Dona Rosinha lança “Memória do Meu Quilombo” no Flitabira e transforma escrita em legado coletivo
Obra reúne 16 contos da escritora quilombola e foi constituída a partir de encontro com Conceição Evaristo

O lançamento do livro “Memórias do Meu Quilombo”, de Rosemary Alvares de Souza, conhecida como Dona Rosinha, marcou um dos pontos altos da quinta edição do Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira). O evento de lançamento foi realizado na noite da última quinta-feira (30), na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, e reuniu um público atento e emocionado diante de uma obra que nasce do cotidiano e das memórias da líder comunitária.
A mesa de lançamento contou também com a participação da escritora Conceição Evaristo, do secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura (MinC), Fabiano Piúba, e mediada pela jornalista e escritora Luana Tolentino. O debate girou em torno da idealização do livro e do processo de curadoria dos contos da autora que escreve diariamente desde sua adolescência.
O livro, publicado pela Editora Pallas, reúne 16 narrativas inspiradas na trajetória da Dona Rosinha e na sua vida comunitária do Quilombo Morro Santo Antônio, em Itabira. São histórias que abordam temas como infância, pobreza, maternidade, religiosidade, ancestralidade e relações de solidariedade. A obra também reflete o processo histórico de resistência e a transmissão de saberes que caracterizam as comunidades quilombolas.
A trajetória de Dona Rosinha com a escrita remonta à adolescência. Ela conta que sempre manteve o hábito de registrar, em cadernos e diários, acontecimentos e sentimentos do dia a dia. “Tudo que eu vivia, eu anotava. Era uma forma de guardar o que não queria esquecer”, relatou. O reconhecimento veio décadas depois, quando a escritora mostrou parte desses escritos a Conceição Evaristo, durante uma visita ao quilombo em 2023, promovida no âmbito da terceira edição do Flitabira.
“Eu não tinha noção da grandiosidade do que estava fazendo. Escrevia pensando que, um dia, quando eu morresse, alguém leria e saberia das histórias. Hoje, ver tudo isso acontecendo me assusta e me emociona. É como ver o resultado de um sonho construído ao longo da vida, um trabalho simples, feito à mão, que agora ganha um significado que eu nunca imaginei”, revelou a autora.
Na ocasião, Conceição e Fabiano Piúba participaram de uma roda de conversa com os moradores. Ao ler uma carta que havia escrito para o filho ainda criança, Dona Rosinha chamou a atenção da autora de Olhos d’Água, que viu ali um material literário potente. O encontro se transformou em projeto editorial, articulado por Conceição, Piúba e a equipe da Editora Pallas. “Ela não apenas escreve suas memórias, mas escreve uma história coletiva. Seu texto carrega um ‘eu’ que é também um ‘nós’”, declarou Conceição Evaristo durante o lançamento.
“A escrita e a oralidade não se conflitam, elas se completam. Quando uma contadora de histórias como Dona Rosinha decide registrar suas narrativas, o texto ganha dupla validade, a da palavra falada e a da palavra escrita. Valorizar uma escrita que nasce da experiência popular é também reconhecer que a história brasileira é múltipla e que todas as vozes têm o direito de ocupar o texto”, comentou Evaristo, que prefaciou o livro.
Segundo Fabiano Piúba, a publicação simboliza o resultado concreto das políticas culturais de democratização da leitura e da literatura. “O livro de Dona Rosinha representa o direito à palavra. É a comprovação de que a literatura pode nascer em qualquer território, desde que se garantam as condições para que essas vozes se tornem visíveis”, afirmou o secretário, destacando o papel do Ministério da Cultura na formação de leitores e na valorização da produção literária regional.
Durante o evento, Dona Rosinha afirmou que o lançamento superou todas as suas expectativas. “Nunca imaginei que minhas anotações se tornariam um livro. Eu reescrevi tudo à mão, porque gosto do papel, gosto do lápis. Ver essas palavras transformadas em livro é uma conquista para mim e para o quilombo”, disse. Parte dos textos, segundo ela, havia sido escrita há mais de quarenta anos.
Nesta edição, o Flitabira destacou a presença de autores que representam diferentes expressões da literatura brasileira contemporânea, indo de encontro com a tradição itabirana como território literário, herdeiro do legado de Carlos Drummond de Andrade.
Para além do impacto simbólico, “Memórias do Meu Quilombo” afirma a literatura como um espaço de memória e cidadania. A publicação está disponível na livraria do Flitabira até o domingo (02).




