Itabira registra quase 2 casos de violência contra a mulher por dia e expõe falhas estruturais no enfrentamento; veja os dados

Levantamento mostra predominância de autores homens, concentração de vítimas jovens e aponta que maioria dos casos chega à polícia em estágio mais grave

Itabira registra quase 2 casos de violência contra a mulher por dia e expõe falhas estruturais no enfrentamento; veja os dados
Foto: Giovanna Victoria/DeFato

 

Mesmo com o fortalecimento da rede de proteção às mulheres, os números de violência contra a mulher em Itabira seguem elevados. Em 2025, o município registrou 699 ocorrências, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp) — uma média de 58 casos por mês, ou quase dois por dia.

A série histórica mostra uma escalada expressiva: foram 203 registros em 2020, 247 em 2021 e 448 em 2022. Em 2023, o número salta para 714 e, desde então, se mantém em patamar alto, 679 em 2024 e 699 no último ano.

Para o delegado João Martins Teixeira, da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), os dados são, ao mesmo tempo, um indicativo de avanço e um alerta. Ele explica que parte desse crescimento está ligada à redução da subnotificação, mas evita tratar o aumento como algo positivo. “O objetivo era que esses números aumentassem num primeiro momento, pela facilitação do acesso. Mas agora o próximo passo é fazer com que eles caiam de forma real, não por falta de registro, mas pela diminuição da violência”, pontua.

Homens são maioria entre autores

Em 2025, 56,4% dos registros têm homens como autores de violência contra a mulher, mesmo eles sendo minoria na população de Itabira (47,5%), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quando ajustado por população, o desequilíbrio é ainda mais evidente: são aproximadamente 703 autores homens a cada 100 mil habitantes, contra 418 mulheres. Ou seja, homens têm cerca de 68% mais probabilidade de aparecer como autores de violência.

O delegado vai além dos números e aponta a raiz do problema. “A gente sofre as consequências de uma formação de Estado patriarcal. Ainda existe esse ideal de que o homem manda, de que a mulher é uma posse. E isso aparece muito nos casos”, afirma.

Segundo ele, essa lógica se manifesta de forma recorrente nas ocorrências. “O ciúme está por trás de muitos casos. E o ciúme, na prática, é essa ideia de posse. ‘Essa mulher é minha’. Quando isso é contrariado, muitas vezes vira violência”, diz.

Embora mulheres também apareçam como autoras — 37% dos registros em 2025 —, o delegado relativiza esse dado. “A gente vê conflitos interfamiliares: mãe com filha, irmãs, situações dentro de casa. Mas o que realmente preocupa é essa relação homem-mulher. Isso é uma verdadeira epidemia”, afirma.

Mulheres jovens concentram maioria das vítimas

Em 2025, o recorte etário das vítimas revela um padrão claro: a violência de gênero atinge principalmente mulheres jovens. A faixa etária de 18 a 29 anos concentra cerca de 233 casos, o equivalente a 38% dos registros, seguida pelo grupo de 30 a 39 anos, com aproximadamente 118 ocorrências (26%).

Juntas, essas duas faixas representam 64% dos casos — quase dois em cada três registros no município. As demais idades aparecem em menor proporção: entre 40 e 49 anos, cerca de 17%; de 50 a 59 anos, aproximadamente 10%; pessoas com 60 anos ou mais somam cerca de 6%; e menores de 18 anos representam cerca de 3% dos casos.

Outra variável é a tipificação das ocorrências, indicando que a maioria dos casos chega às autoridades já em estágio mais grave. A violência física predomina, representando entre 75% e 85% dos registros — podendo chegar a cerca de 600 casos. Já a violência psicológica aparece em uma faixa entre 17% e 25%, enquanto a violência sexual corresponde a aproximadamente 6% a 8% das ocorrências.

Um indicativo de que muitos casos só chegam à polícia quando a situação já se agravou. “Isso mostra que, muitas vezes, a violência só é noticiada quando já passou de todos os limites”, avalia o delegado.

Feminicídio abaixo da média, mas ainda presente

Em meio aos dados, um indicador destoante: Itabira registrou um feminicídio consumado em 2025, número considerado abaixo da média estadual. “Se comparado com Minas Gerais, era para termos seis ou sete casos. Isso mostra que algumas mulheres foram salvas pelas políticas aplicadas”, afirma o delegado.

Ainda assim, ele reforça que o objetivo é zerar esse tipo de crime.

Enfrentamento à violência 

Ao ampliar a análise, o cenário aponta que o enfrentamento da violência contra a mulher em Itabira esbarra em fatores que vão além da atuação policial. Especialistas e agentes da rede indicam que o problema está diretamente ligado a questões estruturais, como a desigualdade social e a permanência de padrões culturais que ainda naturalizam a violência nas relações.

Nesse contexto, o delegado João Martins Teixeira avalia que a principal fragilidade está na base do problema. “A principal falha do Estado é cultural. A gente ainda falha na educação, na formação, na mudança de mentalidade”, afirma.

A leitura também passa pelo contexto local. Apesar de ser um município com forte arrecadação, Itabira convive com desigualdades que impactam diretamente a efetividade das políticas públicas. Na prática, isso significa que o acesso à informação, à rede de proteção e às oportunidades ainda não alcança todas as camadas da população de forma igual. “Sempre que a gente pensa em desenvolvimento de políticas públicas, tanto educacional como mudança cultural, a gente tem que pensar sempre na diminuição da desigualdade, na inclusão de certas camadas da população que ainda não se fazem incluídas”, pontua.

Reforço de medidas preventivas

Para 2026, a atuação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher deve priorizar o reforço das medidas preventivas, com foco especial nos casos de descumprimento de medidas protetivas.

Segundo João Martins, esse tipo de situação indica que o agressor já não respeita as determinações judiciais, o que exige uma resposta mais rigorosa do sistema. “A medida protetiva funciona como um aviso do Poder Judiciário. Quando há descumprimento, é um indicativo claro de que aquele sujeito não está respeitando nenhuma regra”, explica.

Nesses casos, a estratégia é intensificar a atuação com a solicitação de medidas cautelares mais severas, ou até mesmo a prisão preventiva, ainda durante o andamento do processo, como forma de garantir a proteção da vítima e evitar a escalada da violência.

Ao final, o delegado reforça o papel da rede de apoio e orienta que mulheres procurem ajuda mesmo diante de dúvidas sobre a situação vivida. “Em caso de qualquer dúvida, procure a Polícia Civil. Não precisa ter certeza se é violência ou não. Vá, pergunte, procure orientação”, afirma.

Ele destaca que o atendimento não se limita à atuação policial, mas envolve uma equipe multidisciplinar, com psicólogas e assistentes sociais, preparada para acolher e orientar as vítimas. “Estamos atentos e à disposição da população”, conclui.