.
Estilos de trekking
Não existe uma regra básica para as modalidades do esporte, mas são estabelecidas diferenças quanto à regularidade, velocidade ou distância. Confira:
Trekking de Regularidade
É a realização da trilha com regras pré-determinadas, com tempo e local defi nidos. O importante não é a velocidade e sim manter-se no percurso correto e no tempo. Utiliza-se planilhas com velocidades médias, distâncias e símbolo-referência. Pode-se utilizar qualquer equipamento de medição e de cálculo.
Trekking de Velocidade
Com a utilização de cartas de navegação e bússola, a organização determina antecipadamente onde estão localizados os postos de controle. O objetivo é alcançá-los no menor tempo possível.
Travessias ou Trekking de Longa Distância
Normalmente são realizadas entre dois pontos, onde o objetivo fi nal é atingir o local proposto. Não existe competição.
Trekking de um dia
Modalidade muito usada no Brasil, principalmente próximo aos grandes centros urbanos. Com início e fim bem defi nidos. É utilizado para lazer.
CALÇADO – Os mais recomendados são as botas, que oferecem segurança ao tornozelo. Durante a caminhada, o ideal é que se utilizem duas meias, uma fi na com outra mais grossa por cima. As meias de algodão, por encharcarem facilmente, são desaconselhadas para o esporte.
MOCHILA – O tamanho deve ser escolhido conforme a duração do trekking e a quantidade de coisas que precisará levar. O ideal é que todo o equipamento caiba dentro da mochila. Em trekkings curtos, as pochetes podem ser uma boa opção.
VESTUÁRIO – Mundialmente, as calças-bermudas são as mais utilizadas para a prática do trekking. Recomenda-se também o uso de roupas claras e vale levar na mochila um corta-vento ou capa de chuva, além de um casaco, caso o tempo mude.
CANTIL – Hidratação é fundamental nas caminhadas, sejam elas competitivas ou apenas de lazer. Todo praticante vai ter sede e precisa se hidratar durante a atividade. É por isso que um cantil, de no mínimo um litro, deve estar sempre na mochila.
ACESSÓRIOS – Bonés ou chapéus também são de grande utilidade, pois protegem do sol e da chuva. Bússola, relógios, protetor solar, óculos de sol, sacos plásticos também são bem vindos.