Lutar e vencer
Além da disciplina que as artes marciais proporcionam, professores acompanham a vida dos alunos também fora da academia
No mundo dos esportes existem várias histórias de superação de atletas que conseguiram mudar de vida graças à persistência e prática esportiva. Não é raro um desportista chegar ao ápice de sua carreira e ser tema de dezenas de reportagens sobre sua difícil vida enquanto jovem. Esses casos, mesmo que pareçam distantes tantas vezes, representam o poder que os esportes têm na vida das pessoas. E não é preciso ir muito longe ou esperar que o grande sucesso apareça para ver que exemplos assim são reais.
A itabirana Amanda Siqueira, de 16 anos, é aluna de Taekwondo há um ano, e ainda que com pouco tempo de prática, já é prova viva das mudanças que o esporte pode proporcionar. Antes de começar a treinar a arte marcial, Amanda tinha uma vida muito complicada. O pai não mora na cidade e mãe é alcoólatra e precisou ser internada. Desta maneira, o conselho tutelar levou-a para morar na Casa Lar (programa de acolhimento para jovens) em 2008. Suas outras duas irmãs também foram encaminhadas, mas cada uma para diferentes abrigos.
Com todos os problemas que sofreu durante sua infância, a adolescência passou a ser perturbadora. Muito nervosa, frequentemente se metia em confusões na escola, chegando até a agredir colegas e professores. O mesmo acontecia com profissionais da Casa Lar.
Amanda iniciou o Taekwondo por indicações de psicólogos, que sugeriam a prática de um esporte para ajudá-la. Ela escolheu a arte marcial ao passar na porta da Associação Vilas Unidas, onde Carlos Antônio Campos, o “Toninho”, ensina o esporte há 18 anos para todo o tipo de público: jovens, adultos, carentes ou com boas condições financeiras.
Auxiliar de Toninho, a professora Camila Cristina, de 26 anos, conta que no início Amanda era muito agressiva e retraída. “Ela ficava no canto dela, quieta. Quando fazia algum exercício errado e a gente corrigia, ela chorava”, contou a professora.
Mas a insistência da aluna e o cuidado dos professores fizeram com que aos poucos a jovem fosse se soltando cada vez mais. “O começo foi bem complicado. Eu era muito tímida, insegura”, lembrou Amanda.
A disciplina que a arte marcial requer foi um dos pontos principais para a mudança de perspectiva na vida dos alunos. Há regras que precisam ser seguidas, e o respeito é primordial entre todos os envolvidos. Além disso, os professores acompanham de perto a vida dos esportistas fora da associação. “Se não está procedendo em casa, os pais vêm e conversam com a gente. Se na escola o resultado não é bom, a gente cobra. Aqui eles brincam, se divertem, mas sabem das responsabilidades que têm”, ressaltou a professora Camila.
A partir de então, Amanda foi se destacando, ganhando confiança e subindo etapas. Da faixa branca passou para amarela, e atualmente está na laranja. Neste ano a jovem disputou sua primeira competição oficial, e logo em sua estreia, sagrou-se campeã mineira de Taekwondo, na categoria juvenil acima de 68kg.
“Fiquei bastante nervosa no campeonato. Estava muito insegura e tinha medo de não conseguir vencer ninguém. Não confiava em mim e chorei muito. Mas depois que consegui os resultados até pulei de alegria e vi do que era capaz, que agora eu consigo”, relembrou a jovem.
Animada com o resultado, Amanda quer continuar firme no Taekwondo e espera caminhos mais difíceis no próximo ano, quando fará 17 anos e competirá pela categoria de juniores. “Meu sonho é disputar algum campeonato no Rio de Janeiro. Quem sabe um Brasileiro?” idealiza.
A mudança que o esporte proporcionou na vida de Amanda emociona os professores Toninho e Camila. Para ambos, o momento mais marcante foi quando policiais foram até a associação procurar pela jovem. “Ficamos preocupados com os policiais, fardados, com equipamentos. A Amanda logo começou a chorar e dizia que não tinha feito nada”, contou Toninho.
Os policiais pediram aos professores que reunissem toda a academia e começaram a aplaudir a aluna. “Eles falaram que vieram para elogiar, pois ela sempre dava problemas na Casa Lar e que depois do Taekwondo ela mudou. Foi um momento muito gratificante para nós”, contou Camila.
Ainda com um longo caminho em seu futuro, e com muitas dificuldades a enfrentar, Amanda garante que vai seguir em frente, e guarda um pouco de mágoa da família. A avó, que faleceu em 2010, é de quem ela sente mais falta. “É triste não ter contato com a família, mas não fico chateada, pois não sinto falta deles. Vou seguir sem os dois”, disse sobre os pais.
A taekwondista mostrou, ainda, gratidão aos professores e funcionários da Casa Lar. Para ela, todos a ajudam superar os problemas que enfrenta. “O Toninho e a Camila são como se fossem meu pai e minha mãe. Estão sempre do meu lado”, afirmou carinhosamente. A recíproca é verdadeira. “Toninho sempre tratou a gente dessa forma, ele também é muito especial para mim. Esses meninos são como seus filhos, e me considero a mãe dos filhos dele. É uma troca muito boa que temos com as crianças”, afirmou a professora Camila.
O amor e o carinho dos instrutores pelos seus alunos são fortes o suficiente para reerguer aqueles que têm força para lutar. Lutar e vencer.