Ser mãe no Brasil: direitos avançaram, mas a realidade ainda pesa sobre elas

É verdade que houve avanços nos últimos dez anos. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: esses direitos chegaram, de fato, à vida real das mães?

Ser mãe no Brasil: direitos avançaram, mas a realidade ainda pesa sobre elas
Foto: Freepik
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Todo ano, no Dia das Mães, a narrativa se repete. Flores, homenagens e discursos sobre amor incondicional ocupam espaço. O que quase nunca aparece é a outra parte dessa história. Aquela em que ser mãe significa acumular funções, abrir mão de si mesma e, muitas vezes, lutar sozinha por direitos que já deveriam estar garantidos.

É verdade que houve avanços nos últimos dez anos. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: esses direitos chegaram, de fato, à vida real das mães?

Durante muito tempo, e ainda hoje, ser mãe foi associado à ideia amar sem reclamar, de dar conta de tudo. E quando uma mulher consegue sustentar casa, filhos, trabalho e ainda manter tudo funcionando, ela é chamada de guerreira. O problema é que esse elogio carrega um incômodo que poucos enfrentam. Por que ela precise lutar sem parar? Por que ainda é esperado que a mãe suporte mais?

No campo jurídico, mudanças importantes aconteceram. Houve maior reconhecimento da violência psicológica e patrimonial, ampliação do acesso a medidas protetivas, fortalecimento da guarda compartilhada e mecanismos mais rigorosos para cobrança de pensão alimentícia. No papel, é um avanço relevante. Na prática, porém, muitas mães ainda enfrentam dificuldades para receber pensão, continuam assumindo a maior parte da rotina dos filhos, lidam com os impactos das ausências paternas na vida dos filhos e seguem sobrecarregadas emocional e financeiramente. A lei evoluiu, mas o comportamento social ainda resiste.

Existe um ponto que incomoda e precisa ser dito. Muitos pais ainda são elogiados por fazer o mínimo, enquanto tudo o que a mãe faz é tratado como obrigação. A guarda pode até ser compartilhada formalmente, mas, na rotina, quem continua sendo acionada para resolver tudo é ela. Isso não acontece por acaso. É reflexo de uma cultura que ainda distribui responsabilidades de forma desigual.

Se algo realmente mudou, foi o acesso à informação. Hoje, mais mulheres sabem que pensão não é ajuda e sim direito do filho, que sobrecarga não é normal, que ausência também é forma de negligência e que direitos não devem ser negociados emocionalmente. Essa consciência começa a tensionar estruturas que por muito tempo funcionaram sem questionamento.

Mesmo assim, o custo de ser mãe continua alto. A maioria das mulheres ainda ganha menos no mercado de trabalho, têm menos tempo para crescer profissionalmente, acumulam a maior parte da carga mental da família e, em casos de separação, frequentemente precisam recomeçar praticamente sozinhas. O sistema ainda exige mais de quem já entrega muito.

Não basta que existam leis. É necessário que elas sejam efetivamente cumpridas, que a responsabilização paterna deixe de ser opcional, que a exaustão materna pare de ser romantizada e que a ideia de força não sirva para encobrir desequilíbrios. Enquanto isso não acontece, a realidade continua distante do que está garantido no papel.

Sim, houve avanços. Mas celebrar sem questionar também é uma forma de manter tudo como está. Neste Dia das Mães, talvez a homenagem mais honesta não seja exaltar a força das mães, mas reconhecer que elas não deveriam precisar ser tão fortes o tempo todo. Porque quando uma mãe precisa lutar diariamente pelo básico, o problema não é a falta de força. É a falta de equilíbrio.

Sobre a colunista

Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.

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