Matéria publicada na edição 255 da Revista DeFato
Portador de doença renal crônica desde os 12 anos, Hagmar Nepomuceno Curto, 31, lida todos os dias com pessoas que, assim como ele, precisam de uma máquina para sobreviver. Três vezes por semana ele passa quatro horas no setor de hemodiálise, em Itabira, ligado a um equipamento que retira de seu sangue as impurezas e o excesso de líquido.
Sua dieta alimentar é cheia de restrições, com ingestão de líquidos limitada e muitos cuidados para não resultar em complicação. Há tanto tempo nessa rotina, Hagmar até já se acostumou à realidade, mas não se aquietou e deixou a vida passar. Diante de situações de cortar o coração, resolveu criar uma entidade para ajudar pessoas humildes, vítimas da doença, que às vezes passam por dificuldades em casa por não conseguir um trabalho.
É dele a ideia de montar a Associação dos Portadores de Insuficiência Renal de Itabira e Região (Apirir), uma instituição nova e ainda pouco conhecida. Registrada em 2013, já conseguiu importantes conquistas em favor das pessoas menos favorecidas. As principais são o transporte de ida e volta para os pacientes que fazem hemodiálise no turno da noite no Hospital Nossa Senhora das Dores, arrecadação de roupas e alimentos para os mais carentes e suplemento alimentar – quem faz tratamento perde muitos nutrientes no processo de purificação do sangue e precisa de reposição.
“Tínhamos a ideia de criar a associação porque precisávamos de melhorias que às vezes não existiam. Em 2008 começamos os preparativos”, conta Hagmar. “A gente vai convivendo com outras pessoas e vendo a carência de pacientes que precisam de um agasalho, um mantimento. Na medida do possível, damos um apoio psicológico também. Às vezes a pessoa entra ali e pensa que é o fim do mundo, mas não é”, comenta.
Epidemia
Em todo o Brasil, cerca de 100 mil pessoas têm problemas renais. De acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), cerca de 10% da população adulta tem algum grau de perda de função renal, percentual que pode aumentar para 30% ou 50% em pessoas acima de 65 anos.
No dia 13 de março deste ano, data em que se comemora o Dia Mundial do Rim, uma campanha da SBN focou a prevenção. Em Itabira a atividade aconteceu na praça Acrísio Alvarenga. Hipertensão arterial, diabetes e obesidade levam à maior incidência de doenças renais, mas nem todos sabem. E são doenças que podem ser evitadas.
Doutor Marco Antônio Gomes, nefrologista, diretor clínico do Hospital Nossa Senhora das Dores e coordenador do setor de hemodiálise de Itabira, afirma que mudanças simples de hábito podem prevenir o pior. São cuidados com o excesso de sal, de carne vermelha, tabaco e bebida, por exemplo.
Segundo Marco Antônio, a hipertensão é a principal causa das doenças renais. “Na Argentina é proibido colocar sal em cima da mesa. No Brasil é o contrário: quanto mais sal melhor. Chega ao restaurante, tem o salzinho. Vai comer aquela batata frita, salzinho. O catchup e a maionese, mais sal. A criança, desde pequena, come aquele tal de chips que é sal puro! Aquilo no futuro é hipertensão arterial que virá acompanhada de doenças cardiovasculares e renais”, alerta o médico.
Segundo o Ministério da Saúde, considerando a população brasileira maior de 18 anos, mais de 20% têm hipertensão arterial, cerca de 8% são diabéticas, 18% são fumantes e quase 50% têm excesso de peso. Para o doutor Marco Antônio, é a despreocupação do governo com a prevenção que faz o número de pacientes renais crescer cada vez mais.
Quando ele participou da implantação do serviço de hemodiálise em Itabira, em 1988, existiam 11 pacientes. Hoje são cerca de 150 de Itabira e região. A estrutura do HNSD, inclusive, será aumentada para dar conta de atender a todos com tranquilidade. “Falo sempre que a prevenção é muito importante. Então gostaria de alertar a população: tome bastante líquido, não prenda a urina, reduza o sal, pare de beber e fumar. Cuide de sua saúde”, ressalta o doutor. Prevenir é sempre melhor do que remediar.
Prevenção
Algumas medidas simples podem prevenir o aparecimento de doenças renais:
– Controlar a dieta: evitar o excesso de sal, carne vermelha e gordura
– Evitar excesso de peso
– Fazer exercícios regularmente
– Não fumar
– Controlar a pressão arterial e o diabetes
Além disso, é necessário fazer uso adequado de medicamentos, evitar remédios que agridam os rins, verificar periodicamente o níveis de proteinúria e dosagem de creatinina no sangue por meio de exames, consultar regularmente seu clínico e nefrologista.
Pacientes idosos, portadores de doença cardiovascular e pacientes com história de doença renal em familiares têm grande potencial para desenvolver lesão renal e devem ser investigados com triagem de exames de urina e dosagem de creatinina no sangue.
Tratamento
Hemodiálise
É um tipo de tratamento para os pacientes que sofrem de doença renal avançada. Os rins de uma pessoa com doença renal avançada não conseguem fazer o trabalho de eliminar o excesso de água, sal, potássio, ureia e outras substâncias do sangue. Isso faz com que a pessoa se sinta doente, com náuseas, vômitos, inchaço, palidez, entre outros sintomas. Então, uma opção de tratamento é a hemodiálise. Na hemodiálise o sangue é filtrado por uma máquina e essas substâncias acumuladas são removidas, permitindo que o paciente se sinta bem e possa continuar vivendo.
Diálise peritoneal
É outra opção de tratamento para os pacientes que sofrem de doença renal crônica avançada. Através do tratamento, o sangue que circula nos vasos sanguíneos do peritôneo (uma membrana presente na cavidade abdominal) fica em contato com um líquido de diálise que é colocado na cavidade abdominal através de um cateter. Isso permite que as substâncias que estão acumuladas no sangue como ureia, creatinina e potássio sejam removidas, bem como o excesso de líquido que não está sendo eliminado pelo rim. É um tratamento que pode ser feito em casa.
Transplante renal
No transplante renal, um rim saudável de uma pessoa viva ou falecida é doado a um paciente portador de insuficiência renal crônica avançada. Através de uma cirurgia, esse rim é implantado no paciente e passa a exercer as funções de filtração e eliminação de líquidos e toxinas. É o tratamento definitivo, mas a dificuldade de doação de órgãos no Brasil ainda impede que mais pacientessejam assistidos com um transplante.
Fonte: SBN