Mineradoras se unem em associação enquanto moradores de Barão de Cocais seguem cobrando soluções para problemas

Poeira, barulho durante a madrugada, rachaduras nas casas e insegurança nas estradas fazem parte da rotina relatada pela comunidade, que cobra atenção das empresas; seis mineradoras anunciaram a criação de uma associação para representar o setor

Mineradoras se unem em associação enquanto moradores de Barão de Cocais seguem cobrando soluções para problemas
Foto: DeFato Online

Enquanto empresas de mineração se articulam para ampliar sua atuação por meio da Associação das Mineradoras de Barão de Cocais (AMBS), moradores da comunidade do Castro afirmam que ainda enfrentam problemas cotidianos relacionados à atividade minerária e à circulação de minério na região. A poeira que invade as casas, o barulho de máquinas e caminhões, as rachaduras nas paredes e a insegurança nas estradas estão entre as principais reclamações de quem vive próximo ao Centro de Distribuição de Barão (CDB), do Grupo Avante.

De um lado, as empresas de mineração MR, GSM (pertencente ao Grupo Avante), Trindade, Flapa, AVG e Bassari se organizaram para fortalecer a representação do setor. Do outro, famílias reivindicam medidas para reduzir os impactos e cobram mais diálogo com os responsáveis pelos empreendimentos.

Os relatos dos moradores apontam que os problemas não se limitam à poeira ou ao barulho. Eles envolvem também a saúde, o descanso, as condições das residências e a segurança de quem precisa utilizar as mesmas estradas percorridas pelos caminhões que transportam minério.

Moradora do Castro há 22 anos e segunda tesoureira da associação comunitária, Grasiele Junia, vive em uma casa a aproximadamente 208 metros do Centro de Distribuição de Barão, empreendimento voltado à logística e ao escoamento de minério de ferro por meio dos transportes rodoviário e ferroviário.

O empreendimento funciona como ponto de concentração e transferência da produção das mineradoras da região para o transporte ferroviário. A proposta do modelo logístico é reduzir a necessidade de deslocamento de minério por longas distâncias em caminhões. Entretanto, para chegar ao terminal, os veículos continuam utilizando as estradas da região, e é justamente essa circulação, somada às demais operações, que está no centro de parte das reclamações dos moradores.

Imagens de drone captadas pelo DeFato registraram o movimento constante de caminhões na região. De acordo com os moradores, os efeitos são sentidos dentro e fora de casa. Enquanto as empresas organizam a logística necessária ao transporte da produção, a comunidade afirma precisar lidar com a sujeira, o ruído persistente, a dificuldade para manter as residências limpas e o receio de circular pelas vias locais.

Foto: DeFato Online

Poeira que invade as casas e preocupação com a saúde

A poeira é uma das queixas mais frequentes apresentadas por Grasiele. Segundo ela, a sujeira se acumula nas residências, nas roupas colocadas para secar e nos veículos dos moradores. A situação se repete mesmo após a limpeza das casas e, de acordo com o relato, não desaparece com a chuva.

“Você limpa a casa hoje, amanhã está tudo sujo. Você coloca uma roupa para secar no varal, você sacode, está aquela terra. E isso é o tempo inteiro, todos os dias, mesmo com chuva”, afirma.

A moradora explica que, quando chove, a terra espalhada pelas vias se transforma em barro, que acaba sendo transportado pelos pneus dos veículos e levado para outros pontos da comunidade. Assim, a chuva não representa necessariamente um alívio para quem precisa lidar com a sujeira dentro de casa.

O problema também aparece nas reclamações sobre a limpeza das estradas. Grasiele afirma que já pediu a representantes da empresa que as vias fossem lavadas, especialmente nos períodos em que os moradores precisam utilizar trechos afetados por obras ou pela movimentação dos caminhões. Ela questiona a eficácia das medidas adotadas para reduzir a poeira. Segundo a moradora, a varrição das vias acaba levantando ainda mais partículas, enquanto a aplicação de água pode transformar o material acumulado em barro.

“Quando a gente reclama de poeira, eles falam que estão tentando fazer coisas para mitigar. E aí eles colocam o quê? Vassourinha. E a vassourinha está trazendo mais poeira”, critica.

Segundo Grasiele, a comunidade também discutiu alternativas para impedir que a poeira alcance as casas, entre elas a implantação de uma cortina arbórea, formada por árvores que poderiam funcionar como barreira física. No entanto, a líder comunitária afirma que a proposta encontrou obstáculos relacionados às características do terreno onde a vegetação seria plantada. Agora, os moradores estudam a possibilidade de utilizar telas para tentar diminuir a dispersão da poeira.

A preocupação com a saúde torna o problema ainda mais sensível. Grasiele tem um filho de dois anos e afirma que a criança apresenta episódios frequentes de coriza. Ela também recorda uma situação ocorrida no ano passado, quando o menino teve os olhos grudados ao acordar e precisou ser levado ao pediatra. De acordo com a moradora, o médico associou os sintomas à exposição ao material particulado. 

Os efeitos relatados não se limitam às crianças ou aos problemas respiratórios. Grasiele afirma que o barulho e a dificuldade para descansar também provocam desgaste emocional entre os habitantes.

“Eu falo que não é só a respiratória, não. A psicológica também”, diz.

Barulho durante a madrugada e falta de descanso

A movimentação na região, segundo os moradores, não se restringe ao horário comercial. Graziele afirma que as operações e o trânsito de caminhões ocorrem durante as 24 horas do dia, com ruídos de motores, caçambas e máquinas que dificultam o descanso.

“Você deita para dormir, é barulho, é barulho constante de caçamba, é a máquina lá em cima”, relata.

A moradora conta que a rotina da comunidade mudou com a intensificação das atividades relacionadas ao empreendimento. O ambiente que, segundo ela, era marcado pelo canto dos pássaros passou a conviver com o barulho frequente dos veículos pesados e dos equipamentos utilizados nas operações.

Grasiele também afirma que procurou o prefeito Geraldo Abade (PSD) para discutir a circulação de caminhões durante a noite. Segundo ela, as restrições de horário que acredita serem aplicadas a outras áreas da cidade não estariam sendo observadas da mesma maneira no Castro.

Foto: DeFato Online

Caminhões pesados, rachaduras e cobrança por diálogo

O tráfego de veículos pesados também provoca preocupação com a segurança. As estradas utilizadas pelos caminhões que transportam minério são as mesmas pelas quais os moradores precisam passar para chegar às próprias casas, sair para trabalhar e realizar outras atividades do cotidiano. O risco, segundo a população, não se resume à quantidade de veículos. Os moradores também reclamam das condições de alguns trechos e a maneira como o trânsito relacionado à mineração interfere no acesso à comunidade.

Graziele afirma que a população espera há cerca de três anos por uma alternativa que proporcione mais segurança na circulação. Entre as intervenções em andamento está a construção de uma passagem sob a via utilizada pelos caminhões, chamada pelos moradores de túnel.

De acordo com a comunidade, o projeto prevê uma largura de aproximadamente quatro metros para a passagem inferior, enquanto os veículos pesados continuarão circulando pela parte superior. A dimensão da estrutura está entre os pontos questionados pelos habitantes, que também mencionam a falta de iluminação noturna, problemas de sinalização horizontal e vertical e outras preocupações relacionadas ao projeto.

A moradora garante que não faz oposição à construção da obra. Segundo ela, a comunidade deseja uma alternativa de acesso, mas considera que a estrutura precisa oferecer condições adequadas para o deslocamento de famílias, motociclistas e demais usuários.

“Eu quero deixar claro que aquele viaduto ali é o sonho da comunidade, de todos nós. […] Mas é com segurança, é com uma coisa que eu possa passar com a minha família, com o meu filho, todo mundo aqui passar com segurança”, afirma.

Grasiele também menciona a presença de uma tubulação de água da Vale nas proximidades do túnel e diz que possui dúvidas sobre os estudos realizados para a intervenção. Para ela, as informações sobre as dimensões definitivas, os dispositivos de segurança e as avaliações técnicas da obra precisam ser confirmadas pelos responsáveis pelo projeto.

Outra reclamação apresentada por Grasiele diz respeito às condições estruturais das residências. Ela afirma que sua casa estava em construção durante parte das obras do empreendimento e que, após a conclusão do reboco, percebeu rachaduras nas paredes. A moradora atribui as fissuras às obras e à passagem dos caminhões pesados nas proximidades. A origem dos danos, porém, depende de uma avaliação técnica que permita verificar as condições da construção e estabelecer eventual relação com as intervenções ou com o tráfego.

Segundo Grasiele, a comunidade já procurou representantes das empresas para apresentar reclamações e discutir alternativas para reduzir os impactos. Porém, segundo a moradora, as respostas recebidas e as medidas adotadas não têm sido suficientes.

Histórico de reclamações e questionamentos ambientais

As reivindicações do Castro já chegaram à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Em audiência pública realizada em 2025 para discutir sobre os impactos da mineração na comunidade, moradores relataram problemas com poeira, ruídos, rachaduras nas casas e condições de circulação. Também foram discutidas medidas relacionadas à qualidade do ar, ao barulho e ao trânsito.

A audiência também tratou do licenciamento ambiental do Centro de Distribuição de Barão. Na ocasião, foram mencionadas condicionantes relacionadas à qualidade do ar, aos ruídos e ao trânsito, além de informações sobre o acompanhamento ambiental do empreendimento. 

O terminal já havia sido alvo de questionamentos judiciais. Em março de 2024, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) informou que a Justiça havia concedido uma liminar determinando a elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (Rima), além da suspensão das operações e dos efeitos da licença ambiental até o cumprimento das determinações. 

À época, a decisão foi motivada por irregularidades apontadas no processo de licenciamento, incluindo a ausência dos estudos e de audiências públicas exigidas. 

Grupo Avante afirma que CDB controla poeira e ruídos e mantém diálogo com moradores

O Grupo Avante, responsável pelo Centro de Distribuição de Barão de Cocais (CDB), afirma que o empreendimento adota medidas para controlar a poeira e os ruídos gerados pela operação e que cumpre as exigências dos órgãos responsáveis. A empresa também diz manter canais de diálogo com os moradores da região, incluindo reuniões periódicas, Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) e contato por WhatsApp.

Em posicionamento enviado à DeFato, o grupo destacou que o terminal representa um avanço logístico para a região, ao otimizar o transporte de minério e reduzir a circulação de caminhões até terminais mais distantes.

Segundo a empresa, entre as medidas adotadas para minimizar os impactos estão a aspersão constante de água nas vias, a varrição mecanizada e o uso de canhão de névoa para controlar a poeira. Em relação aos ruídos, o grupo afirma manter um controle rigoroso da manutenção dos equipamentos utilizados na operação.

O Avante também declarou que o empreendimento atende aos requisitos exigidos pelos órgãos responsáveis, incluindo a realização de medições de ruído, poeira e vibração, com prestação regular de informações sobre os monitoramentos.

Sobre o relacionamento com a comunidade, a empresa afirmou manter diálogo permanente com os moradores e disponibilizou o número de WhatsApp (31) 99788-7686 para contato.

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