No Dia da Consciência Negra, pedagoga itabirana defende educação antirracista como prática diária
Para Joice Maia Rocha, a educação antirracista precisa estar em todos os lugares, da escola aos espaços informais de convivência

No Dia da Consciência Negra, pedagoga itabirana defende educação antirracista como prática diáriaNo dia em que o Brasil celebra o Dia da Consciência Negra, as reflexões sobre igualdade racial ganham força, especialmente quando observadas a partir de quem vivencia, estuda e atua diariamente na formação de uma sociedade mais justa. É o caso da pedagoga itabirana Joice Maia Rocha, que vê na educação e na ação cotidiana os pilares fundamentais para uma sociedade verdadeiramente antirracista.
Para ela, a educação antirracista precisa estar em todos os lugares, da escola aos espaços informais de convivência. Nas instituições de ensino, ela defende uma revisão das narrativas históricas, partindo de uma perspectiva afrocentrada e humana. “É essencial desconstruir a narrativa do colonizador. Ensinar que os africanos trazidos ao Brasil não eram ‘escravos’, mas pessoas com família, história e identidade, que foram escravizadas”, explica.
A reconstrução, segundo Joice, passa também por combater estereótipos que marcam, ainda hoje, o cotidiano escolar. A ideia de que pessoas negras são “feias” ou “menos capazes” precisa ser desfeita desde a infância, e isso pode (e deve) ser feito de maneira lúdica para as crianças e com mais profundidade teórica nos níveis seguintes. Fora da escola, a itabirana alerta para a importância de intervir no chamado racismo recreativo, piadas e comentários que, sob o disfarce do humor, reproduzem violência e humilhação.
Para além de professores e instituições, Joice defende que a luta antirracista também cabe às famílias, às pessoas não negras e a cada cidadão. Conversar, denunciar, intervir e repensar atitudes são ações que dão sentido ao Dia da Consciência Negra como um marco de cidadania e não apenas de celebração ou denúncia.
“Educação não é só escolar. Está no trabalho, nos amigos, na família. A educação antirracista precisa estar em todos esses espaços”, ressalta.
Mulheres negras como farol
Em um ponto mais pessoal da entrevista, Joice foi convidada a falar sobre suas principais referências negras. Neste momento ela não sequer hesita: são mulheres: da academia, da arte e da literatura. A primeira delas é a professora Cassandra Muniz, da Universidade Federal de Ouro Preto, quem a ajudou a compreender, de fato, como o racismo opera. Mas sua mãe, dona Lili, foi sua referência inicial. “Quando eu era criança, dizia que não era negra, que era marrom. Isso é o reflexo do racismo: não querer ser aquilo que é visto como ruim ou feio”, lembra.
Na arte e na música, nomes como Luedji Luna, Liniker e Anelis Assumpção a inspiram. Já no campo do pensamento e do letramento racial, Joice destaca autoras como Djamila Ribeiro e Grada Kilomba, fundamentais para entender as dinâmicas do racismo estrutural.
Joice conta que se entendeu como mulher negra ainda na adolescência, mas só teve consciência racial plena na universidade, por volta dos 22 anos, quando passou a integrar o NEABI, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da UFOP. Foi ali que compreendeu que o racismo é mais profundo que as agressões diretas: é estrutural, institucional e sustenta desigualdades pela falta de representatividade em espaços de poder.
No fim do bate-papo, ela foi questionada sobre qual conselho daria a uma criança negra. O recado deixado foi o mesmo que gostaria de ter ouvido quando criança: “Você é linda. Você consegue tudo o que quiser. Você tem condições de ter sucesso. Não internalize o que as pessoas dizem para te diminuir, isso não define quem você é e nem quem você pode ser”.
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