Um mar de oportunidades
Marcus Zanotti Breciani, superintendente geral de projetos do Porto de Vitória, esteve em Itabira para dar aos empresários uma visão técnica sobre o setor
Na busca por alternativas econômicas, Itabira discute investimentos em uma área que precisa evoluir muito no Brasil: a logística. No mês de junho, o engenheiro civil Marcus Zanotti Breciani, superintendente geral de projetos do Porto de Vitória, esteve em Itabira para dar aos empresários uma visão técnica sobre o setor. É que a prefeitura pretende construir na cidade um porto seco, que teria condições de atender não só ao município, mas toda a região.
Antes de sua palestra, Marcus conversou com DeFato e disse que o Porto de Vitória está em obras para ampliar sua capacidade de movimentação de cargas. Sua vinda a Itabira faz parte de um projeto que visa captar mais clientes em Minas Gerais e em Goiás. Se for construído por aqui um porto seco, melhor ainda, já que a Estrada de Ferro Vitória Minas (EFVM) aumenta as possibilidades de transporte de produtos em grande volume. Com um porto seco, a cidade geraria uma quantidade “quase imensurável de serviços”, que movimentaria a economia regional. “Viemos vender o nosso peixe”, afirmou o superintendente.
As filas de caminhões no Porto de Santos, noticiadas amplamente no mês de maio durante o escoamento da supersafra de grãos, não deixam dúvidas. O Brasil precisa melhorar sua infraestrutura logística se quiser ganhar competitividade. Marcus é engenheiro civil e tem mais de 30 anos de experiência no setor portuário. Na entrevista a seguir, ele fala também sobre a situação logística do Brasil e ressalta a necessidade de investimentos urgentes.
Qual o objetivo da visita do senhor a Itabira?
O Porto de Vitória, nesse mercado globalizado e bastante competitivo, está tentando buscar clientes para incrementar os volumes de cargas já movimentadas. Aqui em Minas Gerais, a gente procurou primeiro a Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e depois vamos para Goiás. Conversamos com o pessoal da Fiemg e logo a Prefeitura de Itabira, através do secretário de Desenvolvimento Econômico e vice-prefeito, Reginaldo Calixto, nos procurou e disse que o município tinha interesse em nosso projeto. Todos precisam vender e comprar produtos em qualquer lugar do mundo, e a gente movimenta isso através do Porto de Vitória. É uma ação comercial do porto nas cidades consideradas com potencial de crescimento e de movimentação de carga. Itabira tem a Vale e a ferrovia que pode levar e trazer outras coisas que não seja minério, com agregação de valor, que vai ser bom para a cidade e bom para o Porto de Vitória, se for por lá. Nosso objetivo é apresentar o porto e os novos investimentos que a gente está fazendo. São mais de R$ 500 milhões, investimento do Governo Federal, que estão dando uma melhoria na parte operacional e na produtividade do nosso porto. Estamos fazendo dragagem, derrocagem – que é o aprofundamento do canal – para que navios possam embarcar com mais capacidade. Isso permite movimentar mais mercadorias por navio, reduzindo frete e consequentemente o custo final dos produtos. Por isso, Minas Gerais é o nosso objetivo para o início desse projeto. Estamos aqui porque a gente entende que, além de Itabira ter potencial, a prefeitura abraçou o projeto. Estamos fazendo de Itabira a cidade-piloto. Se as coisas derem certo e os empresários entenderem que o Porto de Vitória é um porto importante para o crescimento da cidade e de seus negócios, a gente já estará bastante satisfeito.
Como será o funcionamento desse projeto?
Primeiro a gente vai à cidade fazer um mapeamento – não mapeamos todas ainda. Inclusive, temos a preocupação nesse mapeamento quanto a interferências, porque uma cidade pode estar perto da outra. Dividindo o mapa de Minas Gerais ao meio, a parte de cima vamos “atacar” e tentar trazer para Vitória. Pretendemos fazer o mesmo com a parte de baixo (quando falo “atacar”, é porque a concorrência já fez isso. Está percorrendo todas as cidades de Minas). A gente está começando ainda. Porto público não é como porto privado. Não pode ficar negociando tarifas, dar área sem licitação, então a gente está indo com bastante pé no chão. Vamos escolher aproximadamente 10 cidades em Minas e depois iremos para Goiás. O objetivo é fomentar empresas a movimentarem cargas pelo porto, tanto de exportação quanto importação. No caso de Itabira, dá para utilizar a ferrovia. Se não der, pode ser a rodovia mesmo, criando em Itabira, por exemplo, um centro de distribuição de mercadorias.
Itabira pretende construir um porto seco. Pode haver parceria com o Governo Federal?
É preciso autorização do Governo [Federal] sim, que licita os portos secos. Para Itabira ter um porto seco ou um centro de distribuição de cargas regional, é preciso que tenha condições para isso. Primeiro o volume de cargas. Depois o empresário ou investidor tem de procurar o governo para fazer uma licitação, pegar uma área (que tem de ser alfandegada) e desembaraçar as mercadorias, que viriam direto do porto para cá. Com isso a cidade ganharia muito em volumes de negócios. Por exemplo: uma mercadoria que vem no container chega aqui em um monte de caixas. É precisão tirar essa mercadoria, reprocessar, embalar e distribuir para outras cidades ou para as lojas diretamente. Isso gera um centro de negócios muito bom, mas é preciso que o empresariado local se interesse. Pelo menos a prefeitura está abraçando a ideia. A intenção é da prefeitura, não é nem nossa do Porto de Vitória. Nossa intenção é que movimente por lá. Se vai fazer um centro de distribuição aqui ou um porto seco, isso é outra história. Viemos vender o nosso peixe.
Cidades da região têm grandes projetos de mineração. É uma boa notícia nesse sentido?
Já exportamos, através do Porto de Tubarão (não é o de Vitória, mas é motivo de orgulho para nós) todo o minério aqui de Itabira. Tudo isso aqui a Vale já escoa por lá. Ficamos muito satisfeitos, mas queremos movimentar outras cargas, até de maior valor agregado. Cargas que vocês podem precisar. Por exemplo: ao invés de vir de São Paulo para Belo Horizonte e depois para Itabira, carga de produtos poderia vir de Vitória para cá direto, e daqui ser distribuída para a região. A gente não quer tirar carga de ninguém, mas dar mais uma opção de escolha para o empresário definir o que é melhor, mais barato e mais produtivo para ele. Não precisando alfandegar, ou seja, de lugares para você nacionalizar cargas de importação (e pagando a importação lá na alfândega em Vitória), você pode trazer a carga para qualquer lugar, no seu terreno particular, no quintal da sua casa, desde que tenha estrutura. Acho até que os empresários deveriam juntar e fazer isso de uma forma coletiva, através de uma associação ou alguma coisa assim, e construir um centro de distribuição. Vai reduzir bastante os custos, não só do empresariado de Itabira, como também da região. Se for para exportação, por exemplo, junta toda a carga aqui e manda para o porto, que tem lá uma estrutura de acordo com a programação. Aí precisa ser feita a contratação de despachantes, operadores portuários, transportadores e etc.
Por que a logística brasileira continua sendo um gargalo à produção?
Tenho 30 anos de trabalho e experiência nessa área. Sou engenheiro civil, então minha formação facilita falar sobre isso. Acho que falta boa vontade; boa vontade de todos, não só de políticos. Se você sair do Brasil e for, tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa, vai ver que a matriz de transporte é bem distribuída entre ferrovias, rodovias, hidrovias e dutovias – que a gente tem aqui inclusive, para transportar minério. No Brasil não. Quase 90% do transporte acontece por rodovias. Aí as estradas vão ficar esburacadas mesmo, não tem como não ter acidentes. Agora acho que as coisas estão mudando um pouco, com os processos de duplicação da BR-381, entre outras. As nossas estradas têm muita curva, pista única e quando chove a sinalização é péssima. Não é acabar com o caminhão. O caminhão, até 300 km, 400 km é imbatível. Mas temos no Brasil mais de 8 mil km de costa e pode ser feita a capotagem, por exemplo, que é a navegação pela própria costa. Por que essas cargas, transportadas por caminhão, não vão do sul para o norte do país por navios? A gente ganharia em qualidade de vida. Sobre as estradas, pode colocar pedágio que a gente vai pagar com gosto, desde que elas estejam em bom estado de conservação. Você vai para Europa e anda milhares de quilômetros em estradas triplicadas, não duplicadas apenas. Se duplicar aqui a gente bota a mão para o céu. Mas aí não é só governo. É também o lobby do caminhoneiro, do exportador e importador. O caminhão hoje chega a sua casa. O trem não chega. O navio não chega. Essa capilaridade que o caminhão tem precisa ser utilizada. Por que o minério não vai daqui para o Espírito Santo de caminhão? Porque são grandes volumes e grande distância. Se você fizer um centro de distribuição aqui em Itabira, e desse centro levar as cargas para outras regiões de caminhão, ótimo. Não teria essa BR que vai até Vitória congestionada, que é um caos para o Brasil inteiro.
O governo está no caminho certo ao fazer as concessões de rodovias?
Acho que sim, porque a privatização no mundo inteiro deu certo. Agora é preciso não só privatizar as rodovias, mas olhar para as ferrovias também. Hoje elas estão aí na mão de poucos. A nossa ferrovia aqui, a Estrada de Ferro Vitória Minas, transporta só minério. Acho que tem de utilizar para outras coisas. Se está estrangulada, com sua capacidade no limite, então tem de construir outra. Tem de ter um equilíbrio entre os modais. O mesmo deve ser feito com as outras ferrovias no Brasil. Se conseguirmos equilibrar o transporte nos diferentes modais vamos encontrar a solução. O Brasil precisa duplicar sua capacidade portuária. Se a gente tivesse crescido como vínhamos antes de 2008, a taxas de 5%, 6% ao ano, estaríamos estrangulados. Na verdade já estamos, porque os portos foram feitos em lugares pequenos. No momento que a gente tiver portos e com as ferrovias interligando as regiões produtoras, não vamos ter problema mais. No Brasil inteiro tem lugar produzindo e tem como distribuir, mas é preciso investimentos que dependem do Governo Federal, das prefeituras, dos governos estaduais e dos empresários.