Em Itabira, Lula evita falar sobre mineração e faz discurso marcado por críticas à desigualdade e defesa do SUS
Em nenhum momento do seu discurso o presidente da república abordou sobre mineração, seus impactos socioambientais e a dependência econômica vivida por Itabira

Em um discurso marcado por forte tom social, críticas à desigualdade e defesa do fortalecimento do SUS, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, nesta quinta-feira (11), da inauguração do centro de radioterapia instalado no Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD), em Itabira. A cerimônia, realizada no Campo do IVIPA, reuniu autoridades federais, estaduais e municipais, incluindo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o prefeito Marco Antônio Lage (PSB).
As falas de Lula também chamaram a atenção por outro fator: em nenhum momento do seu discurso o presidente da república abordou sobre mineração, seus impactos socioambientais e a dependência econômica vivida por Itabira – terra berço da extração de minério de ferro no Brasil. A situação do município, inclusive, foi abordada diretamente à Lula pelo prefeito Marco Antônio Lage (PSB, que fez um apelo enfático ao presidente, afirmando que o município enfrenta o maior desafio de sua existência: reinventar sua matriz econômica antes do esgotamento do minério, previsto pela Vale para 2041.
Marco também havia dito que Vale, Estado e União possuem uma dívida histórica com a cidade e que Itabira não pode ser “condenada ao abandono” após contribuir com mais de 2 bilhões de toneladas de hematita ao desenvolvimento global. No entanto, em seu discurso, o presidente da república não abordou nenhum dos temas. Assista:
Acesso à saúde
Logo no início, Lula destacou que é papel do Estado garantir que todos os cidadãos tenham acesso aos tratamentos adequados de saúde, sem distinção. Segundo ele, a máquina instalada no HNSD é da mesma tecnologia utilizada em grandes centros de referência do mundo, simbolizando igualdade de direitos entre ricos e pobres.
“Se o presidente Trump, dos Estados Unidos, precisar fazer uma radioterapia, ele vai fazer uma máquina igual a que vocês estão fazendo. Se Lula precisar utilizar uma máquina para fazer radioterapia, ele vai utilizar essa mesma máquina que vocês estão utilizando. Se o Papa precisar fazer radioterapia, ele vai utilizar essa mesma máquina que vocês vão utilizar. O que significa isso? Significa que todos nós, dos mais humildes aos mais importantes, tem que ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades”.
“Significa que uma sociedade humana que a gente quer criar, ela não pode ter as pessoas de primeira classe que têm tudo e as pessoas de segunda classe que não têm nada. Ela não pode ter uma pessoa que pode gastar uma passagem de avião para ir fazer um tratamento em outro país e ao mesmo tempo deixar as pessoas pobres que trabalham nesse país morrendo por falta de tratamento de uma máquina”, acrescentou.
Ao longo do discurso, Lula reafirmou que a defesa da dignidade e do acesso universal à saúde orienta suas ações. O petista disse que desde o seu primeiro mandato presidencial, se comprometeu a governar para garantir que todo brasileiro pudesse viver com dignidade, não apenas comer, mas ter emprego, salário, moradia e acesso à saúde.
“Ninguém gosta de ser pobre. Ninguém é pobre por opção. Eu não conheço ninguém, Dom Marco [Aurélio Gubbiotti], que disse: “Eu quero ser pobre”. E todos aqueles que ousaram defender os pobres foram perseguidos, a começar por Jesus Cristo”.
Lula também exaltou o ministro Alexandre Padilha, do qual ele elencou como responsável, ainda em 2012, pela aquisição de 80 equipamentos de radioterapia para o país, muitos deles instalados apenas após sua volta ao comando do Ministério da Saúde. “As pessoas pobres neste país foram tratadas como invisíveis. Agora, não será mais assim”.
“Se eu fosse presidente na pandemia, salvaria 70% ou 80% dos que morreram”
Durante o discurso, Lula voltou a criticar a forma como o governo de Jair Bolsonaro conduziu a pandemia de Covid-19, lamentando as vidas que, segundo ele, poderiam ter sido preservadas. O petista afirmou que, se a crise sanitária tivesse ocorrido em seu mandato, entre 70% e 80% das mais de 700 mil mortes registradas no país poderiam ter sido evitadas.
Sem mencionar Bolsonaro diretamente, Lula acusou o ex-presidente de agir com irresponsabilidade e desrespeito, relembrando episódios em que ele teria zombado de vítimas ao imitar pessoas com falta de ar.
“Se eu fosse presidente da República naquela época (da pandemia da Covid) e o Padilha fosse ministro da Saúde, eu duvido que a gente não tivesse salvo 70% ou 80% das pessoas que morreram por falta de vergonha e responsabilidade de um presidente que ficava na televisão imitando as pessoas que estavam com covid e zombando da saúde das pessoas que morreram”, disse.
BR-381
Lula também aproveitou o discurso para citar mais um leilão de trecho da BR-381, que irá gerar R$14 bilhões em investimentos para obras na rodovia. Para o presidente, os investimentos farão a BR-381 “voltar a ter uma estrada respeitada”. O certame realizado pelo Ministério dos Transportes nesta quinta-feira, no entanto, não se refere a um trecho da região de Itabira, e sim à rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte.
O certame ocorreu às 14h e teve como vencedora a empresa Motiva, que deverá investir R$14,8 bilhões nos próximos 10 anos para modernizar, duplicar e ampliar os 562 km da rodovia – que passa por 33 municípios.
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