Família que emagrece unida… Permanece unida

Pai, mãe e filho itabiranos passam por cirurgia de redução de estômago, mudam hábitos alimentares e perdem juntos 127 quilos em apenas um ano e meio

Família que emagrece unida… Permanece unida

Todo início de ano é marcado por inúmeras promessas que as pessoas fazem a si mesmas. Emagrecer, geralmente, está no topo da lista. Tem gente – a maioria – que não cumpre, sempre arruma uma desculpa. Mas tem quem leve muito a sério. É o caso de uma família de Itabira, que se uniu para atingir a meta juntos. Em um ano e meio, o empresário Leonardo Souza Martins, 34 anos, a esposa Jordânia Cristian Alvarenga, 32, e o filho Jorge Victor Alvarenga de Souza, 17, deixaram para trás impressionantes 127 quilos.

O primeiro a querer reduzir os ponteiros da balança foi o filho Jorge. Magro na infância, a partir dos sete anos o garoto começou a engordar sem parar. Na mesma medida em que engordava, o rapaz sofria com o preconceito na escola. Nas ruas ou com os funcionários do restaurante do pai a história se repetia. Aos 15, ele chegou a vestir calça numeração 56. Com o passar do tempo, Jorge atingiu os 122 quilos, chegando à obesidade mórbida. O jovem, claro, se sentia inferiorizado. “Não queria sair de casa. Pratiquei esporte durante uns três, quatro anos, mas parei porque tinha dificuldade de chutar, por causa do peso”, declara.

A situação incomodava não somente o garoto, mas também os pais, que se entristeciam ao ver o preconceito sofrido por Jorge. Leonardo relata a angústia do rapaz. “Ele sofreu demais e eu também sofria demais com isso. Era difícil, pois tinha muita dificuldade para comprar roupa. Nos shoppings o pessoal ria, pois ele tinha o quadril muito largo e o traseiro muito grande”, relata o pai.

As dificuldades não paravam por aí. Jorge, que já chegou a ser Campeão Mineiro de Taekwondo, não conseguia nem mesmo bermuda para ir à praia. Em 2012 a família foi à Bahia, mas o rapaz não saiu da cadeira. O jovem precisava emagrecer urgentemente.

Em julho de 2013, Jorge passou pela cirurgia bariátrica e deu início a uma nova etapa em sua vida. Desde então, já liquidou 48 quilos e multiplicou a saúde e a motivação. “Adaptei-me rápido, por tudo que eu passei na vida. Com 30 dias que fiz a cirurgia o médico me liberou para fazer academia. Hoje faço musculação assiduamente, todos os dias. Sinto-me bem melhor”, diz o garoto, que de gordinho mal humorado, deprimido e inseguro, passou até a exibir mais o “novo” corpo. Agora ele não se esconde e há quatro meses arrumou uma namorada. E o mais importante: mudou os hábitos alimentares e até puxa a orelha do pai quando excede na comida.

Em paz com o guarda-roupa

Cinco meses depois de Jorge, foi a vez de a mãe enxugar- e muito – as medidas. Jordânia, que pesava 110 quilos, conseguiu fazer a cirurgia de redução de estômago em dezembro de 2013. Até o momento, a mulher eliminou exatos 39 quilos. Ela ainda está em processo de perda de peso, mas garante se sente tão bem com a forma, que se fosse para fazer tudo novamente, certamente faria. “Para mim, foi a melhor coisa que eu fiz na vida, faria tudo de novo. É bom para a gente na sociedade. Eu sou mulher, e o que a gente olha? Mulher olha uma a outra. Eu ia comprar roupa e não achava nada”, declara, lembrando o manequim 54.

Ela tem propriedade, pois se lembra das vezes em que entrava nas lojas da cidade e não encontrava peças que servissem em seu corpo. A comerciante recorda que, no passado, comprava as roupas que tinham e não aquelas que gostaria de vestir. Por isso, tinha que se deslocar com o marido até Belo Horizonte ou Divinópolis em busca de lojas que atendessem ao seu tamanho.

Outra situação difícil relatada pela mulher era a vergonha que sentia de interagir com a clientela na churrascaria da família, justamente por causa do porte físico. A mulher avalia que o ganho de peso foi um processo contínuo, que ela nem percebia nitidamente. Mesmo após a cirurgia, Jordânia diz que se olha no espelho e ainda se acha gorda, mas acredita que a auto-aceitação é um processo lento.

Com 71 quilos, é muito provável que eliminará ainda mais gordura, pois se alimenta moderadamente e se reeduca continuamente. “Antes eu ficava com as pernas inchadas, passava mal. Hoje até a saúde é outra coisa. Até no comércio muda. Hoje eu consigo interagir mais no meio das pessoas, conversar. Tenho mais disposição”. Com tantos elogios de pessoas que notam a transformação, não há auto-estima que não se eleve. Jordânia diz que o emagrecimento não só a fez ganhar mais saúde, mas a estimulou a querer ficar ainda mais bonita.

Mudança na mente

O empresário Leonardo sempre teve uma boa estética e era atleticamente ativo. Alguns anos após o casamento parou de praticar esportes e o sedentarismo tomou conta de sua rotina. Com isso, foi engordando aos poucos. Do tamanho 42, foi pulando de um número a outro. A situação começou a incomodá-lo há cerca de um ano, quando percebeu grande aumento da circunferência abdominal e a balança apontou os 120 quilos. Com problemas no joelho, na coluna e nas costas, além de arritmia cardíaca, o médico o alertou: emagrecer já não era mais apenas uma medida estética.

O pontapé para que Leonardo fizesse algo para melhorar a forma e restabelecer a saúde veio a partir da modificação corporal de Jordânia e Jorge. Antes, os três já tinham tentado vários tratamentos clínicos em Belo Horizonte, mas sem sucesso. Perdiam peso, mas não conseguiam manter. Para se ter ideia, tomavam uma garrafa de refrigerante por dia na hora do almoço.

No dia 26 de março de 2014, Leonardo resolveu dar um basta na situação e encarou a cirurgia bariátrica. Hoje, com 80 quilos, já exterminou 40. Menos de um ano depois, o empresário ainda tem dificuldades para se adaptar à nova rotina de alimentação. “Nós fizemos a cirurgia, mas ainda temos a cabeça de gordo. O raciocínio da gente durante uns dois a três anos, se não mudar a forma de alimentar, fazer uma reeducação, a gente quer colocar é muita comida. Reduzimos foi o estômago, mas a mente pensa como gordo”, brinca.

Com uma alimentação equilibrada, a família ingere no máximo 200 gramas de comida por refeição. E dá-lhe balança. Para tentar amenizar o desejo de comer mais do que o permitido, o empresário utiliza alguns artifícios, como eliminar alimentos que enchem o estômago mais rapidamente. Ele abriu mão dos doces e refrigerantes de que tanto gostava.

Leonardo ressalta que apesar de as cirurgias bariátricas atualmente não deixarem marcas intensas, internamente elas são agressivas. E em seu caso específico, foi quase uma tragédia, devido a algumas complicações. “Eu quase morri, porque não fiz a dieta certa. Cheguei praticamente morto no hospital”, recorda. O empresário faz o alerta e chama a atenção das pessoas que estão acima do peso para uma mudança de hábitos alimentares e emagrecimento de maneira mais natural, ou seja, sem intervenção cirúrgica.

Mesmo com todas as dificuldades, Leonardo já tem planos de voltar para a academia junto da esposa, pois sabe que quando um engorda, todos engordam juntos, devido ao tipo de alimentação em comum. Para ele, o retorno à saúde e à antiga forma é um divisor de águas. “Depois que a pessoa emagrece, melhora tudo na vida. Já conseguimos mudar os hábitos alimentares em 70%. Um ajuda o outro”. E a esposa Jordânia emenda: “Hoje é uma família renovada, isso é que mais importante. Geração saúde”.

Sem desculpas para emagrecer

O psicólogo e terapeuta cognitivo Tiago Couto Bicalho avalia que assim como a família do empresário, que tentou tratamentos para emagrecer e não obtiveram sucesso, muitas pessoas passam pela mesma situação. Segundo o especialista, após diversas tentativas de emagrecer muitas pessoas são frustradas por medicações e dietas com promessas irreais de emagrecimento rápido e fácil. Daí desenvolvem a crença de que não têm capacidade de emagrecer. “Como é um objetivo muito difícil e de longo prazo, ou seja, que demanda resiliência, essas pessoas abandonam os próprios esforços para emagrecer diante das dificuldades. Emagrecer envolve fracasso, muitos fracassos. E tolerar fracassos emagrece”, declarou.

O psicólogo acrescenta que aqueles que passam por esse processo devem promover mudanças no ambiente, ter atenção com o que compram e deixam disponível e com os lugares que frequentam. “No âmbito social, deve-se ter a habilidade de falar ‘não obrigado’ muitas vezes e não ceder às insistências das pessoas para comer até que eles se conformem que você agora é diferente”, aconselha.

Culturalmente, as pessoas avaliam o que comem apenas pelo prazer, mas é importante adquirir critérios como o benefício que o alimento está trazendo. O psicólogo cita o exemplo da gordura do churrasco, que muitos já conseguem ter nojo por saber que faz mal à saúde. “A partir desses critérios conseguimos o controle cognitivo do impulso de comer”, comenta.

Este é o ponto onde as medicações falham. Uma vez sem apetite, a pessoa não tem que fazer esforços para contê-lo. Quando cessa a medicação e o apetite volta ao normal, a pessoa está menos consciente de seus impulsos e tende a atendê-los mais do que antes da medicação, daí engordam de novo. “Este é o ponto mais importante e que exige mais trabalho, por toda a vida. Deve-se controlar o impulso, sem criar desculpas para fazer o que não é bom”, finaliza Tiago Couto.

 

 

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