Eleição presidencial: Minas Gerais é o principal atalho para Brasília
Há 76 anos, o paraíso dos Inconfidentes direciona a escolha do mandachuva da nação

Minas Gerais apresenta exponencial importância no sistema político nacional. O processo de escolha do presidente da República começa e termina nas Alterosas. Um aspecto é essencial nesta teoria. O estado é o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo. A quantidade de eleitores atinge a extraordinária marca de 15 milhões. Esta multidão, portanto, tem potencial para indicar o futuro inquilino do Palácio da Alvorada. O contrário também acontece. Minas já provocou algumas impactantes derrotas.
Há 76 anos, o paraíso dos Inconfidentes direciona a escolha do mandachuva da nação. Este fenômeno se consolidou a partir da segunda metade do século XX. E, desde então, quase todos os chefes do Executivo brasileiro contaram com a anuência decisiva dos mineiros. Quase todos? Há honrosa exceção. O populista Getúlio Vargas (PTB) “levou bomba”. O ex-ditador foi deposto em outubro de 1945. Cinco anos depois, decidiu surfar na onda da democracia. Desta forma, optou pela votação direta como único meio legítimo para se retornar ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede do governo federal. O caudilho dos pampas participou do pleito de 1950 e se deu bem. Ganhou em todas as unidades da federação, menos na terra dos desconfiados conterrâneos de Santos Dumont. Como voa esta gente! A mineirada preferiu Cristiano Machado (PSD), um dos seus. E ponto.
A partir daí, Minas se transformou no atalho mais seguro para se chegar ao poder superior da Republica. Todos os “ganhadores” do cargo máximo necessitaram obrigatoriamente do aval dos moradores das montanhas (já nem tanto de ferro). Apesar de todo este glamour, um único mineiro conseguiu se eleger presidente no período 1950 a 2022. Aqui se fala do médico Juscelino Kubitschek de Oliveira (JK), ex-prefeito de Belo Horizonte (1940 a 1945) e governador do estado (de 1951 a 1955). Itamar Franco não conta. Ele era vice e só assumiu a presidência depois da defenestração de Fernando Collor de Mello, o marajá caçador de marajás. Aécio Neves quase subiu a mais simbólica rampa de Brasília. Em 2014, o neto de Tancredo perdeu para Dilma Rousseff (mineira de nascimento, mas politicamente gaúcha) dentro da margem de erro. Foi derrotado por uma diferença mínima de 3,28%. Inclusive, manteve a tradição. Não saiu vitorioso porque não cantou de galo em seu próprio terreiro. Sucumbiu depois de governar Minas por dois mandatos consecutivos. Surpreendentemente, o tucano não sobrevoou a Serra do Curral. Despencou das alturas.
Esta narrativa justifica o obrigatório sonho de consumo dos atuais candidatos a presidente: a conquista de um consistente palanque em Minas Gerais. Ninguém quer perder o trem da história, UAI! Neste cenário, a estratégia é uma carona na locomotiva de certo candidato a governador. Há outra opção para se sugar os votos deste povo matreiro. É simples. Basta emplacar um “caipira” montanhês na inexpressiva vaga de vice. Mas, convenhamos, é muita humilhação. Até quando os seguidores de JK se submeterão ao papel de simples coadjuvantes no panorama político nacional? A ver.
PS: A eleição presidencial de 1950, em Minas Gerais, terminou num empate técnico. Getúlio Vargas ficou na terceira posição. Veja só. Cristiano Machado (PSD): 34,8%; Eduardo Gomes (UDN): 33% e Getúlio Vargas (PTB): 32,2%. Como se vê, este resultado foi um genuíno trem de mineiro.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.




