As incríveis eleições para governador das Minas Gerais

Os votantes de Minas Gerais mudam de ideia como trocam de roupas

As incríveis eleições para governador das Minas Gerais
O velho e elegante Palácio da Liberdade sempre foi o sonho de consumo dos grandes políticos das Minas Gerais- Foto: Arquivo/Galeria/ Palácio da Liberdade/Poly Arcebi
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Os processos eleitorais de Minas Gerais têm muito de caipirismo.  O sujeito mineiro historicamente funciona no modo desconfiômetro.  Esta percepção remete a um misto de sabedoria com suposta ingenuidade em forma de dissimulação. É difícil decifrar a enigmática cabeça do homem público das Gerais. Sempre foi assim. A marcante característica se transfere de pais para filhos desde 1789.  Nesta região- de altaneiras montanhas- método e conspiração se confundem. Assim, inconfidências são os mais saborosos pratos das Alterosas.  Os sussurros das negociações pragmáticas, porém, costumam causar ruídos de elevados decibéis.

Uma das disputas mais emblemáticas aconteceu em 1982.  O velho e charmoso Palácio da Liberdade foi o alvo maior do desafio institucional.  Aqui se fala da primeira eleição direta para governador depois do golpe de 1º de abril de 1964.  O oposicionista Tancredo Neves (PMDB) e o governista Eliseu Rezende (PDS) foram os protagonistas do arranca-rabo.   No final das contas, a raposa de São João del- Rei levou a melhor. Tancredo saiu vitorioso nos grandes centros urbanos.  Eliseu, por sua vez, alcançou expressiva votação nos chamados “grotões”.  O resultado final revelou um cenário bastante equilibrado. Veja bem.  O candidato do PMDB computou 51,3% dos votos enquanto o líder do PDS conquistou 46.47%. Realmente, foi pau a pau. O representante do regime militar se deu bem na maioria dos municípios, mas naufragou no cômputo geral.

Algumas outras contendas posteriores não foram tão diferentes. No pleito de 1994, por exemplo, a refrega foi entre Eduardo Azeredo (PSDB) e Hélio Costa (PP). A coisa começou como “favas contadas”. Os principais institutos de opinião projetavam homérica surra de Costa em Azeredo. O jornalista da Globo, no entanto, deixou de faturar no primeiro turno por um tiquinho de votos (ou 1,7%). Observem a expressiva diferença na etapa inicial. Costa: 48,3% e Azeredo: 27,2%.   Na hora de beber água, a onça mudou de rio e Hélio Costa deu literalmente com os burros n`água.   Por incrível que pareça, Eduardo Azeredo se superou e ganhou uma eleição praticamente perdida.

Em Minas Gerais, como se vê, o peru eleitoral não morre na véspera. A última eleição para prefeito da capital- em 2024- comprova esta tese. No início do embate, Mauro Tramonte (Republicanos) se apresentava “imbatível” em todos os cenários e demoliria qualquer adversário já no primeiro turno. Mas, não foi bem assim.  O apresentador da Record Minas se afogou na Lagoa da Pampulha. O então prefeito Fuad Noman se reelegeu, depois de ocupar o papel de “carta fora do baralho” em quase toda a trajetória da maratona. Noman chegou a ser apontado como o azarão da temporada de caça aos votos.

E agora, José? A festa de 2026 está apenas começando e promete “poucas emoções”. A corrida pelo Palácio Tiradentes- principal prédio da Cidade Administrativa- sinaliza céu de brigadeiro para o senador Cleitinho Azevedo, o recordista dos “vaivéns”. As pesquisas eleitorais preveem disputa acirrada apenas pelo segundo lugar. O sonho de consumo dos concorrentes coadjuvantes é encarar o pole position num “improvável” turno derradeiro, à primeira vista.  Cleitinho detona em todas as simulações contra qualquer “atrevido”.  Mas tem um aspecto muito perigoso  neste “maravilhoso conto de fadas”.  Até que ponto a instabilidade emocional do parlamentar tem potencial para afetar a sua performance nas urnas?   O conterrâneo de Adélia Prado pode se tornar refém de dilema fundamental:  ganha-se no primeiro turno ou corre sério risco de  desmilinguir-se no momento do pega pra capar.

Divinópolis está próxima de Barbacena? Pergunte para Hélio Costa.  Resta a dúvida.   Apesar de sucessivos cavalos de pau, o divinopolitano pode se considerar previamente eleito? Não sei. É cedo para conjeturas. Mesmo porque, os votantes de Minas Gerais mudam de ideia como trocam de roupas. Para Cleitinho, o melhor seria despachar definitivamente a encomenda em 4 de outubro. Não se esqueça. Há oito anos, os favoritos Antônio Anastasia e Fernando Pimentel vacilaram na entrada do túnel. Consequência da fatídica  negligência. O “desconhecidíssimo” Romeu Zema engoliu ambos.   Nas eleições de Minas Gerais há um mar de imprevisibilidades.

PS: O sistemático eleitor mineiro, às vezes, se torna assistemático. Na última eleição para governador, o ex- “desconhecidíssimo” Romeu Zema liquidou a fatura no primeiro turno e foi reeleito. Faz parte. Na política (ou em tudo), Minas é banhada por um mar de imprevisibilidade. Deve ser influência do barroco.

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