Equilibro-me entre Carlos Drummond e Bernardo Guimarães
Itabira respira Drummond. O “Eu- Lírico” paira sobre os casarões coloniais e sobrevoa ex-imponentes montanhas de ferro. E como anda Ouro Preto? Terra de um dos grandes escritores brasileiros: Bernardo Guimarães
Sou naturalmente de duas cidades ícones das Minas Gerais. Admito o privilégio de poucos. Identifico-me como itabirano de Ouro Preto ou ouro-pretano de Itabira. Não sei qual das duas gosto mais. Mantenho esta deliciosa dúvida no órgão da vida e emoção. Sou um homem infiel, afinal de contas. Se estou cá, penso em lá. Se estou lá, sinto saudade de cá. A cidade do Poeta Maior, Carlos Drummond de Andrade, e a terra dos inconfidentes apresentam pontos comuns. Diversificada cultura, rica tradição e encantadoras histórias.
Algo, porém, não consigo entender ou, talvez, finjo apenas compreender. Note bem. Itabira respira Drummond. O “Eu- Lírico” paira sobre os casarões coloniais e sobrevoa ex-imponentes montanhas de ferro adjacentes. A densa poluição da Vale não consegue impedir tamanha manifestação mítica. Em Itabira, fala-se Drummond o tempo todo. Ainda bem. Mas, pasmem! Certos “itabiranos” detestam o seu mais ilustre conterrâneo. Trata-se de fenômeno psicossocial incompreensível. Tudo bem. Às vezes, a ignorância (ou estupidez) supera a razão. Este estranho comportamento é tolerável. Mesmo porque, o livre arbítrio permite desatinos.
E como anda Ouro Preto? Um dos grandes escritores brasileiros nasceu na velha Vila Rica. Nome e sobrenome do magnífico autor: Bernardo Joaquim da Silva Guimarães. O romancista produziu obras maravilhosas. Dentre elas, “O Seminarista”, “A Dança dos Ossos” e a sublime “Escrava Isaura” — a cativa propositadamente branca. O que Drummond e Guimarães têm em comum? Absolutamente nada. Bernardo é talento da terceira fase do Romantismo brasileiro ou pré-Realista (Naturalista). Já Carlos é gênio da segunda fase do Modernismo. As características pessoais são distintas (demasiadamente distantes). Drummond era um ser sistemático, solitário e ensimesmado. Atrás dos óculos e do bigode se escondia um homem relativamente tímido. Literalmente o anjo torto imerso nas sombras. Guimarães, por sua vez, era genuíno porra-louca. Bebia demais e um pouco além. Aprontava como nunca.
O nobre ouro-pretano estudou advocacia na famosa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na capital paulista, virou amigo dos também literatos Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa. Os três viviam numa pindaíba de dar dó. Era sufoco financeiro de uma nota só. Pouco sobrava para as homéricas bebedeiras das noitadas na garoa.
E aqui vem uma travessura incrível do “pai” da escrava Isaura. A aventura se inicia com a costumeira escassez do vil metal. Então, o conterrâneo de Aleijadinho teve brilhante ideia para suplantar o estado de absoluta dureza. Encenou a morte do colega Álvares- com direito a velório e tudo mais- nas proximidades de uma taberna. Capítulo seguinte. Bernardo e Aureliano comovidamente começaram a pedir auxílio monetário para o funeral do dileto companheiro. A dramaturgia foi um sucesso. Os dois atores cachaceiros arrecadaram uma boa grana e foram encher a cara.
Epílogo. O suposto morto ficou incomodado com a interminável pose de defunto. O interior da urna mortuária era desconfortável, claro. Lá pelas tantas, Azevedo cansou-se de morrer. Era madrugada. Levantou-se do esquife e partiu em direção ao botequim. Encontrava-se morto de “sede”. Com razão. Todo filho de Deus tem direito à sagrada embriaguez. A aparição do ex-finado provocou imenso tumulto. Pintou o inevitável pavor nas desarrumadas mesas. Uma confusão danada. Gritos, correrias e barulho de copos quebrados tomaram conta do ambiente. Nada de anormal. Assombrações sempre provocam pânico e desespero. Alguns pinguços, ainda lúcidos, perceberam a farsa e pediram de volta o dinheiro da doação para o sepultamento. Sem chance. Cobre de bêbado não tem dono.
Neste ponto, termina o conto do vigário sem sotaina.
E, finalmente, chega-se à conclusão de que a arte do reconhecimento difere Itabira de Ouro Preto. Em Itabira, vivencia-se Carlos Drummond. Em Ouro Preto, ignora-se Bernardo Guimarães. Na antiga Mato Dentro, há Avenida, Fundação Cultural, Caminhos Drummondianos, Memorial e uma profusão de estátuas em homenagem ao Poeta Maior. Até lá em casa tem escultura do “Gauche”. Na velha Vila Rica, existe apenas a Rua Bernardo Guimarães, pertinho da monumental Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Convenhamos, é nada para quem tanto foi.
P.S.: Em 2025, comemora-se o bicentenário de Bernardo Guimarães. O escritor nasceu em 15 de agosto de 1825. Ouro Preto até promoveu interessante programação cultural em homenagem. Melhor. A data não passou totalmente despercebida. E nos restos dos anos?
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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