Quebre a perna!
Reportagem publicada na edição 262 da Revista DeFato Expressões como “quebre a perna” e “m*%$#!” podem soar indelicadas para as pessoas que recebem o xingamento. Porém, não se assuste se ouvir as expressões vindas de atores do teatro. Neste meio, as frases têm um significado muito positivo e quer dizer nada mais nada menos que […]
Reportagem publicada na edição 262 da Revista DeFato
Expressões como “quebre a perna” e “m*%$#!” podem soar indelicadas para as pessoas que recebem o xingamento. Porém, não se assuste se ouvir as expressões vindas de atores do teatro. Neste meio, as frases têm um significado muito positivo e quer dizer nada mais nada menos que “boa sorte”, É o desejo de que o artista faça uma boa apresentação.
Historiadores indicam que o teatro tenha suas origens remontadas na antiguidade. Milhares de anos depois, a arte de representar personagens ainda prevalece. É o que confirmam companhias de Itabira, Santa Bárbara e João Monlevade, realizando trabalhos que, além de entreter, fazem com que o universo teatral perdure.
Prestes a completar 25 anos, a Companhia Itabirana de Teatro (CIT), começou sua história em 1990, quando os integrantes, então estudantes da Faculdade de Ciências Humanas de Itabira (Facchi), se juntaram para levar cultura por meio do teatro. Com temática diversificada, o grupo leva em suas peças abordagens que vão da comédia ao drama, passando pelo teatro empresa, trabalhos sociais, campanhas educativas, além de uma linha drummondiana. Para a coordenadora de projetos, Lala Valadares, o poeta itabirano é uma inspiração. “Trabalhar a obra de Drummond sempre foi um privilégio para nós, pois temos o domínio de falar de um poeta nascido e vivido em nossa terra”, diz.
O grupo é composto por pessoas de vários segmentos, que não vivem somente da arte. Na companhia há professores, pedagogos, psicólogo, administradores de empresa e educadores de projetos. Com inúmeras montagens durante mais de duas décadas, o grupo já fez trabalhos em que se destacam as peças “O Burguês Fidalgo” e “Caminhos de Minas”, o CD “Drummond Poesias e canções”, além de campanhas educacionais.
Com tanto tempo de estrada, a companhia sempre marcou presença em grandes eventos, até mesmo fora do eixo cultural do Estado, como na Mostra Latino Americana de Textos Teatrais, no Rio de Janeiro, no Festival de Teatro do Mato Grosso do Sul e participação no média-metragem “O poeta de sete faces” (RJ). Também esteve em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil (RJ) com o espetáculo “Folguedos de Natal”.
Como conta a coordenadora de projetos, mesmo com 24 anos de atuação, a CIT não possui sede própria. “A manutenção da empresa é feita por meio de trabalhos realizados pelos membros e toda renda é revertida à mesma e investida na reciclagem e aprimoramento dos atores”, diz. Esse é um dos desafios que a trupe precisa vencer para continuar levando adiante a arte. No ano que vem, quando a companhia completa 25 anos, Lala diz que a cidade pode esperar “uma grande manifestação no cenário cultural”.
Tradição e fé
Com ampla experiência, o grupo Âncora Companhia de Teatro, mantém a tradição artística religiosa, encenando, há 39 anos, a paixão e morte de Jesus Cristo na cidade de Santa Bárbara. Durante três meses, os cerca de 80 atores se preparam para o espetáculo na Semana Santa, montagem mais aguardada pelo público e a mais emocionante. De 1976 até 1999, a encenação era denominada “A Paixão de Cristo”, porém, a partir dos anos 2000, a peça foi intitulada “Os passos da Agonia”, com readaptação total. No projeto, são cerca de 120 envolvidos.
Em 2011, a peça obteve o registro de Patrimônio Imaterial Municipal de Santa Bárbara e conseguiu aprovação junto à Lei Federal de Incentivo à Cultura. Mas de acordo com Marcelo Jerônimo da Cruz, presidente da companhia, temática religiosa não é a única trupe. A marca é a versatilidade. “O foco central é a Semana Santa, que trata de religiosidade, mas a companhia também já construiu outras peças teatrais”, explica. A Âncora já encenou histórias como “Hoje a banda não sai” e “Diálogo – Santa Bárbara conversa com sua história”, ambas apresentadas no município e em cidades como Catas Altas, Bom Jesus do Amparo, Mariana e Belo Horizonte.
A entidade não tem fins lucrativos. Atualmente, conta com o patrocínio da Prefeitura de Santa Bárbara, mas busca recursos junto a empresas para a celebração da festa de 40 anos. A propósito, fazer parte de uma “quarentona” é motivo de orgulho e superação para os integrantes, como expressa Marcelo: “É um orgulho enorme não só para mim, mas para todos os santa-barbarenses e região. O grupo, apesar das dificuldades, nunca se entregou, continuou forte e a cada ano vem se mostrando mais e mais comprometido. E o mais importante, tem coragem e garra para enfrentar qualquer obstáculo que vier”.
A arte de fazer rir
Desde 2008, a Cia Teatral O Salto busca dar visibilidade ao nome de João Monlevade por meio do teatro circense. Mas, mesmo com o foco de levar às plateias a magia do teatro de rua e o humor dos palhaços, o grupo aproveita outras possibilidades que a arte permite.
A turma realiza também oficinas de iniciação teatral, venda de apresentações para instituições e a Mostra e Encontro Nacional de Teatro de Rua de João Monlevade (Primavera Cênica). As ruas do município, praças, escolas e os palcos representam o cenário ideal para cada apresentação. Ao final delas, o grupo realiza a tradição de passar o chapéu, quando o público contribui com qualquer valor em dinheiro.
Desde 2011, o grupo também desenvolve o projeto Domingo na Praça, idealizado pelo produtor Niel Flávio. O propósito é levar espetáculos teatrais às praças e espaços públicos inutilizados de Monlevade em dois domingos no mês. “Um projeto que, além de levar a arte e o entretenimento, visa também dar um novo significado para o espaço. Onde a família pode e deve frequentar mais”, conta o ator.
A companhia foi criada por Markus Câmara e Marcela Barreto, após terem participado de um projeto de formação de grupos de estudos, com foco na arte dos palhaços. O nome “O Salto” faz referência a um exercício teatral em que os atores parados e de olhos fechados imaginam que estão saltando barreiras.
Niel diz que o começo foi difícil, pois havia a expectativa de fortalecer na cidade e os grupos que iniciavam não davam continuidade, o que causava certa descrença. “Todas essas dificuldades assustavam no início, mas os artistas venceram os medos e possíveis preconceitos”. Hoje, entre os maiores desafios estão conseguir orçamento para manter e criar novos projetos e conseguir investimentos por meio do Poder Público e das empresas. Mas recentemente, o grupo assinou contrato com a siderúrgica Arcelor Mittal, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Um presente e tanto para a comemoração dos seis anos d’ O Salto, completados em setembro.