Paixão de infância

Pelas fotos, Augusto consegue identificar tipos de carrocerias, modelos, chassis e motorizações de cada carro.

Paixão de infância
Matéria publicada na edição 255 da Revista DeFato.
 
Em meio a álbuns e miniaturas uma paixão se destaca. A busolo­gia, estudo dos ônibus, difundi­da por volta dos anos 1970, se po­pularizou a partir da chegada da internet. Antes um exercício muitas vezes solitário e individual, por meio da web expandiu suas barreiras e se transformou em um trabalho de grupos, possibilitando uma catalogação maior dos automóveis.
 
Desde menino, Augusto Antônio dos Santos, hoje com 68 anos, sentia uma enorme atração por ônibus. Suas primei­ras lembranças são do primário, onde aproveitava o intervalo para observar, por cima do muro, um ponto que ficava pró­ximo ao colégio. A imaginação o levou a desenhar e colorir os automóveis seguin­do sempre seus modelos originais, che­gando mais tarde a fazer anotações sobre os detalhes dos veículos como modelo, placa, empresa e linha.
 
Após viver seus primeiros 20 anos no Rio de Janeiro, cidade natal, passou por Ouro Preto, onde cursou engenharia civil, e posteriormente transferiu-se para o cur­so de engenharia mecânica em Belo Ho­rizonte. Formado, mudou-se para Itabira onde trabalhou na Vale e na Cisne, possi­bilitando uma proximidade ainda maior com o hobby da infância.
 
O domínio no assunto é tamanho, que, apenas pelas fotos Augusto conse­gue identificar tipos de carrocerias, mo­delos, chassis e motorizações de cada car­ro. Para conhecer tanto, além de pesqui­sas, ele teve ajuda de motoristas. “Sempre procurei informações. Conversando com os motoristas, às vezes pedindo pra en­trar no ônibus para descobrir outros de­talhes. Também me interessava muito por matérias em revistas” explicou.
 
Em sua coleção de aproximadamen­te 40 mil fotografias, algumas do mesmo veículo, Santos deixa clara sua paixão. “Você pode ter uma empresa que tem 100 ônibus do mesmo tipo, mas cada um tem um número de ordem, 1256, 1257, 1254, por exemplo, e também com a placa dife­rente. Você não se contenta em fotografar apenas um e representar todos os outros. Você busca um a um”.
 
Para quem está começando, Augus­to conta a tendência na forma como os ônibus são fotografados. “Em sua maio­ria, fotografamos pela frente e lateral, por exibir os detalhes mais interessantes, como placa, numeração, linha e pintura. Algumas fotos focam só a dianteira do ônibus para chamar a atenção de uma placa”, finalizou explicando que a placa é a parte mais interessante, por conce­der muitas informações nas buscas da internet.
 
Internet
O jovem Alann Alves, de 16 anos, segue o mesmo caminho de Augusto há pouco mais de um ano. Diferente do experiente busólogo, Alann não produz suas próprias fotografias e utiliza a inter­net para aprender mais sobre o assunto e ficar por dentro das novidades.
 
Atualmente ele administra uma pági­na no Facebook denominada “Busólogos MG”, com quase 400 curtidas. Na fanpa­ge, o adolescente compartilha diversas imagens dos automóveis e descreve o mo­delo, chassi, prefixo e empresa, mantendo os ‘seguidores’ informados e em contato entre si.
 
Ao fazer um rápido levantamento na web sobre o tema, é possível encontrar centenas de páginas e blogs, além de di­versos grupos e fanpages no Facebook. “A internet foi espetacular para esse estudo. O que apareceu de jovens apaixonados por ônibus após a internet não é brinca­deira. Atualmente eles são maioria nos encontros” sentenciou Augusto, mos­trando-se animado com a acessibilidade do tema.
 
Um dos sites mais ativos da inter­net sobre o tema é O Clube dos Admi­radores de Ônibus (admiradores de onibus.wordpress.com), que tem por objetivo criar uma amizade entre os membros e conscientizar a sociedade sobre a importância do estudo. Entre as novidades divulgadas, os criadores do site promovem encontros, confra­ternizações e concursos com direito a premiação.
 
Buscando explicar a difusão do as­sunto na internet, alcançando pessoas de todo o país, Augusto dos Santos diz que a busologia é um hobby dinâmico. “Você próprio faz sua coleção, diferente de selos, que já vêm prontos. Na busolo­gia você corre atrás, você fotografa, você busca informações sobre cada modelo de ônibus”. E também aponta o lado posi­tivo desse crescimento. “Busólogos tam­bém contribuem para o desenvolvimen­to das linhas de ônibus, já que reparam e apontam problemas de operação. Com a facilidade da internet, muitas empresas estão de olho nisso”.
 
Para os entusiastas da busologia, de acordo com a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas de Minas Gerais, contando apenas os coletivos que circulam na região metropolitana da capital mineira e entre municípios, são mais de sete mil ônibus, com média de 950 mil viagens por mês. Há muito que se fotografar e conhecer!
 
Na internet os busólogos po­dem ter acesso a um registro histórico-cultural da trajetória do transporte de passageiros em Minas Gerais. O blog Ônibus Mineiro (onibusmineiro.wordpress.com), cria­do pela historiadora e gestora cultural Ana Maria Rezende, em parceria com o jornalista e busólogo Bruno Freitas, traz um registro da história regional e local do transporte de passageiros em Minas, principalmente por ônibus.