A Aids continua entre nós

Pesquisadora defende que a educação é principal caminho para combater disseminação da doença

A Aids continua entre nós

Natural de Governador Valadares e apaixonada por Itabira, para onde se mudou aos cinco anos, a pesquisadora Ana Lúcia Nascimento não é da área da saúde, mas conhece como poucos a realidade de uma doença que ainda assola o Brasil: a AIDS. Professora de História e pós-graduada em Terceiro Setor, Gestão Cooperativa e Psicanálise, Ana Lúcia teve os primeiros contatos com o drama da doença há 18 anos. Foi quando percebeu que a educação é fundamental na prevenção e iniciou sua missão.

Como profissional da área, resolveu rodar o Brasil para adquirir experiência. Hoje seus projetos são reconhecidos por instituições de renome, incluindo o Ministério da Saúde.

A cura da doença ainda não foi descoberta, mas a população anda descuidada quanto à prevenção, segundo Ana Lúcia. Lamentavelmente, as campanhas são enfatizadas apenas na época de Carnaval e em datas comemorativas. Enquanto isso, os números continuam preocupantes: cerca de 660 mil casos registrados no país desde a epidemia, em 1985.

Na entrevista a seguir, Ana Lúcia fala de sua trajetória e reforça a importância da educação na prevenção, numa aliança entre família e escola. Depois de coordenar diversos trabalhos Brasil afora, a educadora está de volta a Minas Gerais. “A menina dos meus olhos está aqui no interior. É onde tudo começou”, diz.

Você afirma ser uma apaixonada pela educação. Quando descobriu essa paixão?

Nasci em Governador Valadares e mudei para Itabira aos cinco anos de idade. Itabira é minha cidade do coração. Nasci de novo aqui. Aos 16 anos fui para Vitória, no Espírito Santo. Mas foi em Itabira que comecei a trabalhar com projetos. Sou professora de História e fiz pós-graduação na área de Terceiro Setor, Gestão de Cooperativa e Psicanálise. Criei o projeto Empresa Escola, da Itaurb, que alfabetizava os garis na rua, em 1992. Meu objetivo era alfabetizar as pessoas dentro das empresas, mas com uma metodologia construtivista, retirando do que eles fazem na própria empresa para aprender. Foi na época em que se estava implantando a coleta seletiva em Itabira. Os garis nunca tinham entrado num teatro ou cinema, e criamos uma peça teatral, quando toda a sociedade foi aplaudi-los na Fundação Cultural com a peça o Fruto do Querer. O elenco foi 100% garis da Itaurb. Sempre fui muito apaixonada pela educação. Alfabetização para mim sempre foi a menina dos olhos. Na Itaurb, trabalhei com contrato, vendi meu projeto para eles. Daí montei minha clínica, meu grande sonho, com uma equipe multidisciplinar. Meu segundo desafio era alfabetizar crianças com Síndrome de Down. A clínica se chamava Alfabeto e eu comecei com criança com Síndrome de Down, mas a coisa cresceu. Começou a receber crianças com paralisa e outros problemas. Com a ajuda de outros profissionais, eu era diretora da empresa e ficava especificamente com a parte de alfabetização das crianças.

Os resultados foram aparecendo e geraram inquietação em alguns profissionais de outras áreas. A Alfabeto recebeu título da Apae de Santo Amaro, em São Paulo, pelo trabalho desenvolvido aqui. Volto a falar: amo educação! A minha primeira formação é em educação e quero morrer educadora.

Como começou o seu trabalho de luta contra a AIDS?

Foi nesse processo que comecei a detectar dificuldades dentro das famílias com doenças, entre elas, a AIDS. Na época tinha aqui a Associação Itabirana de Prevenção à AIDS. Então decidimos fazer alguma coisa na área da prevenção, porque acredito na medicina preventiva. Começamos a fazer capacitação de multiplicadores das informações e levar para as escolas. Nessa época, em 1995, Itabira mereceu destaque nesse trabalho. Fui relatar experiências de Itabira em Palmas, no Tocantins; em Friburgo, no Rio de Janeiro; e em Florianópolis, Santa Catarina. Também estive em Belo Horizonte, sempre em seminários e congressos. Nessas andanças, comecei a escrever sobre o que eu via, porque era muita informação. Em 1997, a revista DeFato fez a minha primeira entrevista e coroou o meu trabalho. Tenho a revista guardada nos meus arquivos. Quando lancei a minha primeira obra: “HIV e AIDS, o que é isso gente”, em Guanhães, a DeFato cobriu. A primeira edição foi totalmente Ana Lúcia Nascimento. Desfiz de um carro para lançar o meu livro. Sou muito crédula, acredito nas coisas que entendo que precisam ser feitas e vou até o final. A partir de então, não quis parar mais. Fui para uma tribo de índio, onde sabia que tinha a doença, no Tocantins. Na época, em 2001, fiz uma literatura de cordel sobre DST e presenteei aos índios. Fui convidada pela coordenação estadual de DST/AIDS do Espírito Santo para levar meu trabalho para lá. Fui de mudança para aquele estado coordenar o programa, com apoio do Ministério da Saúde, que reconheceu minha cartilha. Haja emoção! Vi muitas pessoas partirem. Naquela época, não existia nem medicamentos para AIDS. Hoje não existe cura para a AIDS, mas existe tratamento. Infelizmente isso tem feito muitas pessoas banalizarem os métodos de prevenção, mas a doença está aí. As pesquisas nos apontam que não está tão bento assim. Fui para Vitória e desenvolvi esse trabalho com as escolas. Meu trabalho sempre foi educativo.

É uma missão?

Entendi como missão mesmo. Acho que Deus me criou para isso. As pessoas sempre me perguntavam: “Você tem alguém na sua família com AIDS? Você tem AIDS?”. Não, não tenho!  Entendo que é algo divino mesmo, de Deus. Comecei então a desenvolver um trabalho com linguagem para crianças. Estou dizendo que a Bíblia para mim é o livro mais lido em todo o mundo, e na Bíblia está escrito que você deve ensinar a criança no caminho que ela deve andar, e quando ela crescer, não vai se desviar dele. Pautado nesse ensinamento é que surgiu o “Conversando sobre AIDS com Crianças”, que é meu último trabalho. Foi lançando no dia 1º de dezembro do ano passado, o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, em Vitória. É uma ferramenta importante para a família, não apenas para a criança.

Porque campanhas de AIDS hoje em dia são visíveis apenas no Carnaval?

É essa a minha grande denúncia. Lamentavelmente a gente só ouve falar de AIDS no Carnaval ou no dia 1º de dezembro. A doença está aí todo o dia, toda a hora. Confesso que sou muito criticada por primar pelo trabalho de prevenção. Em 1985, quando surgiu e epidemia, tínhamos para cada 20 homens infectados, uma mulher. Hoje, para cada três homens temos uma mulher. De acordo com a coordenação nacional de DST/AIDS, do Ministério da Saúde, desde o início da epidemia até junho de 2012, o Brasil registrou 656.701 casos de AIDS. Veja bem: quando falo de casos de AIDS, são pessoas que já manifestaram a doença. É diferente do soropositivo. Antigamente falava-se em grupo de riscos, mas hoje não existem mais esses grupos; existem comportamentos de risco. E o pior deles é o não uso de preservativos. A AIDS está mais presente entre pessoas de 25 a 49 anos, mas chama atenção a quantidade de pessoas infectadas pela doença entre 13 e 19 anos. Essa é a única faixa etária em que o número de AIDS é maior entre as mulheres. Outro dado preocupante é que 135 mil pessoas estão infectadas pelo vírus no Brasil e não sabem. Para cada pessoa com diagnóstico positivo, 20 não sabem que são portadoras da doença. É uma epidemia. Atualmente, 97% dos brasileiros sabem que usar camisinha é a melhor maneira de prevenção, mas 37 mil pessoas se descobrem com a doença todos os anos. Ou seja, o pior da AIDS é saber que você não tem a doença.

Na região de Itabira, como está a situação?

A microrregião de Itabira atende Barão de Cocais, Santa Bárbara, Santa Maria de Itabira, São Gonçalo do Rio Abaixo, Bom Jesus do Amparo e Ferros. Hoje são 420 pacientes, sendo que 356 já manifestaram a doença e usam medicamentos. 68 têm o vírus. Não se fala de DST e AIDS sem falar de sexualidade, de mudança de comportamento, sem falar de responsabilidade. Assusta-me meninas de 13 e 14 anos com o primeiro filho. A questão não é distribuir camisinha; é levar a camisinha com informação. Essa criança está preparada para desenvolver a prática sexual com 14 anos? Como ela está emocionalmente? E o corpo? Essa é minha angústia. Não dá para trabalhar AIDS sem trabalhar comportamento e sexualidade.

Como anda a discussão nas escolas? Parece que a informação é precária dentro do ambiente escolar?

Você está certíssimo. A questão da sexualidade é tratada de forma velada. Primeiro porque as pessoas ainda acreditam que sexo é pecado (ou acreditavam). Sou da década de 1960, de uma família que não me falou sobre sexualidade. Não culpo a minha mãe por isso. Só que naquela época existia ainda respeito, limites. A mídia hoje, principalmente televisiva, erotiza o tempo inteiro, mas não informa. Ela vende erotização o tempo inteiro. O professor tem dificuldades em abordar esse tema na escola, mas o menino pode saber sobre sexo na internet, no Google. Em outro estado que atuei, estávamos trabalhando um poema que fala de um erotismo para abordar sexualidade. Era uma escola de alunos de classe média alta. Uma mãe foi lá e falou: “Que negócio é esse que vocês estão ensinando sexo para o meu filho?”

Depois de tantas experiências pelo Brasil, está de volta?

Pretendo voltar às minhas raízes. Estou recomeçando em todos os aspectos, inclusive pensando em me casar de novo. Estou voltando para Minas, para Belo Horizonte, mas a menina dos meus olhos está aqui, no interior. É onde tudo começou. Itabira hoje tem caminhado. Quero parabenizar a Coordenação Municipal de DST/AIDS, sob coordenação das doutoras Janaina Ávila e Júnia Pessoa. O centro de referência de DST funciona muito bem para quem realmente quer esse tratamento. Hoje temos a policlínica e todos os PSFs, que fazem teste de AIDS sigilosamente. É gratuito. O Brasil é o único país do mundo que distribui o medicamento gratuitamente para quem tem AIDS. Esse é o meu convite: que as pessoas se conscientizem. A educação vem para isso.

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