Futebol, cerveja e apostas: por que as mulheres continuam pagando essa conta?

Uma partida para muitos é entretenimento, mas para milhares de mulheres a realidade é diferente: sobrecarga doméstica ampliada, insegurança financeira e episódios de violência dentro de casa

Futebol, cerveja e apostas: por que as mulheres continuam pagando essa conta?
Foto: Fernando Torres/CBF
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Todo fim de semana, durante o Campeonato Brasileiro, o país para diante da tela. Bares lotam, famílias se reúnem, cervejas são abertas e a paixão pelo futebol domina o cenário. Mas há um lado dessa paixão nacional que raramente ganha espaço nas transmissões esportivas. Enquanto muitos vivem a partida como puro entretenimento, milhares de mulheres enfrentam uma realidade bem diferente: sobrecarga doméstica ampliada, insegurança financeira e, em alguns casos, episódios de violência dentro de casa.

O problema nunca foi o futebol em si, mas o comportamento que, para muitos, parece vir embutido no mesmo pacote. Diversos estudos apontam que os índices de violência doméstica sobem em dias de jogos, impulsionados pelo consumo excessivo de álcool. Derrotas, provocações entre torcidas e frustrações acumuladas funcionam como gatilho para agressões verbais, ameaças e violência física. O jogo, por si só, não cria um agressor; ele apenas impulsiona a conduta de quem já normalizou descarregar sua raiva sobre a mulher e os filhos.

Existe, um outro lado pouco debatido. Enquanto os torcedores assistem à partida, muitas mulheres continuam trabalhando dobrado: preparam o churrasco, organizam a casa, servem os convidados, cuidam das crianças e limpam a bagunça após o apito final. O que para alguns é lazer, para mulheres representa mais uma jornada exaustiva e silenciosa.

Como se não bastasse, o cenário recente foi tomado por uma febre bilionária: as apostas esportivas. As chamadas bets venderam a ilusão do dinheiro fácil, mas a realidade tem sido devastadora para a economia doméstica. Cada vez mais famílias convivem com salários comprometidos, dívidas ocultas, contas atrasadas e um clima permanente de tensão sobre a instabilidade financeira.

Não são raros os casos em que o dinheiro destinado à alimentação, ao aluguel ou à pensão dos filhos evapora na tentativa de recuperar perdas anteriores. E quem assume a responsabilidade de recolher os cacos e reorganizar o orçamento?

Novamente, a mulher. É ela quem faz malabarismos quando o dinheiro falta, quem explica aos filhos por que os planos precisarão ser adiados e quem absorve o desgaste emocional gerado por essa bola de neve financeira.

Falar sobre futebol, portanto, exige falar sobre responsabilidade. Nenhuma paixão justifica a violência; nenhum campeonato valida a sobrecarga feminina; nenhuma aposta vale mais do que a paz e a segurança de uma família.

Talvez tenha chegado a hora de ampliarmos esse debate. Afinal, para muitas mulheres, o problema nunca foi o esporte. O problema é que, quando o juiz encerra a partida, elas continuam sozinhas: limpando a bagunça, pagando as contas e tentando reconstruir a estabilidade que outros decidiram colocar em jogo.

Sobre a colunista

Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

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