Alguém traiu o corporativismo do STF
O Banco Master ameaça desmascarar a elite social, política e econômica do país. E nada ficará como antes era. Pode apostar
Há algo de podre no reino do bananal. Esta percepção nem necessitaria contextualização shakespeariana. É evidência evidente. Um grave sintoma. O Banco Master ameaça desmascarar a elite social, política e econômica do país. E nada ficará como antes era. Pode apostar. Nos últimos dias, o lamaçal chegou às portas do Supremo Tribunal Federal (STF). O script da chanchada é vergonha alheia. Consequência natural da trama. Um intenso cheiro de podridão exala da Praça dos Três Poderes. O ar da capital federal encontra-se moralmente irrespirável.
A bola da vez, nesta conjectura, é o estranhíssimo Dias Toffoli. As atitudes pretéritas e presentes deste senhor justificam o superlativo. Na verdade, o comportamento fora da curva ultrapassa o “íssimo”. Este togado é fruto da famigerada indicação presidencial para cadeiras do STF. A prerrogativa do chefe do Executivo nacional tem muito de interesse pessoal e pouco de compromisso republicano. O personagem em destaque é grande exemplo da idiossincrasia. A narrativa tem sentido exato. Em duas oportunidades (1994 e 1995), o advogado Toffoli prestou concurso para Juiz federal, em São Paulo. Adivinhe o resultado da “complexa” ousadia intelectual. O jurista “levou bomba” em ambas as tentativas.
Este desempenho abaixo da crítica denota o que esta coluna sempre defendeu: a meritocracia deveria ser condição necessária e suficiente para o exercício da magistratura, em todos os níveis da federação. Assim, um juiz só alcançaria o cargo maior depois de passar por instâncias inferiores. Desta forma, chegaria ao STF e STJ exclusivamente por competência própria. Assumiria sem dever favores a prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidentes.
A dinâmica, porém, não funciona dentro da lógica. Veja bem a amplitude da aberração. O Estado Nacional é laico. A secularidade, contudo, não impede implícita “exigência” pragmática para o exercício profissional na esfera máxima da Justiça. O “ungido” de ocasião carece ser terrivelmente evangélico, terrivelmente católico ou terrivelmente macumbeiro. E, nesta configuração, o extremamente ateu é carta fora do baralho. E que Deus tenha compaixão do discriminado.
A penúltima desmoralização da Corte se deu do jeito mais vexatório possível. Um absurdo. Vazaram-se detalhes da “secretíssima” reunião de passa pano em benefício de Dias Toffoli. O BBB magistral foi parar na redação do site Poder 360. Na ocasião, os sisudos magistrados se despiram da toga e ficaram inteiramente nus. Foi constrangedor. Um panorama veio à tona. Os garantidores do cumprimento das leis estão fulos da vida com a Polícia Federal (PF). E pior. O episódio (vazamento) deixou muito claro que a imaculada Suprema Corte abriga traíras. Quem repassou a gravação do “sigiloso” encontro para o veículo de imprensa? Melhor chamar a PF para elucidar a patifaria.
Como se vê, o corporativismo explícito do Judiciário traiu-se. No entanto, não se iludam. O avanço dos trabalhos de investigação da máster encrenca provoca forte apreensão no Planalto Central. Com razão. Há “capas pretas” com as digníssimas cabeças na guilhotina. Aguardem as encenações dos próximos atos deste teatro burlesco.
P.S.1: Nesta escabrosa história resta um lenitivo. O ministro André Mendonça — o novo relator do caso Master- migrou da condição de “terrivelmente evangélico” para o status “terrivelmente legalista”. Enfim, uma notícia salutar no reino da papagaiada. Quem diria! Mendonça pode se transformar no salvador da Corte.
P.S.2: segundo Dalton Dallagnol, ex-promotor da operação “Lava Jato”, o presidente do Senado — Davi Alcolumbre — estaria articulando uma armação contra o ministro André Mendonça, do STF. Parece que é algo a ver com o escândalo do Banco Master. Vamos aguardar.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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