O INSS é um sistema canalha

A dinâmica de funcionamento do órgão público é podre. A estrutura tem um único objetivo prático: atazanar a vida de velhinhos, anciões, idosos ou coroas

O INSS é um sistema canalha
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O título acima é típico de certa literatura barroca. O léxico canalha remete ao poeta Gregório de Matos. O popular “Boca do Inferno” foi testemunha do nascimento da corrupção brasileira. A roubalheira faz parte do DNA da nação. A maracutaia sempre foi o cancro maligno do tecido social da Terra de Santa Cruz. No Brasil colônia, a rapinagem já era um natural componente da exótica paisagem dos trópicos. Com muito sarcasmo — em milhares de versos — Matos destrinchou a prática generalizada do furto institucional na “promissora” colônia portuguesa.  Em cinco séculos, a ladroeira passou por complexo processo de sofisticação. A gatunagem tupiniquim acompanhou com muita eficiência a evolução tecnológica. A internet, então, virou o paraíso da pilantragem.

A expressão “sistema canalha” vem a calhar. O termo qualificativo também serve para separar joio de trigo. É simples a percepção. Uma coisa é o pré-histórico sistema do INSS, outra é a elevada competência da maioria dos servidores da instituição. Os “colaboradores” do instituto (repito, a maioria) dão um duro danado. Esses abnegados se especializaram na arte de retirar água da pedra. E este é um cansativo exercício diário devido à escassez de mão de obra.

Já a dinâmica de funcionamento do órgão público é podre. A estrutura tem um único objetivo prático: atazanar a vida de velhinhos, anciões, idosos ou coroas. Pouco importa o nome da categoria social.  Nada funciona na paquidérmica organização. A morosidade é característica da espelunca. Essa constatação tem fácil comprovação. Observem, por exemplo, as imensas e já tradicionais filas para as mais diversas concessões. O tempo de espera dura um século. A causa da ineficiência recebe o pomposo apelido ”em análise”. Quando a longa espera de avaliação chega ao fim, o beneficiário já viajou para um período de férias eternas no além.

A justificativa para tanta lerdeza atende pelo nome “segurança do aposentado”. Segurança? Como assim? O tal dispositivo não impediu o assalto bilionário ao bolso dos “velhinhos”. E adivinhe quem foi o responsável pelo gigantesco prejuízo? Os próprios aposentados, claro.  Sabe quando as vítimas recuperarão o suado dinheirinho? Jamais (pronuncie em francês, é mais chique). Enquanto isso, os Carecas do INSS andam, por aí, usufruindo da vida com muito uísque, caviar e GP.

Até agora, apenas uma personagem da ópera- bufa foi punida pelo esbulho: os tais coroas. Para demonstrar eficácia, o governo determinou o imediato “bloqueio de novos empréstimos consignados”.  A atabalhoada medida prejudicou uma multidão que se encontrava à cata de alguns trocados para tratamento de saúde, por exemplo. Mesmo porque, o nefasto desbloqueio não tem dia e hora para acabar.  A geringonça encontra-se no famigerado modo “em análise”. Em outras palavras, anda tudo na expectativa de elegante tartaruga.   Como se vê, é desta forma que funciona a canalhice do sistema INSS.

P.S.: Se a investigação policial chegar às entranhas do INSS, o brasileiro voltará a usar máscara. O mau cheiro invadirá todo o território nacional.  Há muito mais podridão nos labirintos do Instituto do que possa imaginar nossa vã filosofia. Alguns bancos nadam de braçadas neste lamacento shakespeariano mar da corrupção. A ver.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

MAIS NOTÍCIAS