Atalho perigoso

Curva no KM 468 é a mais perigosa na rodovia que liga Itabira a Nova Era

Atalho perigoso

Matéria publicada na edição 259 da Revista DeFato

Em meados de 2012, motoristas que passavam pela rodovia estadual que liga Itabira a Nova Era, a MGC-120, reclamavam de um problema irritante: buracos. Dois anos depois, a situação é outra. A estrada, que foi totalmente reformada por um consórcio contratado pelo Governo de Minas, está em boas condições. O que preocupa agora é o aumento do tráfego de veículos, velocidade e acidentes.

Estrada bem pavimentada, curvas acentuadas e motoristas inconsequentes resultam em carretas tombadas, carros batidos e vítimas entre as ferragens. E a tendência é piorar com as obras de duplicação da BR-381, que estão começando. Para fugir das interrupções, motoristas, principalmente de veículos pesados, vão preferir o desvio e o tráfego deve aumentar consideravelmente – assim como os acidentes.

Desde a inauguração, o trecho de cerca de 30 km é usado como atalho por caminheiros que trafegam pela BR-381 sentido Vale do Aço. Além de encurtar a viagem, os motoristas buscam evitar uma serra nas proximidades de João Monlevade. O problema é que o traçado simples da pista, sem acostamento e com excesso de curvas perigosas, tornam o trajeto muito arriscado.

Renato de Lima, 48 anos, é motorista de caminhão há quatro anos e trabalha por conta própria. Pelo menos duas vezes por semana ele passa pela estrada Itabira-Nova Era, geralmente transportando cargas de Ipatinga, no Vale do Aço, para Belo Horizonte ou vice-versa. “Já perdi a conta de quantos acidentes presenciei”, comenta.

Quando conversou com DeFato, Renato estava parado com seu caminhão fora da pista, próximo à entrada da mina da Belmont, esperando auxílio. O veículo havia dado um problema mecânico no dia anterior e ele precisou procurar um espaço no meio da vegetação rasteira para ficar fora de perigo – já que não há acostamento ao longo da via. “A estrada está muito boa. O problema são os motoristas imprudentes”, diz ele, ao citar alguns caçambeiros (como são conhecidos os motoristas de carreta da caçamba) que passam pelo local a mais de 100 quilômetros por hora.

Erro de planejamento

Ainda em 2012, durante uma reunião na Câmara de Vereadores de Itabira, o então diretor regional do Departamento de Estradas de Rodagens (DER), Álvaro Eduardo Goulart, foi bem sincero ao ser questionado pelos vereadores sobre a MGC-120. “Esta rodovia foi um erro crasso de planejamento”, disse, referindo-se aos cálculos de fluxo de veículos, sobretudo os de grande porte. Na época, pela contagem do DER, a estrada estava recebendo mais de 4 mil veículos por dia, quando deveria ser no máximo mil. A pavimentação não aguentou.

De lá para cá o asfalto foi refeito, mas os cálculos não. Até o fechamento desta edição, o DER não tinha dados atualizados sobre a quantidade de automóveis que trafegam pela estrada diariamente. Mesmo sem estatísticas recentes, motoristas que usam o trecho com frequência relatam que o movimento está cada vez maior.

Visando conter os impactos causados pelas obras de duplicação da 381, o DER prevê aumentar a fiscalização entre Nova Era e o trevo da MG-434 com a BR-381, conhecido como trevo de Itabira. De acordo com o chefe do Núcleo de Fiscalização do órgão, José Homério, cinco radares controlam a velocidade ao longo do percurso, além de uma balança próximo ao trevo do Itabiruçu, em Itabira, que inibe o excesso de cargas. Equipes da Polícia Rodoviária Estadual também vão aumentar a fiscalização em pontos estratégicos.

Socorro

Colisões frontais e capotamentos lideram o ranking de acidentes na estrada, de acordo com o comandante do Corpo de Bombeiros de Itabira, tenente Eliseu Washington Gonçalves Marques. Ele mesmo participa de salvamentos eventuais, como no dia 22 de abril deste ano, quando um caminhoneiro ficou preso às ferragens após tombar a carreta que dirigia. O veículo estava carregado com vasilhames de cerveja e capotou no km 463. Após receber o chamado, tenente Washington e sua equipe foram para o local fazer um resgate dramático que durou três horas.

O bombeiro afirma que a ausência de pontos de ultrapassagem ao longo da rodovia também contribui para a incidência de colisões. Como a pista é simples e os veículos carregados andam devagar, quem vem atrás perde a paciência e não espera o momento oportuno de passar à frente. Outro agravante são as curvas em declives, como a do km 468, próximo a Capoeirana. O caminhoneiro Renato de Lima já testemunhou vários tombamentos no local. Embora bem sinalizada, a curva é bastante fechada e a descida é forte.

É o trecho com mais alto índice de acidentes na estrada. José Homério, do DER, afirma que a culpa de tantas curvas é da topografia. Sem entrar em detalhes (para isso seria necessário consultar o projeto), o chefe de Fiscalização afirmou que tanto na estrada de Nova Era quanto na do Forninho (LMG-779), que liga Itabira a João Monlevade, as principais dificuldades técnicas de pavimentação giraram em torno do relevo. Exatamente por isso, alargar a pista ou construir acostamento não estão nos planos do governo, pelo menos por enquanto.

Crime

A ocasião faz o ladrão, diz um ditado. Entre Itabira e Nova Era, basta tombar uma carreta para ver que o dito popular é mesmo verdade. Saqueadores aparecem antes mesmo da chegada da polícia e fazem a festa. E os produtos nem precisam ser de alto valor econômico – há casos em que cargas de vasilhames vazios, cimento e até cal desaparecem rapidamente. Sem medo, os saqueadores carregam o que podem, mesmo sob as câmeras dos repórteres policiais que cobrem todos os acidentes na região.

Um caso emblemático aconteceu em dezembro de 2011. Um caminhoneiro autônomo, na companhia da esposa, viajava durante a noite de Belo Horizonte para Nova Venécia (ES), quando teve a visão ofuscada pelos faróis de outro veículo e acabou tombando o caminhão no canto da pista. Imediatamente surgiram vários saqueadores – como se estivessem de plantão na beira da rodovia – cortaram as cordas que prendiam a lona e levaram toda a carga de milho, açúcar, óleo e batata. Não satisfeitos, os homens ainda roubaram o rádio do caminhão e as roupas do motorista, que teve um prejuízo estimado em R$ 25 mil.

De acordo com o delegado de Polícia Civil, Juliano Alencar, o principal problema em casos de saques é a dificuldade de identificar os autores. Segundo ele, quem saqueia está cometendo o crime de furto, delito previsto no artigo 155 do Código Penal. A pena pode variar de dois a oito anos de prisão, se o crime for praticado coletivamente. Para os caminhoneiros que preferem a MGC-120 como opção à BR-381, cuidado. O tráfego vai aumentar, a estrada vai ficar ainda mais cheia e não são apenas os socorristas que estão de plantão em casos de acidente. Os ladrões de carga também.