Espetáculo “O Reino de Papel” celebra os dez anos do Espaço Cultural Luar Azul em Itabira; saiba mais
Montagem será apresentada nesta sexta-feira, no Teatro da FCCDA; em entrevista, Higgor Vieira relembra a trajetória do espaço, fala sobre a criação da peça e os planos de ampliar o acesso à arte

De uma experiência iniciada com 37 crianças, jovens e adolescentes em São Gonçalo do Rio Abaixo até a retomada das atividades em Itabira, o Espaço Cultural Luar Azul completa dez anos de trajetória formação e fomento às artes em 2026. A comemoração será marcada pelo espetáculo teatral “O Reino de Papel”, que será apresentado nesta sexta-feira (6), às 19h, no Teatro da Fundação Carlos Drummond de Andrade (FCCDA).
A montagem nasceu do trabalho com uma turma infantojuvenil e reúne questões levantadas pelos próprios participantes durante os processos de experimentação teatral. A partir dessas contribuições, a peça desenvolve uma reflexão sobre os papéis sociais, as expectativas impostas pela sociedade e a necessidade de preservar a liberdade de sentir, imaginar e construir a própria identidade.
Em entrevista ao portal DeFato Online, o professor e proprietário do espaço, Higgor Vieira, contou que o Luar Azul surgiu em 2016, em São Gonçalo do Rio Abaixo. “O Espaço Luar Azul nasce em São Gonçalo do Rio Abaixo, em 2016, com 37 jovens, crianças e adolescentes. Essa origem, essa raiz trouxe uma força muito grande para que nós pudéssemos crescer nesse lugar da arte teatral”.
Posteriormente, Higgor retornou a Itabira e reabriu o espaço durante o período em que as atividades começavam a ser retomadas após as restrições da pandemia de Covid-19. O trabalho passou a reunir diferentes linguagens e públicos, com turmas de teatro infantil, juvenil, adolescente e adulto, além de atividades de arte yoga.
“Hoje estamos comemorando os dez anos com bastante movimento, buscando esse sentido mesmo da vida a partir da arte”, afirmou.
Arte acessível e presença nas comunidades
Ao avaliar a trajetória, Higgor aponta que um dos principais desafios está no reconhecimento da importância da arte e na ampliação do acesso às atividades culturais. Para ele, o trabalho não deve ficar restrito aos espaços tradicionais, mas alcançar diferentes públicos e comunidades.
“Às vezes, eu acho que a gente precisa explicar tanto sobre a arte para que as pessoas entendam a sua importância. Então, acho que a arte precisa ser acessível, ela precisa ir aonde o povo está”, disse.
Essa proposta também está presente nas ações desenvolvidas pelo Luar Azul fora de sua sede. Higgor destaca a busca por parcerias e oportunidades para levar o trabalho artístico a outros espaços, incluindo escolas e comunidades.
Ao falar sobre o que ficou dessa primeira década, ele destacou as pessoas que participaram da história do projeto. “São muitas recordações, são muitas pessoas que passaram por esses dez anos, pessoas que chegaram, que estão e que virão. Então, assim, as pessoas, o ser humano, porque a nossa poética é acreditar mesmo na arte teatral como modificadora, transformadora do ser”.
Uma peça construída a partir das ideias dos participantes
A escolha de “O Reino de Papel” para celebrar o aniversário está diretamente ligada à origem do espetáculo. Segundo Higgor, a criação começou com cinco pré-adolescentes que passaram a apresentar questões e temas relacionados à sociedade contemporânea.
“Eles começaram a trazer questões e temáticas nesse lugar que hoje nós vemos na sociedade contemporânea. Então, através de alguns temas como o racismo, a invisibilidade do ser humano, a sensibilidade, eu comecei a pensar justamente a partir desses processos de experimentação teatral e colaborativo”, explicou.
As ideias apresentadas pelo grupo foram incorporadas à construção da peça. Higgor conta que sua participação foi organizar as contribuições e dar unidade à proposta, que passou a abordar os papéis sociais e as imposições que interferem na maneira como cada pessoa se apresenta ao mundo.
“Todos que estão no elenco trouxeram as ideias e aí eu simplesmente amarrei, trazendo uma temática mesmo sobre os papéis sociais: realmente, nós precisamos ser aquilo que a sociedade nos impõe? Então, olhar para si é um lugar da consciência”, afirmou.
Na história, cinco crianças são levadas para um reino controlado por um Escritor, que tenta determinar seus comportamentos, sentimentos e escolhas. Nesse ambiente, os personagens representam diferentes conflitos: uma Princesa que não aceita a perfeição passiva, um Guerreiro que enfrenta a ideia de que não pode demonstrar medo, uma Governanta que procura dar voz aos invisíveis, um Menino-Máquina que tenta recuperar a capacidade de sentir e um Cartógrafo que busca caminhos além dos limites estabelecidos.
A narrativa utiliza esse universo para discutir a perda da espontaneidade, as máscaras sociais e a liberdade de ser. A proposta é provocar o público a refletir sobre os padrões impostos e sobre a possibilidade de reescrever a própria história.
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Crianças, jovens e adultos dividem a cena
Outro aspecto destacado pelo professor é a convivência de diferentes gerações no processo teatral. O espetáculo “O Reino de Papel” reúne participantes de várias idades, permitindo que crianças, adolescentes, adultos e idosos contribuam para a construção artística.
Higgor relata que acompanhar essa diversidade no palco é uma das experiências mais significativas de sua atuação. “Você olhar uma criança de sete anos atuando e trazendo a sua poesia na cena, corpo, voz, você vê toda essa construção. É um lugar muito sensível”.
Ele também cita a participação de um senhor de 70 anos nas atividades de teatro adulto e considera que o encontro entre essas experiências amplia a potência do trabalho.
“Você somar isso torna-se algo que eu não consigo ter palavras, é inexplicável mesmo, mas é uma potência, eu posso dizer que é uma grande potência que o teatro oferece, que me emociona muito, conduzir este trabalho com tantas pessoas, de crianças a adultos, adolescentes, idosos, estarem juntos para essa mesma construção”, declarou.
Planos para os próximos anos
Para o futuro, Higgor pretende ampliar a presença do Luar Azul em escolas e comunidades, fortalecendo parcerias que já possibilitaram a realização de projetos fora do espaço cultural. Ele mencionou experiências em instituições como as escolas Matilde Menezes e Nico Andrade e destacou o interesse em alcançar também comunidades quilombolas.
“O sonho mesmo é que nós possamos estar cada vez mais buscando levar a arte a mais lugares, como os projetos que nós já viemos realizando em escolas. Podendo ir a esses lugares cada vez mais, às comunidades quilombolas, levando justamente pela troca sensível e por essa potência afetuosa mesmo da arte como modificação, que é impressionante”, afirmou.
O professor também ressaltou a importância do apoio recebido de parceiros e diretores de escolas para desenvolver essas iniciativas. A expectativa é que o trabalho alcance mais crianças e outros públicos de Itabira e região. “O nosso desejo para esses dez anos é que isso se multiplique para muito mais crianças, para vários corações, para todo o nosso público de Itabira e região, e que seja próspero”, concluiu.
Serviço
- Espetáculo: O Reino de Papel – 10 anos do Espaço Cultural Luar Azul
- Data: sexta-feira, 6 de novembro de 2026
- Horário: das 19h às 21h30
- Local: Fundação Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), em Itabira
- Ingressos: compre pela plataforma Sympla