Hiroshima e Nagasaki: 80 anos do trauma nuclear que redesenhou o mundo
Ninguém, na época, entendia plenamente o que significava irradiar duas cidades
Em 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, transformando-as em cenários de devastação instantânea. Em segundos, locais antes vibrantes perderam cor, vida e parte de sua estrutura, marcando um dos episódios mais sombrios da história mundial.
Até o fim de 1945, Hiroshima registrou cerca de 140 mil mortos, e Nagasaki, aproximadamente 70 mil – incluindo dezenas de milhares de crianças, vítimas inocentes do primeiro e único ataque nuclear da história.
Embora não existam registros fotográficos em escala humana do rescaldo imediato dos bombardeios, as cenas permanecem gravadas na memória dos sobreviventes: corpos dilacerados com tiras de pele penduradas, olhos saltados das órbitas e gritos desesperados por água. Em Hiroshima, vítimas em agonia lançavam-se ao rio, onde se contorciam em dor até sucumbirem – imagens que se tornaram o retrato visceral do horror nuclear.
Os sobreviventes do primeiro dia encontraram pouquíssimo auxílio médico. Moscas proliferavam em queimaduras abertas, depositando larvas – uma cruel ironia da natureza em meio à devastação. Familiares tentavam remover as infestações com palitos, mas a maioria das vítimas não resistiram. O verdadeiro perigo, invisível, era a radiação: pessoas que aparentavam estar bem dias depois dos ataques repentinamente colapsavam e morriam, em um silencioso e implacável efeito tardio da explosão nuclear.
Sobreviver aos ataques frequentemente significava conviver com sequelas devastadoras: queimaduras que se transformavam em queloides dolorosos ou o surgimento tardio de cânceres agressivos. Além dos danos físicos, os hibakusha – como são chamados os sobreviventes das bombas atômicas – enfrentaram décadas de estigma social. Vistos como símbolos vivos do horror nuclear, muitos tiveram dificuldades para se casar e viviam com o temor constante de transmitir doenças aos futuros filhos, carregando não apenas as marcas no corpo, mas também o peso de uma geração marcada pela radiação.
Ninguém, na época, entendia plenamente o que significava irradiar duas cidades. As fotos aéreas de Hiroshima e Nagasaki após os ataques mostram essencialmente o nada – um testemunho visual que obriga o observador a mentalmente reconstruir o que foi apagado do mapa em segundos.
Os EUA justificaram o bombardeio de Hiroshima em 6 de agosto de 1945, às 8h15, como necessário para encerrar a guerra. O ataque também demonstrou seu poder nuclear à URSS. Já Nagasaki, bombardeada três dias depois, tinha uma grande comunidade cristã e histórico de intercâmbio internacional. Hoje, ambas são lembradas principalmente como alvos das únicas armas nucleares usadas em guerra.
Há 80 anos, Hiroshima e Nagasaki arderam sob o fogo nuclear e das cremações em massa. Com a rendição japonesa em 15 de agosto, encerrava-se a expansão militar do país, mas o legado de destruição permaneceu – tanto nas nações ocupadas quanto no Japão, agora marcado pelo trauma atômico. Entre os escombros, os sobreviventes iniciaram a reconstrução de suas vidas e cidades, transformando ruínas em símbolos de resiliência.
Fumiyo Kono, de 56 anos, escreveu uma série de mangás de sucesso sobre a guerra, que inspirou um filme de sucesso, programa de televisão e musical de teatro. Embora ela tenha nascido muito depois, mesmo pensar naquele dia em que Hiroshima foi bombardeada, disse ela, a fazia sentir-se fisicamente doente. Em viagens a um museu que memorializa as vítimas, ela não suportava. Ela não sabia o que fazer.
“Talvez um dia, a resposta venha do seu coração”, disse ela, sobre como processar a devastação de sua cidade natal.
*Com Estadão.




