Rumo a uma paz desarmada e desarmante

Construir uma paz desarmada começa com gestos simples: ouvir antes de julgar, perdoar antes de acusar, acolher antes de excluir. Uma palavra mansa pode desarmar conflitos; uma atitude justa pode restaurar dignidades; um coração humilde pode transformar relações

Rumo a uma paz desarmada e desarmante
Foto: Reprodução
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O mundo precisa de paz, e nós somos chamados a ser portadores da paz. Paz que nasce no coração, se traduz em gestos concretos e transforma as relações, começando em nossa casa, na comunidade e alcançando o mundo inteiro.

O Papa Leão XIV, em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, convida-nos para a vivência da “paz desarmada e desarmante” e reforça o seu discurso desde a sua primeira saudação, no início de seu pontificado, quando saudou a todos dizendo: “A paz esteja com todos vós”.

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. “A paz esteja convosco!” (Jo 20, 19.21) “é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade”. “Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: ‘A paz esteja convosco!’ Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente”, escreve o Santo Padre no início de sua mensagem.

“Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos”, ressalta o Papa.

De acordo com o Papa Leão XIV, “a paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena ‘basta!’, à paz se suplica ‘para sempre’. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite”.

O Santo Padre também destaca que “antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas”.

Leão XIV afirma que “A bondade é desarmante”. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. ‘Paz na terra’, cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele. Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho.

Segundo o Papa Leão XIV, as religiões devem vigiar “sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras”. “Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa”.

O Pontífice sublinha a importância da dimensão política, para a paz desarmada, recordando “que os que são chamados a assumir responsabilidades públicas, nos mais altos e qualificados cargos, devem investigar ‘a fundo’ qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos”.

Que sejamos artesãos dessa paz que nasce de dentro e se espalha ao redor. Paz que não impõe, mas propõe; que não fere, mas cura; que não divide, mas une. Assim, passo a passo, seguimos rumo a uma paz desarmada e verdadeiramente desarmante.

Sobre o colunista

Padre Hideraldo Verissimo Vieira é pároco na Paróquia São João Batista – João XXIII, em Itabira, e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com especialização em Ensino Religioso pela PUC Minas.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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