Vale anuncia descaracterização do Sistema Pontal até 2033 e moradores questionam danos e impactos das obras

As obras envolvem adequação dos sistemas de drenagem, abertura de valas e canais para direcionar a água presente nos rejeitos até a Barragem do Pontal, retirada gradual de parte do material depositado e revegetação das áreas

Vale anuncia descaracterização do Sistema Pontal até 2033 e moradores questionam danos e impactos das obras
Foto: Assessoria de Comunicação – FIP/ATI – Itabira
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A Vale anunciou o início das obras de descaracterização dos diques Minervino e Cordão Nova Vista, no Sistema Pontal, em Itabira, etapa que marca a fase final do Programa de Descaracterização de Estruturas a Montante no município. A previsão é que o dique Minervino tenha as obras concluídas em 2030, enquanto o Cordão Nova Vista deverá ser descaracterizado até 2033. O novo cronograma foi apresentado pela mineradora durante uma reunião realizada na última quinta-feira (18) com moradores dos bairros Bela Vista, Nova Vista, Jardim das Oliveiras e Praia, acompanhados pela Assessoria Técnica Independente da Fundação Israel Pinheiro (ATI/FIP). 

O encontro foi marcado por cobranças e questionamentos sobre os impactos das intervenções na rotina das comunidades. Segundo a Vale, os diques são as duas últimas estruturas do Sistema Pontal que ainda aguardam descaracterização. As obras envolvem adequação dos sistemas de drenagem, abertura de valas e canais para direcionar a água presente nos rejeitos até a Barragem do Pontal, retirada gradual de parte do material depositado e revegetação das áreas. A empresa estima a geração de cerca de 300 empregos diretos e indiretos durante o pico das atividades, com prioridade para mão de obra local.

Durante a reunião, moradores demonstraram preocupação com os efeitos das obras sobre o cotidiano das comunidades, principalmente em relação à drenagem da água subterrânea, possíveis alterações no lençol freático, infiltrações em residências e riscos à estabilidade do solo. “Nós não estamos tendo sossego. Está em um ponto em que não estamos aguentando”, desabafou a moradora Norma Rodrigues, do bairro Bela Vista, ao cobrar maior diálogo da empresa com os atingidos.

Márcia Barbosa, integrante da Comissão de Atingidos do Sistema Pontal, questionou a segurança das intervenções. “Nós crescemos neste bairro e sabemos que havia lagoas, nascentes e muita água debaixo desse terreno. Nossa preocupação é sobre a segurança quando vocês forem drenar essa água.”

Foto: ATI/FIP – Divulgação

Em resposta, representantes da Vale afirmaram que o processo de descaracterização não altera o comportamento do lençol freático e que a água continuará seguindo seu fluxo natural em direção à Barragem do Pontal. Em comunicado divulgado à imprensa, o gerente de Descaracterização e Projetos Geotécnicos da Vale, Gladson Dias, afirmou que a empresa irá adotar medidas para reduzir impactos sobre moradores, trabalhadores e o meio ambiente. Entre as ações, a mineradora destacou o uso de aspersores de água e supressores de poeira nas vias, além do monitoramento contínuo da qualidade do ar, dos níveis de ruído e das vibrações. As atividades serão acompanhadas pelos órgãos competentes e pela auditoria técnica independente do Ministério Público.

Saúde, poeira e prolongamento das obras

Outro tema recorrente foi o impacto das obras sobre a saúde física e mental dos moradores. Os participantes relataram preocupação com o aumento da poeira, dos ruídos, das vibrações e com o prolongamento do período de intervenções. Carlos Estevão, representante do Jardim das Oliveiras e integrante da Comissão de Atingidos, questionou se existe monitoramento específico sobre a saúde mental da população afetada e solicitou que os dados sejam apresentados oficialmente.

Moradora do Bela Vista há mais de três décadas, Irani Alves resumiu a insatisfação de parte dos participantes. “Vocês deveriam pensar um pouco na gente. E nós? Vamos ficar dentro de um canteiro de obras?”. Como resposta, a mineradora afirmou que realiza monitoramentos ambientais periódicos, auditados pela empresa independente AECOM, e informou que responderá formalmente às demandas encaminhadas pela comunidade.

A destinação dos rejeitos retirados durante a descaracterização também gerou dúvidas. Inicialmente, a empresa informou que o material seria redistribuído na própria área da barragem, mas revelou que existe um projeto de remineração em análise, ainda sem licença ambiental. A possibilidade de transporte desse material para outras áreas despertou preocupação entre os moradores quanto ao aumento do fluxo de caminhões e de outros impactos operacionais. Também foram relatados problemas relacionados ao esgotamento sanitário, mau cheiro, proliferação de animais peçonhentos e dificuldades para permanecer nas residências durante as obras.

Outro ponto levantado foi a ausência de previsão para remoção de famílias. Moradores defenderam que a empresa apresente um plano para aqueles que desejam deixar a região devido aos impactos provocados pelas intervenções.

Programa entra na fase final

Com o início das obras nos diques Minervino e Cordão Nova Vista, a Vale informa que oito das dez estruturas previstas no Programa de Descaracterização em Itabira já tiveram as intervenções concluídas. Para viabilizar a etapa final, a empresa destaca que concluiu anteriormente a Estrutura de Contenção a Jusante (ECJ2), em setembro de 2025, além das obras de reforço do dique Minervino, finalizadas em dezembro do mesmo ano.

Em âmbito nacional, a mineradora afirma já ter concluído a descaracterização de 19 das 30 estruturas previstas em seu programa, sendo 16 em Minas Gerais e três no Pará, com investimentos que somam R$ 13,3 bilhões desde 2019.