Existe uma expressão que parece inofensiva, mas carrega um peso silencioso: “ex-mulher”

Uma mulher não deixa de ser mulher porque se divorciou. Ela não perde identidade, valor ou dignidade ao encerrar um relacionamento

Existe uma expressão que parece inofensiva, mas carrega um peso silencioso: “ex-mulher”
Foto: Reprodução

Quando um casamento termina, é comum ouvir que o homem tem uma “ex-esposa”. Mas, na prática social, o termo “ex-mulher” acaba sendo usado como se aquela mulher tivesse deixado de ser algo maior do que um vínculo conjugal. E isso precisa ser questionado.

Uma mulher não deixa de ser mulher porque se divorciou. Ela não perde identidade, valor ou dignidade ao encerrar um relacionamento. O que termina é o casamento, não quem ela é.

Mas a forma como a linguagem é usada revela muito. Existe, ainda, uma tendência de reduzir a mulher ao papel que ela ocupava dentro da relação. Como se sua existência estivesse vinculada àquele casamento. Como se, ao sair dele, algo nela tivesse diminuído.

Se existe um “ex”, ele se refere ao vínculo jurídico e afetivo que deixou de existir. Ex-marido, ex-esposa, ex-casal. Nunca à essência de alguém.

O problema é que, muitas vezes, essa ideia não fica apenas na palavra. Ela se transforma em julgamento. A mulher divorciada ainda é vista, em muitos contextos, como alguém que “não deu certo”, como se carregasse uma falha. Enquanto isso, o homem separado raramente recebe o mesmo peso.

Essa diferença não é casual. É reflexo de uma cultura que, por muito tempo, definiu o valor da mulher a partir do seu estado civil. Mas essa lógica não se sustenta mais.

Uma mulher divorciada não é menos mulher. Não é menos capaz. Não é menos digna de respeito. Em muitos casos, é exatamente o contrário. É alguém que teve coragem de encerrar um ciclo que já não fazia sentido, de sair de um lugar que não a respeitava, de recomeçar. E recomeçar exige força, clareza e posicionamento.

Reduzir uma mulher à condição de “ex” é ignorar tudo o que ela é além daquele relacionamento. É desconsiderar sua história, sua autonomia, suas escolhas.

Relacionamentos podem acabar. Pessoas não deixam de ser quem são por causa disso. Uma separação não apaga identidade. Não redefine essência. Não diminui ninguém.

Se alguma coisa muda, é a forma como aquela mulher passa a se enxergar e a se posicionar no mundo.

E talvez seja exatamente aí que mora a verdadeira transformação, porque uma mulher que entende que não é definida por um relacionamento nunca mais aceita ser reduzida por ele.

Sobre a colunista

Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.

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