Partos ciganos
Dona de casa Claudiana Júlia Santos, 26 anos, moradora de Hematita

Reportagem publicada na edição 270 da Revista DeFato
Se o motorista tivesse demorado um pouco mais, eu teria ganhado a minha filha na estrada”. O relato é da dona de casa Claudiana Júlia Santos, 26 anos, moradora de Hematita, distrito de Antônio Dias. Prestes a dar à luz a pequena Sophia Vitória, ela precisou correr para garantir um nascimento tranquilo à menina. O bebê estava previsto para nascer em julho, mas foi apressadinha: se adiantou e veio ao mundo no dia 15 de junho, pegando a mãe de surpresa.
O parto de Claudiana foi realizado na maternidade do Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD), em Itabira. Sophia nasceu assim que a mãe chegou à casa de saúde, por volta das 1h50. A dona de casa tem mais três filhos e conta que programou todos os seus partos, justamente por causa da viagem para Itabira. Mas a urgência para ter a caçula evidenciou o quanto a falta de uma estrutura mais eficaz pode tornar as coisas mais difíceis. “Se tivesse uma maternidade lá, ajudaria demais”, comenta.
Situações como a de Claudiana são mais recorrentes do que se pensa, especialmente em Itabira. A cidade é considerada referência regional pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, por isso, recebe centenas de mulheres prestes a entrar em trabalho de parto. Centenas mesmo! Somente entre julho de 2014 e maio deste ano foram 592 mães que deixaram seus municípios para terem os filhos na maternidade do HNSD. A cidade que mais “exporta” gestantes para Itabira é Santa Maria de Itabira. No período citado acima, foram 150 mães que precisaram percorrer os cerca de 40 quilômetros entre um município e outro para ter filhos. São Gonçalo do Rio Abaixo (94), Bom Jesus do Amparo (86) e Ferros (69) são outras cidades que apresentam números de destaque.
Maternidade fechada
A cidade de Nova Era é um caso emblemático na região. Há anos a maternidade do Hospital São José deixou de atender gestantes e as futuras mães passaram a ter que pegar a estrada para terem os filhos. As atividades foram interrompidas por falta de profissionais como anestesistas e pediatras. Outro fator foi a baixa quantidade de nascimentos, média de 12 por mês, o que inviabilizava os custos, segundo a instituição. Com o fechamento da maternidade, a referência regional de Nova Era passou a ser o Hospital Margarida, em João Monlevade, que recebe incentivo do Estado para realizar esses atendimentos.
“Esse fluxo de encaminhamento é definido em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde de Nova Era e entidades envolvidas, para garantir o bom atendimento para todas as pacientes”, informou a Assessoria de Comunicação do Hospital São José. O maior desafio é garantir o atendimento de todas as gestantes, uma vez que a unidade de destino também passa por situação complicada. “Mesmo sendo referência, o Hospital Margarida também encontra dificuldades para manter o quadro de profissionais necessários à prestação de serviços, o que em alguns casos gera o encaminhamento das gestantes a municípios como Itabira e Belo Horizonte”, informou a Assessoria. Outra dificuldade é o atendimento das gestantes que procuram o Hospital São José já em período expulsivo, ou seja, quando a criança já está nascendo.
Nesses casos, não há tempo de encaminhá- las a outro município e o parto acaba sendo realizado na própria instituição, o que não é o mais aconselhável. Com a maternidade fechada, as mulheres fazem o pré-natal em Nova Era e são encaminhadas a outras cidades para o parto, “o que gera desconforto e insegurança às gestantes”, admite a instituição.
Protestos em Monlevade
Uma das referências regionais ao lado de Itabira, João Monlevade está com alerta ligado na área da saúde. O município recebe gestantes de Bela Vista de Minas, Nova Era, São Domingos do Prata, Alvinópolis e Rio Piracicaba. Mas o Hospital Margarida acumula dívidas de mais de R$ 7 milhões e a diretoria tem se desdobrado para não deixar que setores da instituição parem de funcionar. Entre eles, a maternidade.
A situação se complicou entre abril e maio. O hospital não conseguiu fechar escalas de pediatras e gestantes precisaram procurar outras cidades, como Itabira e até Belo Horizonte. O problema era mais crítico nos fins de semana. O Hospital Nossa Senhora das Dores, por exemplo, recebeu quase duas dezenas de mulheres de João Monlevade nesses dois meses.
O problema gerou manifestações entre os monlevadenses, especialmente na Câmara de Vereadores. Entidades como a Associação Mulheres em Ação (AMA) reclamaram da situação. Até uma audiência pública foi realizada para debater as dificuldades da principal instituição de saúde do município. O temor era de que a maternidade fechasse de vez, como aconteceu em Nova Era. Cerca de um mês depois do tempo de maior turbulência, a maternidade funciona normalmente, apesar de o medo do fechamento ainda pairar sobre a cidade. Segundo o Hospital Margarida, desde o dia 1º de junho, a escala foi regularizada e os partos acontecem normalmente. “O fechamento do setor em João Monlevade traria prejuízos à população uma vez que, sendo o HM referência dessa região, as gestantes teriam que se deslocar para outra cidade”, afirmou Assessoria de Comunicação do Margarida.
Direito para todos
A auxiliar de serviços gerais, Fabiana Clara Alvarenga Lúcio Oliveira, 28, saiu de Santa Maria para ter o filho em Itabira. Ela chegou a entrar em trabalho de parto no Hospital Padre Estevam e foi encaminhada às pressas para o município vizinho. O pequeno Jonathan Oliveira nasceu às 16h15 do dia 14 de junho, 20 dias antes do previsto. O pai, Fernando Oliveira, acredita que se tivesse uma maternidade na cidade, transtornos seriam evitados. “Com certeza uma maternidade facilitaria muito”, resumiu.
O secretário municipal de Saúde de Itabira, Reynaldo Damasceno Gonçalves, esclarece que há especificamente três tipos de maternidades: as de risco habitual, as de alto risco e as maternidades de altíssimo risco. Na região, Itabira, João Monlevade e Guanhães têm maternidades de risco habitual, ou seja, onde as gestantes em estado normal são atendidas. As pacientes de alto risco (com doenças graves ou hipertensão, por exemplo) são encaminhas a Belo Horizonte.
No desenho da Rede Cegonha, do Governo de Minas Gerais, pela posição geográfica e estratégica, Itabira, que possui maior maternidade e maior volume de partos nas adjacências, foi definida como a cidade mais preparada para casos mais críticos na região. É uma explicação para o intenso registro de gestantes que chegam de outros municípios. Reynaldo também cita que o Sistema Único de Saúde (SUS) não tem barreira geográfica. Dentro do território brasileiro, uma pessoa pode ser atendida pelo SUS em qualquer lugar. Entretanto, há uma hierarquização do sistema. Em situações de maior complexidade, a referência se torna a cidade-polo, de maior complexidade e densidade tecnológica, como Belo Horizonte, que é referência para toda Minas Gerais.
Em breve, Itabira sofrerá mudanças no sistema público de saúde. Por solicitação do Ministério Público, o Hospital Carlos Chagas (HCC), que é financiado pela Prefeitura, passará a ser 100% dedicado ao SUS. Isso significa que a maioria dos partos que são feitos no Nossa Senhora das Dores migrarão para o outro hospital da cidade. Na prática, haverá duas opções de maternidade na cidade, pois a saúde suplementar vende planos que incluem esse serviço. Está sendo feita uma licitação para escolha da entidade que administrará o Carlos Chagas. Assim que o resultado sair – a previsão é julho – serão abertas duas unidades de maternidade em Itabira. Apesar da nova opção, há uma preocupação, sobretudo manifestada por vereadores da oposição, em relação à sobrecarga no HCC e ao pouco uso do HNSD. O secretário não acredita em problemas. “Hoje nós temos dois obstetras 24 horas disponíveis, além de pediatra exclusivo para a maternidade. Isso nos dá a tranquilidade de um funcionamento e essa tranquilidade vai ser mantida no hospital público”, afirma Reynaldo Damasceno.
Centralização
A dona de casa Simone Maria Silva Santos, 27, é de Bom Jesus do Amparo e teve os cinco filhos no Hospital Nossa Senhora das Dores, em Itabira. Os dois últimos, os gêmeos Rayane e Ryan nasceram no dia 15 de junho. Diferentemente das mães de Hematita e Santa Maria de Itabira, Simone teve o parto sem surpresas, dentro do prazo estabelecido pelos médicos. Ela elogia a estrutura do HNSD e diz que mesmo se Bom Jesus tivesse maternidade, optaria pelo procedimento em Itabira. Bom Jesus do Amparo é uma das cerca de 30 cidades que são subordinadas assistencial e administrativamente à Gerência Regional de Saúde (GRS) sediada em Itabira. O diretor Alexandre Faria Martins da Costa diz que da mesma maneira que gestantes de cidades vizinhas têm seus filhos em Itabira, também pode ocorrer o contrário, mas em situações sazonais como ausência de médicos.
Segundo o diretor, os impactos financeiros dessa “exportação de gestantes” já estão previstos em pactuação entre os municípios. Ou seja, quando um usuário sai de uma cidade para outra, isso já está combinado entre os gestores e o recurso é repassado à cidade que recebe a grávida. Os valores das verbas são definidos de acordo com a tabela do SUS. “Um caso recente, que exigiu muito da gente, da nossa equipe toda, foi João Monlevade não ter pediatra na sala da maternidade. Começaram a referenciar para aqui. Durou aproximadamente dois meses, mas eles conseguiram resolver”, comentou Alexandre.
De acordo com Maurício Marques, coordenador de regulação da GRS, a tendência é que cada vez mais os partos sejam centralizados em uma cidade referência, pois uma unidade com diversidade e procedimentos consegue financiar os serviços prestados. “Exemplo, se vai se fazer em Santa Maria de Itabira três partos por mês, não se consegue pagar o obstetra, o pediatra e até quem vai lidar com os equipamentos lá dentro, porque o custo é alto. Então, é melhor concentrar do que pulverizar em várias cidades”, argumenta. Para as futuras mães em cidades que não possuem maternidade, a recomendação é um acompanhamento ainda mais rigoroso das etapas da gestação. É preciso ficar bem atenta às previsões de datas dos médicos e realizar a locomoção com antecedência. E torcer para que a maternidade da cidade vizinha seja igual coração de mãe. Onde sempre cabe mais um.





