Diretor clínico demonstra preocupação com mudanças propostas para o Pronto-Socorro
Doutor Caio Seródio: preocupação com o futuro imediato da unidade

Após a divulgação de matéria nessa quinta-feira, 25 de junho, com a informação de que a Prefeitura de Itabira pretende reduzir os investimentos que faz mensalmente no Hospital Carlos Chagas (HCC) e no Pronto-Socorro Municipal (PS), DeFato Online foi procurado por médicos que manifestaram apreensão, especialmente com relação ao funcionamento do Pronto-Socorro. A reportagem, então, procurou o diretor clínico da unidade de saúde, Dr. Caio Seródio, para saber mais sobre a situação. Em nome dos colegas de profissão, ele externou quais são os principais pontos de preocupação da classe.
Dr. Caio argumentou que os médicos do Pronto-Socorro não estão apresentando resistência à montagem de escala. Segundo ele, o que há é uma preocupação com o futuro imediato da unidade. Isso porque as mudanças propostas pela Secretaria Municipal de Saúde já valeriam a partir da próxima quarta-feira, 1º de julho, e ainda não há um arranjo bem feito para se manter o mesmo nível de atendimento atual.
De acordo com o diretor clínico, a nova proposta da Secretaria Municipal de Saúde vai retirar do Pronto-Socorro um cirurgião, um ortopedista e a equipe de anestesistas. Esses profissionais seriam transferidos para uma equipe de retaguarda dentro do Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD), pagos por uma rede de assistência do Governo do Estado. "O problema é que essa retaguarda ainda não existe. E, caso ela não seja criada até o dia 1º de julho, não conseguiremos atender os pacientes mais graves aqui na cidade", explica.
Pronto-Socorro na verdade é UPA
O diretor clínico explicou que apesar de ser conhecido popularmente como “pronto-socorro”, a estrutura de Itabira é, na verdade, uma Unidade de Pronto Atendimento nível dois (UPA 2). Nos últimos anos, o governo municipal vem injetando recursos volumosos para melhorar a unidade. Assim, ela cresceu em complexidade e número de funcionários e ultrapassou até mesmo o que o Governo do Estado considera uma UPA 3. Mas não o bastante para atingir o nível de pronto-socorro.
“Hoje em dia eu considero o Pronto-Socorro como uma estrutura intermediária. Na prática, nós não temos um porte de Pronto-Socorro, mas também nós não somos uma UPA 3. Estamos no meio da linha, acima da UPA 3 pelo número de profissionais e pela complexidade que a gente resolve, e abaixo do Pronto-Socorro porque precisaria de uma série de investimentos, como a criação de um bloco cirúrgico e um centro de imagens”, explicou Caio Seródio.
Segundo o diretor clínico, para alcançar esse nível intermediário, o Pronto-Socorro de Itabira formou uma equipe multidisciplinar bem estruturada, que, atualmente, realiza mais de sete mil atendimentos por mês. O PS possui dois cirurgiões, um ortopedista durante a semana e dois nos fins de semana, dois pediatras, quatro clínicos e uma equipe de anestesia. “Hoje, graças a Deus, nós temos um Pronto-Socorro bem estruturado para atender os 13 municípios que nos têm como referência”, afirmou.

Proposta
Tecnicamente falando, a proposta da Prefeitura, segundo o médico, é elevar a unidade de Itabira de UPA 2 para UPA 3. Apesar de ser uma evolução teórica no papel, para o diretor clínico, a mudança, na prática, seria “andar para trás”. “A questão maior é que ainda não ficou definido como será essa estrutura interna do Hospital Nossa Senhora das Dores. Nós não temos hoje uma equipe de cirurgia geral, uma de ortopedia e outra de anestesia dentro do HNSD para suprir a demanda que a UPA 3 vai encaminhar para lá”, comentou o diretor clínico do Pronto-Socorro.
A preocupação do médico é que essa negociação não tenha um resultado até a data prevista para a mudança no Pronto-Socorro. Dessa forma, sem uma equipe de retaguarda no HNSD, os pacientes graves que chegam ao PS de Itabira teriam que ser transferidos para outras cidades. “Como é que nós podemos trabalhar tranquilos sem poder realizar cirurgias complexas? Como ser referência de 13 municípios reduzindo a quantidade de médicos do Pronto-Socorro?”, questiona.
Sem resistência
Caio Seródio afirmou, em várias oportunidades durante a entrevista, que não há resistência por parte dos médicos do Pronto-Socorro em montar a escala. Até porque, conforme explicou, a escala é feita pela diretoria técnica do PS, que é ligada à Secretaria Municipal de Saúde. O que existe é uma discordância sobre o novo sistema.
“Nós não concordamos com a mudança. O melhor seria manter do jeito que está”, afirmou Dr. Caio. “Não estamos indo contra a secretaria e isso quero deixar bem claro. Nós queremos ter uma relação muito boa porque essa parceria é fundamental. A gente sabe dos problemas que o município enfrenta e nós, médicos, estamos solidários a isso. Sabemos que a crise existe, mas defendemos que devemos passar por ela sem perder a qualidade da assistência na saúde”, completou.
O diretor clínico disse que só vai ficar tranquilo se até a quarta-feira o secretário Reynaldo Damasceno anunciar que resolveu a negociação com a equipe de retaguarda. “Nós estamos andando para trás. Está sendo um retrocesso. Mas se tiver que ser dessa forma, nós vamos cumprir e ver no que vai dar. Mas já adianto que é um risco muito grande. Fora que alguns médicos não vão querer se expor e ficar sozinhos em uma porta de urgência e emergência. É muita responsabilidade pela quantidade de atendimentos que realizamos aqui”, finalizou.
De acordo com o secretário de Saúde, a intenção da Prefeitura é reduzir em 20% os recursos do Hospital Carlos Chagas e em 25% os do Pronto-Socorro. A justificativa é de que as receitas do município ainda não apresentaram elevação. “Infelizmente, os cortes chegaram à saúde”, lamentou Reynaldo Damasceno durante reunião do Conselho Municipal de Saúde.





