O eleitorado de Buenos Aires deu cartão amarelo para Javier Milei

As urnas trouxeram péssimas notícias para o atual morador da Casa Rosada. Os kirchneristas conquistaram 47, 28% dos votos contra 33,75% dos governistas na eleição do parlamento, na província de Buenos Aires

O governo do “libertário liberal” Javier Milei completa dois anos no mês de dezembro. Ainda não se sabe exatamente qual presente o aniversariante gostaria de ganhar. Em 26 de outubro, acontecerão as estratégicas eleições legislativas da Argentina. O resultado do pleito definirá os rumos da segunda metade do mandato. Na ocasião, o eleitorado escolherá novos deputados e senadores. Milei ainda conserva confortável maioria no Congresso.

O governador Axel Kicillof, da província de Buenos Aires, antecipou a eleição do parlamento para domingo, 7 de setembro. O sistema do país vizinho oferece esta prerrogativa aos chefes do Executivo dos entes federativos.

E, neste momento, é oportuno um pit stop para esclarecimentos. A cidade de Buenos Aires nada tem a ver com a província do mesmo nome. A capital federal tem autonomia administrativa. As províncias argentinas são bastante similares aos estados brasileiros.  A província de Buenos Aires — que tem como capital a cidade de La Plata — é formada por 134 “partidos de conurbação” (algo similar aos municípios das regiões metropolitanas do Brasil). Dados estatísticos mostram a relevância da principal unidade federativa no panorama socioeconômico da nação platina. Cerca de 16 milhões de pessoas vivem na área. O país tem 45 milhões de habitantes. No local, concentram-se 37% da arrecadação nacional. Aqui acaba o pit stop.

Kicillof é ferrenho adversário do presidente. O governador peronista (ou kirchnerista) é um político de centro-esquerda. No dia 7, os bonaerenses foram às urnas e elegeram 46 deputados e 23 senadores. A votação transcorreu em clima de muita tensão. Foi uma acirrada disputa entre a coalizão situacionista “Libertad Avanza” (de Milei) e a oposicionista “Fuerza Pátria” (dos peronistas). O mote da campanha libertária diz muito sobre o nível da refrega: “Kirchnerismo nunca mais”. A ex-presidente Cristina Kirchner — que cumpre prisão domiciliar de seis anos por corrupção — é a grande liderança da oposição.

As urnas trouxeram péssimas notícias para o atual morador da Casa Rosada. Os kirchneristas conquistaram 47, 28% dos votos contra 33,75% dos governistas. Um surpreendente percentual acima das projeções dos institutos de pesquisas. As eleições legislativas do restante do país serão no próximo mês. Buenos Aires, portanto, deu um cartão amarelo para Milei e Cia e fez acender o sinal de alerta no time libertário.

Mas qual o motivo para tanto mau humor de significativa parcela do eleitorado? Aparentemente, trata-se de uma contradição. A gestão ultraliberal exibe importantes conquistas na economia. Um exemplo bastante ilustrativo. Em dois anos, o índice inflacionário despencou de 210% para 47,3%. O plano econômico “Motosserra”, porém, triturou a estrutura do estado. As principais medidas de austeridade atingiram principalmente a classe média e a camada mais carente da população. Então, neste conturbado cenário, toda ação invariavelmente provoca reação.

O sucesso nas finanças trouxe em seu bojo tóxica insatisfação. Num mesmo caldeirão de contrariedades encontram-se aposentados, funcionários públicos e cidadãos à beira da indigência. Um dado assustador. As radicais mudanças estatais provocaram o fechamento de 13 mil empresas. Com isso, a taxa de desemprego chegou à estratosfera. Um terremoto institucional. Como se vê, o “estrondoso” sucesso numérico torna-se desprezível diante de tão elevado custo social.

E nada é tão ruim que não possa piorar um pouco mais. Um mês antes do processo eleitoral, explodiu o maior escândalo de corrupção da era libertária. A poderosíssima Karina Milei — irmã do presidente e secretária-geral da presidência da Nação — estaria cobrando uma propina de 3% da indústria farmacêutica responsável pelo fornecimento de medicamentos para pessoas com deficiência. Um propinoduto covarde. A revelação da possível tramoia causou monumental arranhão na imagem dos atuais “salvadores da pátria”. Afinal, Milei assumiu o poder prometendo acabar com a endêmica roubalheira da “casta” (a tradicional elite local). A precoce “setembrada” mostrou a necessidade de drásticas mudanças na metodologia da administração. E é pra já. O tempo voa. Afinal, outubro é logo ali.

P.S.: O governador Axel Kicillof, praticamente rompido com a ex-presidente Cristina Kirchner, já é forte candidato a presidente da República nas eleições de 2027.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

MAIS NOTÍCIAS