Matéria publicada na edição 259 da Revista DeFato
O pão é um dos alimentos mais básicos e comuns na mesa das famílias brasileiras. Que casa não tem um pãozinho de sal para acompanhar um café? Na Bíblia, o pão está presente em diversas passagens. Na mais famosa, a da Santa Ceia, é tido como sagrado e identificado como o corpo de Cristo.
Sagrado ou não, o fato é que o alimento faz parte do cotidiano das pessoas e muitas vezes o pesado trabalho dos padeiros é esquecido. No dia 8 de julho comemora-se o Dia do Panificador. A data tem origem na história de Santa Isabel, padroeira dos padeiros. Isabel era Rainha de Portugal, que vivia momentos difíceis no fornecimento de trigo, e consequentemente, na fabricação do pão. Ela, então, distribuía, escondida, pães para a população.
Sebastião de Araújo Oliveira tem 59 anos e há 44 trabalha na produção de pães, sendo 25 como padeiro titular. Nascido em São Sebastião do Rio Preto, veio para Itabira aos 16 anos para trabalhar na Panificadora Itabirana, onde está até hoje. Na época, começou como faxineiro, limpando a padaria, mas sempre de olho no serviço de padeiro.
“Eu via aquelas coisas bonitas e pensava ‘esse trem é bom demais, quero aprender’”, contou Sebastião. Ele pediu uma oportunidade e recebeu o aval positivo, mas havia uma condição. “Eu tinha que aprender só depois do meu horário de trabalho. Eu ficava até mais tarde só para aprender aquilo que tinha me encantado”, disse. Sebastião se tornou ajudante de padeiro e tinha o desafio de trabalhar durante a noite. Por 18 anos ele enfrentou a madrugada e conseguiu desenvolver suas habilidades. Já como padeiro, durante uma experiência, conseguiu produzir uma massa grande, com menos fermento, e assim acabou com a necessidade de trabalho pesado a noite.
O padeiro sempre esteve disposto a orientar os mais novos e inexperientes. Interessado no trabalho do pai, um de seus filhos, Rodrigo Araújo, subia em cima de uma lata grande para ir aprendendo na padaria. Hoje trabalha com o pai. “Minha família foi construída através do meu trabalho. Uma filha minha estuda Administração e trabalha nessa área na mesma padar ia. Um dos meus filhos também é padeiro, e o outro foi para uma empreiteira da Vale dirigir caminhão, apesar de saber o trabalho de padaria. A filha mais nova, graças a Deus, está cursando Engenharia de Mobilidade na Unifei”, contou orgulhoso.
A modernidade das máquinas e a vontade de aprender facilitaram o trabalho de ‘Tião’. “Fazer o pão que alimenta muita gente é o que me deixa feliz, que me entusiasma. Eu aposentei, mas não quis parar. Meu prazer é colocar a mão na massa”, destacou o padeiro.
O segredo, segundo Tião, é ser humilde, trabalhar com dedicação, empenho e muito amor. “Você tem que abrir mão de muitas coi- sas. É preciso ter muita responsabilidade, mas fazer tudo com carinho. Você precisa saber a quantidade certa de ingredientes para não desperdiçar. E ainda é preciso ter bom senso e tirar um pão mais corado, outro mais claro, para conquistar todo tipo de cliente”, ensina.
Aprendizado constante
Do outro lado da história está Jaderson Gleison de Oliveira, 31 anos, ou Jardel, como todos o chamam. Ele não tem o tempo de trabalho de Tião, mas sobra experiência. No ramo há 15 anos, está há 13 na Oficina do Pão. Ele entrou na profissão por necessidade. Seus irmãos trabalhavam fora, o pai havia morrido, então tratou de arrumar um emprego. Começou em uma padaria como ajudante de padeiro, sem saber fazer nada, e aos poucos foi desenvolvendo suas habilidades. Passou brevemente por um supermercado e aos 18 anos entrou na padaria na qual está até hoje.
“Quando comecei era muito difícil de conseguir a classificação de padeiro. Os padeiros entravam na frente para você não ver o que eles estavam fazendo, com medo de descobrir o segredo deles. Hoje o acesso é muito mais fácil, e a padaria me proporcionou isso”, contou Jardel, destacando que fez cursos no Senac de panificação, confeitaria, bombom e doces.
Atualmente Jardel trabalha com confeitaria e tem um horário mais tranquilo, de 6h às 13h, apesar de já ter trabalhado de madrugada. “Trabalhava a qualquer hora que fosse preciso. De 12h às 20h, 0h às 6h, não tinha problema”, conta. A confeitaria é sua nova paixão e ele sempre que pode assiste a vídeos na internet de cheffs confeitando bolos. “Quando vejo, penso que não sei nada. Assisto para tentar tirar algo novo. Não é porque estou há 13 anos na padaria que não preciso aprender novas coisas”, ressalta
Para Jardel, o trabalho dos padeiros se valorizou mais quando supermercados passaram a oferecer produtos de padaria. “O número de vagas aumentou, e faltou profissional. Os padeiros de padaria tiveram que se aprimorar, buscar cursos para oferecer produtos melhores. Até o salário melhorou”, apontou. O padeiro espera por uma escola técnica na área de panificação industrial em Itabira. Segundo ele, o local mais próximo onde há cursos é em João Monlevade e é inviável para o profissional estudar.
“O padeiro não tem muito para onde crescer no mercado em Itabira. Então, com curso técnico você tem espaço em grandes empresas para produzir ou ensinar em outras padarias”, esclareceu.
Mesmo com toda dificuldade e esforço, o padeiro conta que cada um possui sua forma de produzir. “É preciso conhecer todos os produtos com os quais você trabalha. O importante é o resultado final e a satisfação do cliente”, finalizou. Então, mãos à massa, porque na mesa não pode faltar pão.