ENTREVISTA – “O teatro tem magia e calor humano”: Jonas Bloch apresenta o espetáculo “Delírio” em Itabira
Ator apresenta nesta sexta-feira monólogo inspirado na obra de Manoel de Barros e fala sobre poesia, teatro, artes visuais e a experiência de transformar literatura em personagem

A relação de Jonas Bloch com o teatro atravessa mais de seis décadas de carreira. Nesta sexta-feira (14), às 20h, essa trajetória chega a Itabira com “Delírio”, monólogo inspirado na obra do poeta e escritor Manoel de Barros que será apresentado no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), dentro da programação dos 25 anos do Festival Teatro em Movimento.
A escolha da cidade cria uma conexão especial com a montagem. Itabira é a terra natal de Carlos Drummond de Andrade, poeta que também dedicou parte de sua obra a observar o cotidiano, a linguagem e as pequenas coisas da existência. Para Bloch, apresentar um espetáculo inspirado em Manoel de Barros justamente nesse cenário torna a experiência ainda mais significativa.
“É claro que estar em Itabira, de Carlos Drummond de Andrade, levando o Manoel de Barros, é muito emocionante”, afirma o ator. Para ele, a aproximação entre os dois escritores passa pela sensibilidade com que ambos enxergaram a vida. “Os dois mostram, em alguns momentos, uma identidade muito grande grande com o lado mais sensível da vida, o lado mais delicado da vida”, observa.
Manoel de Barros além da poesia
Embora seja apresentado como um espetáculo inspirado na obra poética de Manoel de Barros, “Delírio” não foi concebido por Jonas Bloch como uma simples apresentação de poemas. O ator prefere enxergar os textos como histórias que podem ganhar corpo e personalidade no palco.
“No caso de Manuel de Barros, o que ele escreve não é o que as pessoas imaginam que seja normalmente uma poesia. Palavras rimadas, todo um universo de lirismo. Ele conta mais histórias, de uma maneira poética, é claro, e com muito humor por trás de tudo”, explica.
Essa característica foi determinante para a maneira como Jonas Bloch decidiu levar a obra à cena. Em vez de declamar os textos, ele os interpreta. “O que eu faço são histórias que ele conta, e eu faço de uma maneira muito especial, porque não é uma declamação, eu faço como personagem”, afirma. Segundo o ator, os próprios textos sugerem diferentes figuras e situações, que ele transforma a partir de sua visão artística.
A montagem nasceu de uma admiração pessoal pela literatura de Manoel de Barros. O que mais chamou a atenção de Bloch foi a capacidade do poeta de propor uma maneira diferente de enxergar aquilo que está ao redor. “O que me fascinou no Manuel de Barros é o seu olhar sobre o mundo, as coisas que ele sugere para as pessoas, de ver o mundo de uma maneira menos pragmática, menos interesseira, fora dessa visão econômica das coisas”, conta.
Para o ator, esse olhar ganha ainda mais importância diante do cotidiano contemporâneo. “Ele nos mostra um outro olhar, que eu acho que é isso que a gente precisa para fugir desse esquema de guerras, fake news, corrupção, mentiras”, afirma. Na visão de Bloch, a obra oferece uma perspectiva “mais humana, mais solidária e mais simples de ver as coisas”.

Uma montagem de diferentes olhares
A seleção dos textos para “Delírio” também procurou preservar essa diversidade. Bloch buscou reunir diferentes aspectos do universo de Manoel de Barros, construindo um espetáculo que não se limita a uma única tonalidade. “Eu tentei pegar um pouco de cada olhar dele sobre o mundo”, explica. Assim, cada cena apresenta uma perspectiva diferente sobre a vida, o pensamento e a relação do poeta com aquilo que o cercava.
Há momentos de humor, passagens mais líricas, referências ao Pantanal e situações que exploram a imaginação. O ator também destaca a presença de uma cena de caráter surrealista, em que a realidade é deslocada para um território mais fantástico.
As memórias de Manoel de Barros e sua experiência no interior de Mato Grosso do Sul são fundamentais nessa construção. Para Bloch, o universo apresentado pelo poeta revela uma forma de relação com a natureza e com a vida cotidiana muito diferente daquela experimentada nos grandes centros urbanos.
“As descrições de Manuel de Barros sobre a vida dele no interior, sobre a vida dele em Mato Grosso do Sul e a vida dele com a sua família, traz um olhar sobre esse universo que ele viveu tão interessante e tão fora do que nós da grande cidade, ou mesmo da média cidade, estamos acostumados”, explica.
Um encontro entre Manoel e Drummond
A apresentação em Itabira ganha ainda outro significado pela relação entre os dois poetas. Carlos Drummond de Andrade chegou a definir Manoel de Barros como “o maior poeta vivo”, estabelecendo uma ponte que agora ganha uma dimensão cênica na cidade onde Drummond nasceu.
Para Bloch, essa circunstância torna a apresentação especialmente emocionante. “Estar na terra de Drummond, levando o Manoel de Barros, numa comemoração de um trabalho que tem levado vários espetáculos à Itabira. Enfim, tudo colabora para ser um momento muito especial e muito gratificante para todos”, afirma.
O ator também acredita que a familiaridade dos itabiranos com a obra de Drummond pode favorecer o encontro com a linguagem de Manoel de Barros. “A minha esperança é que as pessoas que, sendo da terra de Carlos Drummond de Andrade, já tenham entrado em contato com a poesia dele, estejam muito mais preparados para um espetáculo de Manoel de Barros”, diz.
A apresentação também faz parte das comemorações dos 25 anos do Festival Teatro em Movimento. Para Bloch, participar dessa trajetória e chegar a Itabira nesse contexto acrescenta outro significado ao espetáculo.
“É muito interessante porque os dois mostram, em alguns momentos, uma identidade muito grande grande, com o lado mais sensível da vida, o lado mais delicado da vida. Então é muito bonito fazer isso e levar isso para as pessoas”, reforça.
Poesia também está no cenário
A experiência de “Delírio” não se limita ao texto e à interpretação. Jonas Bloch também participou da criação do cenário, uma escolha diretamente relacionada à sua formação em belas artes. “Além de teatro, eu sou formado em belas artes, em artes plásticas. Não tenho tido muito tempo para desenvolver esse lado da minha carreira, mas para mim é sempre atrativo fazer um trabalho em cima”, conta.
A cenografia foi inspirada no trabalho de Arthur Bispo do Rosário e construída a partir de objetos e texturas que remetem ao universo de Manoel de Barros e ao Mato Grosso do Sul.
“Então, você vai encontrar ali o berrante, a bota, a sandália, a tiradeira, o bodoque. Vai encontrar um monte de referências, o cavalo, um monte de referências, a textura da época, as cabaças, todas ligadas a esse universo e sempre com uma cor de terra predominando”, descreve.
A proposta, portanto, aproxima literatura e artes visuais. Os objetos não aparecem apenas como elementos decorativos, mas ajudam a criar o ambiente no qual as histórias do poeta são interpretadas.
O que o palco ainda proporciona
Depois de tantos trabalhos no teatro, no cinema e na televisão, Jonas Bloch continua vendo no palco uma experiência que não encontra da mesma maneira nas telas. Para ele, a principal diferença está na presença física e na troca estabelecida entre ator e plateia.
“O teatro tem a magia, o teatro tem o calor humano, as pessoas todas reunidas, há uma energia que passa do palco para a plateia e da plateia para o palco”, afirma.
Essa relação direta também faz com que cada apresentação de “Delírio” seja diferente. Mesmo depois de tantas sessões, o ator não considera que a montagem tenha se tornado repetitiva. “Cada apresentação é diferente da outra. A cada dia a gente descobre um significado maior numa frase, uma emoção maior noutra”, explica.
A reação do público também interfere nessa experiência. Para Bloch, existe uma troca permanente entre quem está no palco e quem está na plateia, capaz de renovar o espetáculo a cada apresentação. “Nunca é uma coisa monótona. Então há sempre uma troca entre público e plateia e é uma evolução natural do espetáculo que ele não se torna uma coisa monótona”, afirma.
Mais do que entretenimento, o ator acredita que o teatro pode provocar pequenas mudanças na maneira como as pessoas enxergam o mundo. “Cada dia tem um prazer novo de fazer prazer e o prazer principalmente de transmitir para uma plateia alguma coisa que pode melhorar a vida delas, que pode alterar o mundo, mesmo que seja de maneira muito pequena”, diz.
O que Jonas Bloch espera deixar em Itabira
Para quem estiver no Teatro da FCCDA nesta sexta-feira, Bloch não estabelece uma única interpretação para aquilo que gostaria que permanecesse depois do espetáculo. Ele espera que “Delírio” possa proporcionar diversão, tranquilidade e, principalmente, abertura para outras formas de pensar.
“Eu acho que é um pouco de tudo isso”, responde, ao falar sobre a possibilidade de o público sair da apresentação com uma reflexão sobre poesia e uma nova maneira de observar as pequenas coisas.
A intenção é oferecer uma experiência que funcione também como uma pausa diante da rotina. “O que a gente espera é que o público se divirta, tenha um momento de paz entre se o seu dia a dia não foi muito bom e que ele abra sua cabeça para outras possibilidades que ele ainda não tenha enxergado”, afirma.
Bloch define ainda a apresentação como uma espécie de encontro afetivo entre artista e público. “Que o público sinta que essa reunião é uma reunião amorosa, que é um artista querendo se comunicar com ele, querendo oferecer o que ele encontrou de mais bonito nesse momento para oferecer”, diz.
E, se a obra de Manoel de Barros o conquistou justamente por oferecer uma maneira diferente de olhar para o mundo, é essa possibilidade que o ator pretende compartilhar em Itabira.
“Que, de alguma maneira, isso transforme a sua vida, seja menos dura, que abra a cabeça para pensar de uma maneira mais ampla”, conclui.
Serviço
Espetáculo: “Delírio”, com Jonas Bloch
Data: sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Horário: 20h
Local: Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), em Itabira
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
Patrocínio: Vale
Apoio: Prefeitura de Itabira e Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade