Suicídios aumentam em Minas Gerais e expõem efeitos prolongados da pandemia na saúde mental

Crescimento de casos na última década reacende debate durante o Janeiro Branco e reforça a importância da prevenção

Suicídios aumentam em Minas Gerais e expõem efeitos prolongados da pandemia na saúde mental
Foto: Reprodução/Freepik

O número de mortes por suicídio em Minas Gerais registrou crescimento significativo na última década, um cenário que especialistas relacionam a fatores sociais, econômicos e emocionais agravados após a pandemia. Para a psicóloga Christiana Sadok, que atua na capital mineira, os dados refletem um fenômeno complexo, que não pode ser explicado por uma única causa e exige respostas contínuas do poder público e da sociedade.

De acordo com dados oficiais do DataSUS, o total de suicídios no estado passou de 1.357 registros em 2014 para 1.825 em 2024, alta de 34,5% em dez anos. No período, ao menos 18 mil mortes foram contabilizadas. No Colar Metropolitano, que inclui Belo Horizonte e outras cidades do entorno, a elevação foi estimada em 11%, segundo os registros mais recentes divulgados em dezembro de 2025.

“O suicídio é uma questão complexa e multifatorial. Não existe um fator isolado capaz de explicar a ocorrência do ato suicida. O que observamos hoje é a combinação de diversos elementos que se inter-relacionam e aumentam o risco”, afirma Christiana Sadok (CRP: 04/77579). Segundo ela, a pandemia atuou como um catalisador de fragilidades já existentes. “Vivemos lutos que não foram apenas pela perda de pessoas, mas também de projetos, de estabilidade e de esperança. Muitas pessoas não conseguiram elaborar essas perdas e precisaram seguir funcionando, o que agora aparece como esgotamento emocional, desesperança e dificuldade de imaginar um futuro possível.”

No atendimento clínico, a psicóloga observa que fatores externos, como crise econômica, desemprego, isolamento social e pressão por desempenho, tendem a intensificar sofrimentos prévios. “Esses elementos raramente atuam sozinhos. Eles se somam a vulnerabilidades e fatores de risco como histórico de traumas, transtornos mentais, uso abusivo de substâncias, violência, preconceitos e estigmas. Quando a pessoa sente que não consegue corresponder às exigências externas, surge uma sensação profunda de inadequação e falha pessoal”, explica.

Outro ponto recorrente é a ideia de que o suicídio ocorre de forma impulsiva. Para Sadok, essa percepção não corresponde à maioria dos casos. “Na prática clínica, o sofrimento costuma se construir ao longo do tempo, com acúmulo de frustrações, solidão e perda de sentido. A pessoa não quer morrer, ela quer interromper uma dor que parece inescapável, intolerável e insuportável. Por isso, é um processo gradual, que raramente surge de uma hora para outra.”

O silêncio em torno do tema também aparece como um fator de risco. “Hoje sabemos que o silêncio é mais perigoso do que a conversa. Falar sobre suicídio de forma responsável e ética não estimula o ato, mas oferece alívio, valida sentimentos e abre espaço para o pedido de ajuda. O que agrava o sofrimento é a solidão e a sensação de não poder falar sobre o que se sente”, destaca a psicóloga.

Para familiares e amigos que perdem alguém por suicídio, o luto tende a ser marcado por culpa, vergonha e isolamento. “É um luto atravessado por estigma social. Muitas vezes, quem fica sente que precisa dar explicações e acaba recebendo pouco acolhimento. Compreender que o suicídio resulta de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais é fundamental para que a culpa não recaia sobre quem permaneceu”, afirma.

Christiana Sadok reforça que a prevenção ocorre no cotidiano, nas relações e no acesso a políticas de cuidado. “Espaços seguros de escuta, fortalecimento de vínculos, redução do estigma e acesso a serviços de saúde mental são fundamentais. Atitudes simples, como não minimizar a dor do outro e incentivar a busca por ajuda profissional, têm impacto real na prevenção”, conclui.

Durante o Janeiro Branco, especialistas destacam que o debate público qualificado sobre saúde mental é parte essencial da resposta ao crescimento dos casos, ao lado de investimentos contínuos e políticas estruturadas de cuidado.

Entrevista com a psicóloga Christiana Sadok na íntegra:

DeFato Online: Os dados mostram um aumento expressivo dos casos de suicídio na última década. Do ponto de vista clínico, o que ainda estamos vivendo como “ressaca emocional” da pandemia ajuda a explicar esse crescimento?

Christiana Sadok: Antes de responder a essa pergunta, é importante deixar claro que o suicídio é uma questão complexa e multifatorial. Ou seja, não existe uma única causa — um fator isolado, aleatório ou exclusivo — capaz de explicar a ocorrência do suicídio. O que vemos hoje são diversos fatores inter-relacionados que ajudam a compreender a construção do comportamento suicida.

Falando especificamente da pandemia como um elemento que se soma a outros já existentes, clinicamente observamos que, naquele período, vivemos lutos que não foram apenas pela perda de pessoas, mas também de projetos, de esperança e de estabilidade. Muitas pessoas não tiveram tempo de elaborar esse luto. Precisamos, entre aspas, “seguir funcionando” em meio a perdas reais ou simbólicas, sem poder viver o luto de forma plena, tanto no plano individual quanto no coletivo. Isso pode aparecer agora como desesperança, esgotamento emocional, dificuldade de imaginar um futuro com alguma estabilidade e até raiva pelo que foi vivido naquele período.

Além disso, o isolamento social — embora tenha sido crucial como medida de saúde pública — foi determinante para o aumento da solidão, de sintomas depressivos e para a perda de habilidades sociais e de interação, algo que ainda vemos na clínica. Há pessoas que não conseguiram recuperar o modo de ser e de se relacionar que tinham antes.

Outra questão que aparece com frequência é um medo muito grande do futuro, um medo da imprevisibilidade. Muitas pessoas que já tinham fatores de risco para ansiedade acabaram intensificando esse quadro e hoje vivem em estado constante de alerta, de hipervigilância, como se, a qualquer momento, pudesse acontecer outra pandemia ou alguma tragédia muito grave.

DO: Muito se fala em fatores externos como crise econômica, isolamento e pressão por desempenho. Em consultório, como esses elementos costumam se combinar com o sofrimento psíquico individual?

CS: No consultório, percebemos que esses fatores externos raramente atuam sozinhos. O que costumam fazer é intensificar fragilidades que já existem, como baixa autoestima, histórico de traumas e transtornos mentais preexistentes, diagnosticados ou não.

Além disso, há diversos outros fatores de risco associados ao suicídio, como abuso de substâncias, vivência de violência ou abuso, desemprego ou baixa renda, histórico familiar de suicídio, preconceitos e estigmas, pertencimento a grupos minoritários, impulsividade, agressividade e acesso a meios letais, como armas e venenos, entre outros. Esses fatores externos se somam às vulnerabilidades individuais. E, quando a pessoa sente que não consegue dar conta das exigências do que é esperado socialmente, pode surgir uma sensação de inadequação e de falha pessoal.

DO: Existe a ideia de que o suicídio acontece de forma impulsiva. Na prática clínica, como esse processo costuma se construir ao longo do tempo na mente da pessoa?

CS: Embora existam momentos de maior desorganização emocional e impulsividade, na maioria dos casos o processo é gradual. O sofrimento vai se construindo ao longo do tempo. Em geral, há um acúmulo de frustrações, dores não nomeadas, sentimento de solidão, perda de sentido e falta de pertencimento, junto da ideia de que não existe outra alternativa possível além do suicídio.

Falamos dos “três Is” da dor emocional: uma dor inescapável, intolerável e insuportável. A pessoa, na verdade, não quer morrer; ela quer interromper o sofrimento. Quer acabar com uma dor que parece não ter fim e que ela sente que não consegue suportar. Por isso, é um processo que se constrói ao longo do tempo e não surge de uma hora para outra.

DO: Falar sobre suicídio ainda gera medo, como se o diálogo pudesse “estimular” o ato. O que a psicologia já sabe hoje sobre o impacto do silêncio versus o impacto da conversa qualificada?

CS: Hoje sabemos que o silêncio é muito mais perigoso do que a conversa. Mas precisa ser uma conversa responsável, qualificada e ética. Quando conseguimos falar sobre suicídio com esses componentes, oferecemos alívio, validamos sentimentos e abrimos espaço para que as pessoas possam pedir ajuda. O silêncio tende a aumentar a solidão, a sensação de não ser compreendido e de não poder falar sobre o que se sente.

É importante também saber o que falar, como falar e quando falar — e, principalmente, o que não deve ser dito de forma alguma. Sempre que possível, é essencial lembrar que o suicídio é uma questão complexa e multifatorial, sem uma explicação única. Também é importante não rotular alguém como “pessoa suicida”, e sim falar em “comportamento suicida”, porque a pessoa é muito mais do que aquele comportamento.

Outro ponto é destacar que o suicídio pode ser evitado, mas que existe diferença entre evitar e prever. Podemos prevenir, mas não necessariamente prever quem, quando ou como vai ocorrer. Também é importante indicar onde a pessoa pode buscar ajuda ou mais informações: serviços de atendimento psicológico e psiquiátrico, linhas de apoio, como o CVV, no número 188, e mensagens de esperança, reforçando que existe tratamento e que há ajuda disponível.

Além disso, falar de bem-estar e de promoção de saúde mental já contribui para a prevenção. Nem sempre é preciso tocar diretamente no tema, principalmente quando não se sabe como abordar de forma adequada.

E há coisas que não devemos fazer: tratar o suicídio como saída viável para problemas; relacionar suicídio a crime, pecado, coragem ou falta de religião; contribuir para estigmas e preconceitos ligados a transtornos mentais; e banalizar o sofrimento, diminuindo ou invalidando o que a pessoa sente.

DO: No caso de familiares e amigos que perdem alguém por suicídio, quais são os sentimentos mais recorrentes no processo de luto e por que esse luto costuma ser mais solitário?

CS: Esse luto costuma ser atravessado por sentimentos intensos e ambivalentes, como culpa, raiva, vergonha, tristeza profunda e uma busca por explicações — muitas perguntas que não têm resposta. Muitas vezes, quem fica revisita mentalmente situações passadas tentando encontrar sinais e “erros”, o que torna o processo ainda mais difícil.

Há também o estigma social. Como o suicídio ainda é tabu para muitas pessoas, o luto de quem fica costuma ser pouco reconhecido, justamente pelo desconforto coletivo em falar sobre a dor e sobre esse tipo de perda. Quanto menos a pessoa fala, menos acolhimento recebe, e isso torna o processo mais solitário. Soma-se a isso a sensação de que será julgada e de que precisa explicar aos outros o que aconteceu.

DO: Como evitar que a culpa recaia sobre quem ficou, especialmente pais, mães e pessoas próximas?

CS: Evitar a culpa passa por compreender que o suicídio é resultado de uma combinação complexa de fatores — biológicos, psicológicos, sociais e econômicos. Nenhuma relação isolada explica ou determina o suicídio. A culpa costuma surgir da tentativa de encontrar uma explicação simples para algo extremamente doloroso e complexo. É uma tentativa de dar sentido ao que aconteceu, mas, geralmente, é injusta e adoecedora.

Nesse momento, o acompanhamento psicológico é fundamental para ajudar familiares e amigos a elaborarem a dor, reconhecerem seus limites e ressignificarem essa responsabilidade. Também ajuda a desconstruir a ideia de que alguém teria controle total sobre o sofrimento psíquico do outro ou de que poderia ter controlado algo tão complexo.

DO: Quando falamos em prevenção, o que de fato funciona no cotidiano?

CS: A prevenção acontece no dia a dia, nas relações, no autocuidado e nas políticas de cuidado. Prevenção envolve espaços seguros de escuta, acesso a serviços de saúde mental, redução do estigma, fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento de potencialidades e fatores de proteção.

Além dos fatores de risco, existem fatores de proteção: individuais, como habilidades de enfrentamento, resolução de problemas, razões para viver e senso de identidade; relacionais, como suporte de amigos e familiares e sentimento de conexão; e comunitários e sociais, como vínculo com escola, comunidade e instituições, além de pessoas treinadas para acolher e apoiar quem está em risco. Também entram políticas públicas de prevenção, medidas que promovam estabilidade econômica e acesso público à saúde mental. E atitudes simples, como validar o sofrimento, não minimizar a dor do outro e incentivar a busca por ajuda profissional, têm impacto real para quem está em sofrimento.

DO: Que sinais de alerta não devem ser ignorados e que tipo de escuta realmente ajuda a reduzir o sofrimento de alguém em crise?

CS: Primeiro, é importante pontuar que não existe um manual para detectar um possível suicídio. Mas há sinais que devem chamar a atenção de pessoas próximas. Por exemplo: aparecimento ou agravamento de problemas de conduta por um período, preocupação com a própria morte e falta de esperança. Algumas pessoas passam a falar mais do que o habitual sobre morte ou suicídio, trazem uma visão muito negativa da vida e do futuro e expressam essas ideias por escrito, verbalmente ou até em desenhos.

É importante ficar atento também a frases como: “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “queria dormir e nunca mais acordar” ou “é inútil tentar melhorar”. O isolamento também é um sinal relevante: não atender telefonemas, interagir menos nas redes sociais, ficar mais em casa ou no quarto, reduzir ou cancelar atividades sociais. São mudanças significativas de comportamento — isolamento, falas de desesperança, desvalorização da própria vida e perda de interesse por coisas que antes eram importantes.

A escuta que mais ajuda é sem julgamento, sem pressa para dar conselhos e sem minimizar a dor. Às vezes, o mais importante é mostrar que a pessoa não está sozinha e que existem outros caminhos possíveis. Não é para ficar passivo diante de uma mensagem de risco: é preciso oferecer apoio e incentivar a busca por ajuda profissional. Também é importante lembrar que a melhora é um processo; não acontece de um dia para o outro, mas é um caminho possível.

E é essencial evitar falas que julgam ou invalidam: dizer que a pessoa quer chamar atenção, que é falta de Deus, banalizar os motivos comparando com “problemas piores” ou condenar a pessoa por ter aquele pensamento.