Fim da escala 6×1 levanta dúvidas sobre preços, salários e empregos
Analistas do mercado de trabalho não acreditam que os supermercados e shoppings possam deixar de funcionar nos finais de semana
O avanço da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que dá fim à escala 6×1, seis dias trabalhados com um de descanso, levanta dúvidas e divergências entre empregadores e até empregados.
As incertezas que mais preocupam dizem respeito ao potencial inflacionário, a possível ameaça à produtividade e o impacto da concessão de uma folga adicional aos setores.
O alerta partiu dos empresários do setor produtivo, como o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Ricardo Alban, após encontro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Na ocasião, ele disse que a população terá que arcar com o prejuízo das empresas.
“A estimativa do setor industrial é que pode aumentar os preços entre 6% e 8%”, afirmou.
Ouvidos pelo UOL, especialistas não descartam o potencial inflacionário da redução das jornadas de trabalho, e avaliam que o repasse pode ocorrer em segmentos específicos.
“Não é correto afirmar que haverá inflação generalizada, uma vez que o efeito depende de produtividade, do comportamento da concorrência, do efeito nas margens e da adaptação das empresas. Pode haver algum risco de aumento do desemprego em setores de margem muito baixas, mas a experiência internacional não confirma essa tese de destruição ampla de empregos”, diz Diogo Carneiro, professor na Fipecafi.
Segundo Carla Beni, professora de macroeconomia da FGV, “não há expectativa que você tenha mudança inflacionária no processo. Isso não é algo linear, que você vai ter que contratar mais e vai aumentar o custo e será repassado para os preços. Não funciona desta maneira na economia”.
Antônio Carlos Santos, presidente do Sescon-SP (Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis), acredita ainda ser prematuro para afirmar que haverá emprego generalizado, “porque os impactos tendem a variar bastante conforme o setor, o porte da empresa e a forma como a transição será conduzida”.
Santos ressalta: “Para novas contratações, o mercado pode buscar formas de acomodar o aumento do custo por hora trabalhada”.
Diogo Carneiro diz que não há indicações que contratações com salários menores ocorra. “As empresas podem tentar ajustar salários de entrada em algumas funções, mas pisos legais, convenções coletivas, salário mínimo e a própria vedação à redução salarial limitam esse movimento”.
Para Beni, da FGV, a decisão sobre como usar o tempo livre cabe apenas ao trabalhador. Beni rebate críticas de parlamentares contra a folga extra. “Se ele (profissional) vai fazer um bico, descansar ou fazer um curso, compete somente a ele, não ao empregador. Não há base para afirmar que haverá uma explosão automática da informalidade”.
Associações, como a Fecomércio, estimam que a adaptação pode gerar custos elevados, mas economistas indicam que não haverá um repasse automático e generalizado para os preços finais.
Analistas do mercado de trabalho não acreditam que os supermercados e shoppings possam deixar de funcionar nos finais de semana, “mas os horários serão ajustados e isso vai ser uma questão natural, porque já aconteceu. Nós temos muitas empresas que já fizeram essas alterações de escala”, explica Beni.
Carneiro estima que o impacto inicial pode ser sentido pelas empresas com a operação de turnos contínuos, e cita um estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que associa jornadas longas a menores ritmos de produção.
“Empresas podem reorganizar turnos, reduzir ociosidade, melhorar processos, contratar pontualmente ou elevar a produtividade por hora”.
*Fonte: UOL/CNN Brasil




