TDAH não é moda: quem são as crianças dos anos 80 que hoje buscam respostas e ressignificação após o diagnóstico?
Crianças dos anos 80 e 90 que ouviam que eram inteligentes, mas “não se esforçavam”, cresceram carregando rótulos que viraram cicatrizes
São elas que sentavam no fundo da sala olhando pela janela, sonhando acordadas. As chamadas equivocadamente de “cabeças de vento”, as “distraídas”, as “que podiam ser alguém se quisessem”. Crianças dos anos 80 e 90 que ouviam que eram inteligentes, mas “não se esforçavam”; que perdiam o caderno, o lápis, o recado e a paciência dos adultos; que eram falantes demais ou quietas demais. Cresceram carregando rótulos que viraram cicatrizes: preguiça, desinteresse, falta de educação. Décadas depois, essas crianças adultas encontram uma palavra que explica uma vida inteira: TDAH. E choram de alívio quando, enfim, o quebra-cabeça se encaixa.
O Outubro Laranja marca o mês internacional de conscientização do TDAH, transtorno do neurodesenvolvimento que atinge cerca de 5% das crianças e de 2,5% a 4% dos adultos no mundo. O aumento de diagnósticos na vida adulta — especialmente entre mulheres — não é moda: é a ciência avançando e estereótipos caindo, já que o quadro “clássico” sempre foi o do menino agitado, enquanto as meninas distraídas e sonhadoras passavam despercebidas. No Brasil, esse reconhecimento tem respaldo jurídico: quando comprovado o impedimento de longo prazo, a pessoa com TDAH está amparada pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015), com direito a adaptações pedagógicas e avaliações diferenciadas na escola (Lei 14.254/2021), a tempo adicional na realização de provas do Enem e de concursos públicos (Lei 14.176/2021), também tem direito ao Plano de Ensino Individualizado, Estudo de Caso sob direcionamento do MEC. Diagnosticar não é privilégio — é a porta de entrada para o acesso a direitos.
O prejuízo de não receber esse diagnóstico na infância é silencioso e profundo: a criança não tratada cresce acreditando que o problema é ela, e o adulto que se descobre tarde precisa primeiro reconstruir a autoestima que anos de cobrança desmontaram — quadros de ansiedade, depressão e esgotamento que, tantas vezes, poderiam ter sido evitados. Por isso, conhecer-se não é exagero nem moda: é cuidado, é saúde, é justiça. Eu, Amanda Teixeira, mulher neurodivergente, diagnosticada com TDAH tardiamente, ressignifiquei muitas coisas em minha vida após o diagnóstico. Não tenha medo de se conhecer, de se reconhecer e de entender suas potencializações e limitações.
Sobre a colunista
Amanda Teixeira é advogada e psicanalista, referência nacional em Educação Inclusiva Inclusão e Neurodiversidade.
Atua de forma especializada no Direito dos Neurodivergentes, Direito à Saúde e Educação Inclusiva, com destacada atuação jurídica, acadêmica e institucional na defesa dos direitos fundamentais e da dignidade humana.
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