Vai dar rock

Coleção do itabirano Tadeu de Freitas mostra sua paixão pelo rock

Vai dar rock

Matéria publicada na edição 259 da Revista DeFato

Entre variados ritmos musicais, o Rock and Roll sempre se destacou por seu estilo agressivo e letras fortes. Com diversas variações, é, talvez, um dos tipos musicais mais abrangentes, e atualmente passa por um processo de renovação. No Brasil, o rock nacional teve seu auge nas décadas de 1980 e 1990, perdendo destaque a partir da virada do novo século.

O gênero teve início na transição das décadas de 40 e 50 com influências do blues, country e uma pitada de rhythm and blues. Sofreu preconceito já no princípio e passou a quebrar tabus. O som do rock, caracterizado por guitarras destorcidas, contrabaixo marcando a música e uma bateria forte, logo fez a cabeça de pessoas no mundo todo. Elvis Presley, tido como o Rei do Rock, ajudou na popularização do estilo e na quebra de conceitos em sua época.

Em 13 de julho comemora-se o Dia Mundial do Rock. A data foi escolhida em homenagem ao Live Aid, megaevento que aconteceu nesse mesmo dia, em Londres, em 1985, e contou com a participação de ícones do gênero na época, como Queen, The Who, Led Zeppelin, U2, David Bowie, Black Sabbath e outros. E é para marcar a data que DeFato foi atrás de pessoas que vivenciam o rock diariamente. São roqueiros do passado e do presente, com curiosidades e características bem peculiares.

Foi em 1986 que surgiu a primeira banda de rock em Itabira, a Apoliom. Um dos fundadores, Túlio Torres, tem hoje, com 46 anos e se considera um dos dinossauros do rock na cidade. “Naquela época a dificuldade era enorme, o sacrifício era triplicado. A gente montou essa banda que fez um grande sucesso não só em Itabira, mas também na região e em Belo Horizonte”, conta.

Túlio começou a gostar e acompanhar o rock desde novo. Teve o primeiro contato perto dos 14 anos, com Pink Floyd, apresentado pelo namorado de sua irmã na época. “Quando escutei o Pink e aquelas guitarras, aquele timbre maravilhoso, letras irreverentes que tinham conteúdo e que queriam reivindicar algo, aquilo ali bateu diretamente na minha personalidade”, destacou.

Atualmente o rock nacional perdeu espaço na grande mídia e novas bandas com propostas inovadoras parecem cada vez mais raras. Grande parte desse problema se deve, na opinião de Túlio, a inversão de valores presente nos dias atuais. “O rock no Brasil se tornou uma lagoa. Antigamente a gente tinha um rio, podia ser pequeno, mas se você tocasse 90% de músicas cover nos shows, você era hostilizado. Hoje, se você tocar 90% autoral, eles não te contratam. Então a gente ficou na contramão da evolução”, aponta o roqueiro.

Para Túlio, a forma para mudar esse panorama é “as pessoas voltarem a ser pessoas, voltarem a enxergar lá dentro e reivindicar realmente o que querem”. Ele afirma que é preciso que as pessoas se atentem ao conteúdo e mensagem das músicas, e que as ouçam como arte, e não só como entretenimento. “A música não tem fronteira. Música é sentimento. Se você vai ao cinema e vê aquela cena triste, sem trilha alguma, você fica angustiado. Quando começa uma música bem feita, forte, você cai em prantos. Ou seja, a música é alma pura. E hoje perdemos um pouco disso na música nacional”.

Pensando mais além, Túlio critica a prioridade que os grandes meios de comunicação dão às músicas “efêmeras”. Segundo ele, há o interesse em reproduzir músicas com pouco conteúdo, que não façam as pessoas pensar e que não façam questionamentos. “A música é uma ponte essencial para a mudança social e cultural. A música pode levar ao desastre ou a evolução, e para mim, no nosso caso, por enquanto está sendo o desastre”, criticou.

Atualmente na banda Skellter, Túlio acredita na força do rock. “O rock nunca vai deixar de existir porque entre mil sempre vai nascer aquele que vai pensar diferente e querer conteúdo. E o rock proporciona isso”, finalizou.

Nova geração

Do outro lado, mas com ideias parecidas, a jovem banda itabirana Venal acredita que o gênero está, aos poucos, se moldando aos tempos modernos. O grupo tem cinco componentes, sendo eles Igor Oliveira, vocalista, Victor Seara, guitarrista, Samuel Elon, guitarrista, Lucas Andrade, baterista, e Filipe Melo, baixista. Com quatro anos de existência, eles definem o som da banda como alternativo. “Buscamos referências das músicas brasileiras. Na verdade a banda é uma grande mistura. Gostamos de rock, MPB, Bossa Nova”, contou o vocalista.

Parte da nova geração do rock, a banda concorda com o experiente Túlio quando o assunto é exposição na mídia. Para eles, o rock de protesto é algo pouco comercial nos dias atuais. O guitarrista Victor acredita que a ditadura militar favoreceu muito a popularização do rock no Brasil, com letras definidas e opositoras ao regime. “Hoje vivemos um período mais tranquilo. Ao invés de falarem do coletivo, as bandas hoje falam do pessoal, dos problemas do cotidiano”, definiu.

Seara ainda acredita que atualmente é perigoso fazer críticas coletivas devido a divergências de opiniões. “Hoje se você vai fazer música sobre política, corre-se o sério risco de abraçar uma causa que não é o foco da banda. Uma música que critique a esquerda, por exemplo, seria automaticamente uma propaganda de direita”, justificou.

Com a grande diversificação, com vários estilos dentro do mesmo gênero, a banda defende que a atitude é que define se a banda é ‘rock’ ou não. Desta forma, explicam a ideia com base no nome do grupo. “O próprio nome da banda, Venal, remete a algo visceral, de dar o sangue”, apontou Seara. “Na Venal a gente caracteriza a rebeldia tocando músicas que não são pesadas, como se imagina do rock, mas fazemos com a nossa postura, com a nossa energia”, completou Igor. Para os integrantes da Venal, a maior dificuldade atualmente não é tocar rock, e sim tocar músicas autorais. “As pessoas vão aos bares para se divertir e não para conhecer o trabalho da banda. E o mercado funciona da mesma forma. Preferem o que já deu certo ao que tenta inovar”, destacaram.

Diante desse percalço, a banda vê o cenário independente como a saída e sucesso do rock. “O cenário independente acontece mesmo sem apoio da mídia. Existe o público, ainda limitado, mas que sempre acompanha. A internet ajuda muito nesse aspecto. As novas bandas de rock estão tocando, só que não têm o apoio e nem é tão rentável como antes”, declarou Seara.

A insistência em querer ser como no passado incomoda a banda. “Não vão surgir bandas como antigamente porque o momento é novo. As pessoas precisam tirar um pouco da cabeça que a gente tem que reviver as coisas do passado. Havia um contexto para acontecer, que é diferente de hoje. O que está sendo feito daqui pra frente é baseado no que temos hoje, mas sem deixar as referências antigas de lado”, explicaram.

Com uma postura otimista, Venal aposta no crescimento do espaço do rock na mídia e espera que o seu trabalho tenha visibilidade. “A gente precisa que o pessoal se desligue da imagem antiga do roqueiro, do estereótipo, e se ligue mais na atitude das bandas, nas mensagens que são passadas”, pediram.

“O futuro do rock é a internet e a cena independente”, definiu Seara justificando que com a rede mundial de computadores cada pessoa faz uma busca direcionada de acordo com seu interesse. “Vamos chegar a um momento que teremos cada vez mais pessoas interessadas, conhecendo as novas bandas, se encontrando pela internet, gerando número e força para esses grupos. O espaço na mídia aparecerá automaticamente”, finalizou Seara.

Colecionador de discos

Tadeu de Freitas, de 34 anos, tem uma forma específica de demonstrar o seu apreço pelo rock. Ainda na infância, foi influenciado por amigos que gostavam de música. “Eu ia para casa de amigos para escutar músicas. Cada um gostava de um estilo diferente: Genesis, Pink Floyd, metal como Iron Maiden, Sepultura”, contou.

Seu primeiro disco foi do Ultraje a Rigor, presente de sua madrinha. “Meu irmão ganhava muitos discos também, mas ele abandonou o barco e ficou tudo para mim”, brincou. Tadeu, então, passou a comprar discos de vinil esporadicamente, já que o preço era alto.

Com a criação do CD, os vinis desvalorizaram e começaram a perder espaço. Foi então que passou a ganhar vários exemplares e chegou a comprar discos por até 50 centavos. A coleção só aumentava e o gosto pela música também. “O vinil é muito bonito, e ele tem uma captação muito especial. A frequência de grave e de agudo são bem mais amplas, é bem gostoso”, explicou. Atualmente, contando CDs, vinis e fitas K7, Tadeu possui mais de mil exemplares.

A paixão pelo rock é antiga. Quando tinha 15 anos, Tadeu pediu ao pai uma bateria, no entanto acabou ganhando um teclado. Mesmo assim ele não desistiu. Usava o efeito de bateria no teclado e ficava simulando o som do instrumento desejado. Mais tarde, um amigo de seu irmão resolveu vender sua bateria e Tadeu viu ali a oportunidade de obter o instrumento.

Já com a bateria, Tadeu teve algumas experiências com algumas bandas, como a Amantes de Juanita, Caco de Vidro e Popai. Cada uma com um estilo diferente, mas sempre rock. “No caso da Popai eram músicas com muito deboche, palavrão, era uma coisa para libertar. Itabira é uma cidade com horizonte limitado, então a gente encontrava essa forma de se libertar”, relatou.

O colecionador morou por quatro anos na Inglaterra e traz de lá exemplos que poderiam, segundo ele, ajudar a cena do rock no Brasil. “Tem muita música eletrônica, muito reggae no sul de Londres, mas o rock é muito forte, é herança das décadas anteriores. Deixaram um legado de rock incrível e tem muita banda de rock com músicas novas”, destacou.

Ele acredita que no Brasil a mentalidade das pessoas precisa mudar quanto a valorização de novas bandas. “Nas lojas de discos de lá (Inglaterra), os CDs mais novos são mais caros que os antigos”, contou. “Eles têm uma visão diferenciada de valorizar o que é novo, o que tá vindo em detrimento ao velho. Isso talvez seja uma das coisas que estejam travando o rock no Brasil, a gente precisa de movimento”, completou.

Hoje ele acredita que as pessoas precisam se adequar aos novos tempos. “Eu sou fã incondicional do rock dos anos 70, mas não vou me vestir como um roqueiro daquela época. É importante se adequar às realidades do tempo”, finalizou.