Pronto-Socorro sempre lotado. Por quê?
Apesar de segunda-feira ser o dia mais lotado, Pronto-Socorro vive cheio a semana inteira

Segunda-feira é o dia mais movimentado no Pronto-Socorro Municipal de Itabira. Coincidência ou não, é quando mais se atende gente que exagerou na dose no fim de semana, desregulou a saúde e precisa de um atestado para apresentar ao chefe. O primeiro dia útil, contudo, não é exceção. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta… Pacientes chegam, passam pela triagem, sentam nas cadeiras e ficam lá quatro, seis, oito horas ou mais aguardando o chamado. Alguns se irritam, chamam a polícia, registram queixas na ouvidoria; outros reclamam, xingam, esbravejam. E continuam esperando.
Acontece que o Pronto-Socorro é a principal porta de entrada de urgência/emergência da região. São 7,3 mil atendimentos por mês, incluindo pacientes de Itabira e mais 12 municípios do entorno. Número que cresce substancialmente quando há crises em hospitais importantes em outras microrregionais, como o Margarida, em João Monlevade, e o São José, em Nova Era. “O Sistema Único de Saúde tem essa caraterística. Não se limita à área geográfica, não tem fronteira. Não posso exigir título de eleitor, conta de água ou comprovante de residência para fazer atendimento. A gente tem o compromisso de atender a todos dentro, claro, do que podemos atender”, diz o secretário municipal de Saúde de Itabira, Reynaldo Damasceno Gonçalves.
Em alguns casos, Itabira já atendeu pessoas vinculadas à Gerência Regional de Saúde de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço. Segundo a coordenadora municipal de Atenção à Urgência e Emergência, Clíssia Andrade Felisberto, além dos problemas com os hospitais da região, há outros agravantes, como a mineração e a BR-381. “Muitas empresas vêm para Itabira e criam uma demanda muito grande devido à população flutuante. Além disso, entram no Pronto-Socorro ocorrências das rodovias”, explicou.
Mas por que a sala de espera, as alas de atendimento e até os corredores estão sempre lotados? Culpa dos pacientes da região? Nem sempre. Dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram que 70% das fichas registradas na urgência/emergência são identificadas no Protocolo de Manchester (classificação de risco adotada por vários hospitais) como verde ou azul, cores correspondentes a “pouco urgente” e “não urgente”. São pacientes itabiranos que deveriam ter procurado a Unidade Básica de Saúde (UBS), mas pularam etapa. E pelo protocolo, a espera pode ser de até 24 horas, porque a classificação considera a gravidade do caso, não a ordem de chegada.
Então mais uma pergunta: por que as pessoas não vão ao posto do PSF? Segundo Reynaldo, não falta informação. Os usuários conhecem o sistema, mas preferem o Pronto-Socorro pela resolutividade do problema. Pela UBS, o paciente recebe atendimento médico, espera o dia seguinte para levar o pedido de exame à Policlínica, retorna à UBS para mostrar o resultado, e só depois consegue o medicamento ou o encaminhamento. No Pronto-Socorro, mesmo que a espera seja de cinco, oito horas ou mais, o usuário consegue consulta médica, faz o exame, é medicado e sai com atestado médico ou encaminhamento.
O próprio secretário reconhece que as pessoas buscam, com razão, a solução mais prática, rápida e eficiente. Reconhece também que as unidades básicas de saúde sofriam de problemas estruturais, falta de médicos, e por isso caíram no descrédito. Alguém que resida distante do Centro da cidade dificilmente pegará ônibus e se arriscará ir a um posto do PSF para buscar atendimento sabendo do risco de não conseguir. É preferível ir ao Pronto-Socorro. Demora, mas resolve.
UPA
O prefeito Damon Lázaro de Sena é médico e conhece bem as dificuldades da saúde. Quando nomeou Reynaldo como secretário, atribui-lhe a responsabilidade de mudar para melhor o atendimento médico-hospitalar em Itabira, incluindo a urgência/emergência. Em seus discursos, sempre afirma que é preciso buscar o bônus, porque o “ônus nós já temos” – referindo-se principalmente ao atendimento concedido a pacientes de outras cidades.
Em uma audiência pública de prestação de contas, realizada na Câmara Municipal no dia 24 de novembro, Reynaldo apresentou várias obras realizadas desde janeiro de 2013. São reformas e construções de unidades de saúde, reforma da Policlínica, ampliação de leitos hospitalares e construção da Unidade de Pronto Atendimento 24 horas (UPA), um projeto do Governo Federal em parceria com a Prefeitura.
A UPA, que está sendo construída no bairro Fênix, é a grande esperança. Como será tipo 2 – numa escala que vai de 1 a 3 -, mesma categoria do Pronto-Socorro Municipal, terá condições de assumir parte da demanda hoje estancada na única porta de urgência e emergência da cidade. As obras estão avançadas. Se não houver atrasos, a inauguração será em abril ou maio de 2015. Atendimentos clínicos e pediátricos, que representam boa parte da demanda diária, passarão a ser divididos.
Outra ação que visa aliviar o Pronto-Socorro Municipal é a estruturação das unidades básicas de saúde. Além de reforma e ampliação, desde novembro deste ano todas as UBSs têm médicos e equipes completas. Essas ações, somadas ao aumento da distribuição de remédios na Farmácia Popular, que evita crises em pacientes crônicos, devem melhorar o tempo de resposta na porta do Pronto-Socorro.
Planos de saúde
Mas antes de melhorar, é possível que piore. Por decisão judicial, o Hospital Carlos Chagas (HCC) vai se tornar 100% SUS, mudança que acontecerá em breve. O que preocupa é o fato de o HCC ser referência em urgência para a saúde suplementar. Se essa porta se fechar, 3,2 mil atendimentos de urgência dos planos de saúde serão direcionados mensalmente ao Pronto-Socorro, que já é totalmente público. “Viraria o caos”, afirma Reynaldo.
Representantes dos planos, Ministério Público, Conselho Municipal de Saúde e poder Executivo têm discutido uma saída. A própria Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) obriga as empresas que exploram os serviços a ter estrutura própria de atendimento. Um hospital privado não se constrói de imediato, então uma solução de curto prazo seria algo semelhante à UPA do bairro Fênix, que pode ser inaugurada em menos de um ano.
O ônus Itabira já tem, repete sempre que tem oportunidade o prefeito Damon. É preciso usar as prerrogativas de referência regional, buscar o bônus e estruturar melhor a rede para garantir aos cidadãos uma saúde de qualidade.





