Muito além da arma em punho

Para Francisco Vieira Chagas, o problema da violência só será resolvido com uma visão que não se limita à mira de um revólver

Muito além da arma em punho

Ex-delegado, escritor e doutorando em Sociologia. Esse é o perfil nada convencional do paraibano Francisco Vieira Chagas, 63 anos. Depois de passar mais de 30 na Polícia Civil, ele aprendeu a olhar diferente para a criminalidade. Viu que o problema é bem mais amplo do que se imagina e que o simples ato de levantar uma arma não vai resolver nada. 

Formado em Direito pela UFMG, especializou-se em Estudos da Criminalidade e Segurança Pública pela mesma escola e chegou ao cargo de delegado-geral da Polícia Civil de Minas Gerais. Depois que aposentou, buscou o doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais na Universidad Del Museo Social Argentino, em Buenos Aires. Foi lá que ampliou sua visão do que é combater, de verdade, a criminalidade. Tudo isso conciliado com a paixão pela escrita. Chagas tem três livros e é coautor de várias outras publicações.
 
O paraibano da cidade de Diamante reside há décadas em Belo Horizonte, mas também tem uma residência no distrito de Ipoema. A paixão por Itabira o levou a ser um dos membros criadores da Academia Itabirana de Letras (Aile). A cultura, aliás, é uma das ferramentas que ele cita para ajudar no combate à criminalidade. Para ele, a saída é que os chefes de segurança pública tenham uma visão mais aprofundada do que está ao redor da violência.
 
1 – Segurança pública é um assunto muito discutido ultimamente, principalmente em épocas como as eleições. Para o senhor, a discussão ocorre de maneira correta? São abordados os pontos que deveriam?
Acompanhando toda essa demanda política que recentemente encerramos, eu diria que em todo Brasil as propostas relacionadas à segurança pública são muito pequenas diante do contexto. São insuficientes. Todos sempre dizem que vão resolver os problemas da segurança pública. Mas a verdade é que esse tema é muito amplo, porque aborda todas as coisas que relacionam o homem com a sociedade que ele ocupa. Simplesmente falam que vão comprar viaturas, armas e fazer obras de detenção. E as vezes não é nada disso que vai resolver a questão. Porque por trás disso tem muitas outras coisas: educação, cultura, trabalho. Quem não tem ocupação está dentro da oficina do diabo. Então eu diria que são insuficientes todas as propostas colocadas a nível nacional.
 
2 – Para o senhor, é uma tendência que os chefes de segurança pública se qualifiquem nas ciências sociais?
Eu não tenho acompanhado amiúde as indicações para as chefias dos órgãos de segurança pública e não sei dizer se elas realmente estão tendo essa capacitação para o exercício da função. Como esses cargos são de natureza política, nem sempre são observados esses detalhes de capacitação social. Muitas vezes o titular de uma secretaria, ou de um ministério ligado à segurança pública são da área de Direito, mas, muitas vezes, a coisa não é só baseada no Direito. É apenas uma só área dessa complexa questão. Direito lida com a execução penal. Mas e o resto? Muitas vezes o delegado de polícia pode estar dentro da ótica operativa, dirigido diretamente para apuração de fatos, mas sem se ater a nada do periférico. O que está ao redor de tudo? Por que a criminalidade acontece? Poucos são os chefes que estão preocupados com essa parte periférica.
 
3 – Em Itabira, o delegado regional Paulo Tavares e o comandante da PM tenente-coronel Edvânio Carneiro fazem graduação, em Buenos Aires, na área social. Para o senhor, então, isso é importante para ter essa visão periférica?
É muito importante. Só assim qualquer um de nós consegue enxergar quão profunda é a questão da criminalidade. É com estudos da Sociologia, da Antropologia e da Criminologia que se tem uma visão totalmente diferente dessa nossa realidade. A objetividade é apenas uma visão diretiva. Mas quando se aprofunda nesses estudos, você tem uma visão muito mais abrangente. Você passa a apurar o que é que leva a essa realidade. Se você vai na objetividade, você cumpre seu trabalho, é verdade, mas corre o risco de não estar fazendo justiça. E eu posso te garantir que são pouquíssimos os que buscam essa formação. Nem é por falta de interesse, mas por falta de tempo. Eu mesmo já quis fazer há muito tempo, mas só consegui depois da aposentadoria. Realmente é árduo, mas muito gratificante. E é importantíssimo. É preciso ter uma nova visão dentro da área da segurança pública.
 
4 – Dentro de todo esse cenário, o que precisa ser melhorado para combater com mais eficiência a criminalidade?
A criminalidade em termo de Brasil, efetivamente, não é diferente do contexto mundial. A criminalidade é da própria natureza humana. Antropologicamente falando, isso está comprovado. Você pode estar feliz ou infeliz, a criminalidade vai acontecer. Agora, quando extrapola, pouco ou muito, tem alguma coisa errada. E é aí que entram as ações para atacar o cerne da questão. No Brasil, por exemplo, a criminalidade é muito decorrente da miséria que reina. É a chamada oficina do diabo. O cara está sem emprego, mas está vendo a sociedade de consumo criando as coisas e expondo aos olhos deles; ele quer ganhar aquilo, ele quer ter aquilo como uma criança quer um brinquedo. E de repente ele resolve que vai ter. Está errado? Está! A lei proíbe e em termo de pessoas isso é má conduta. Agora como combater isso? É dando oportunidade de trabalho, é dando educação, é a questão moral, o respeito que começa em casa com o filho respeitando o pai. Começa por aí. Não é só escola. Se o menino chega na escola e agride a professora é porque ele está recebendo o exemplo mal dado dentro de casa. Tem que mudar todo o sistema, essa é a realidade.
 
5 – O tráfico de drogas é mesmo o principal fantasma que assombra a segurança pública?
Veja bem, para você falar de tráfico, também tem que falar do uso. Uma coisa está ligada a outra. Essa questão é algo difícil de entender. Desde 1961, em uma convenção em Nova York, se faz de tudo para tentar conter o avanço das drogas: cadeia para usuários, cadeia para traficantes, penas brandas, penas pesadas e até a liberação do uso. É aí que está a dificuldade. Liberando o uso não vai ter o tráfico? Não vai. Vai continuar tendo, porque as necessidades não serão supridas. O problema do tráfico é que ele vai existir se você penalizar ou não penalizar. O Uruguai, por exemplo, está liberando para o Estado mesmo assumir a posição de fornecedor da droga. Algumas delas, é claro. Não estou falando das drogas sintéticas. Vai resolver? Será que o Estado vai conseguir fornecer ao ponto de não existir o tráfico? Só o tempo dirá. Mas eu tenho certeza que não vai resolver.
 
6 – Escuta-se com frequência algumas pessoas dizerem que estamos em uma sociedade que perdeu os valores. O senhor concorda?
A questão do valor varia de acordo com o tempo e o lugar. No meu tempo de menino, as pessoas mais velhas a gente chamava de padrinho e tomava até a bênção. Hoje, os filhos dos pais mais jovens chamam de você mesmo. Não estou dizendo que está errado, até porque demonstra intimidade. Mas a questão do respeito, do saber ouvir, do saber calar com um simples olhar, é um valor. Isso realmente tem caído. Agora, é importante que se veja essa questão dos valores compreendendo o momento que se vive. Em uma sociedade cujos filhos estão tendo acesso às informações e ao conhecimento é lógico que os valores mudam. Essa nova sociedade perdeu aquele caráter de ficar compartimentado dentro do seio familiar. Então, eu tenho que dar um bom exemplo dentro da minha casa porque sei que aquilo vai se espalhar. Os valores estão mudados, sim, não tenho dúvidas. Mas mudou por causa do tempo, não por causa de uma degradação.
 
7 – Mas a sociedade atual é pior que a de antes?
Não. É uma questão de comodidade. Naquele tempo você tinha pouco acesso a certas coisas. E o homem é um ser inquieto, que quer sempre ter o conhecimento disso e daquilo. Eu creio que hoje, apesar de tudo, ainda é melhor do que antes. Verdade que não temos os valores que já citei, mas há muito mais liberdade. Por exemplo, imagina falar de sexo no passado. No meu tempo de menino não se ouvia nem falar. E hoje isso é amplamente debatido. E não é importante saber sobre sexo? Claro que é importante! Até porque faz parte antropologicamente. O que está precisando é canalizar essa liberdade de modo que seja usada para o bem. O conhecimento deve ser trabalhado e analisado para o bem. Em termos gerais, a sociedade de hoje tem muitos mais mecanismos de ser melhor do que era antes. Ou seja, viver mais e mais feliz.
 
8 – O senhor sempre conciliou suas funções de delegado com a arte da escrita. O quão importante é a cultura como ferramenta de combate à criminalidade?
A cultura é muito importante. Acima de tudo, a leitura é essencial. É melhor ainda que o escrever. Porque o escrever é dom para poucos. É importante que se faça uma boa leitura para que você possa tirar aquilo que é importante para o seu cotidiano. É claro que tem que ser com a devida maturidade. A pessoa é moldada por aquilo que lê, que vivencia, que assiste na TV, ouve no rádio, lê nos jornais. Tem que conciliar tudo. E é claro que saber discernir toda informação que é recebida ajuda na conscientização.
 
9 – Apesar de não ser itabirano, o senhor ajudou a fundar a Academia Itabirana de Letras (Aile). Qual a parcela de contribuição de uma entidade como essa para uma cidade que tem a cultura tão enraizada?
Uma academia de letras por si só já é importante em qualquer lugar do mundo. É importante porque aquelas pessoas que são amantes das letras trocam ideias. Eu leio o livro de A e comento, você lê o livro de B e comenta, e por aí vai. Isso é só um exemplo, porque é um leque de atuações. Dentro dessa troca de ideias, você vai chegando a uma maturidade, de modo que isso se expande. A importância é poder levar ao público, de alguma maneira, aquilo que você pôde vivenciar.
 
10 – Alguma outra consideração?

As autoridades são muito arraigadas à questão legal. E tem que ser, porque se você não cumprir a lei, você não vai adiante. Mas é importante que, principalmente os legisladores, sejam mais capacitados para editarem as leis. Que as leis não sejam para eles. Que sejam sociais. Porque a gente sabe que, infelizmente, as leis só são editadas quando mexem no calo de alguém. Tem de se pensar na sociedade. É preciso legislar com sabedoria. As coisas estão erradas. É preciso ser mais profundo ao legislar.