Engenheiro que executou projeto de Niemeyer conta como é difícil fazer um prédio em curvas
Abel de Lemos Pires foi responsável por tirar do papel os traços curvilíneos de Oscar Niemeyer
O arquiteto Oscar Niemeyer falaceu aos 104 anos na noite dessa quarta-feira, 5 de dezembro, no Rio de Janeiro, e deixou obras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Uma delas é o Memorial Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, construído em uma área com aproximadamente 2 mil m², no Pico do Amor. O formato curvilíneo, principal marca de Niemeyer, não deixa dúvidas sobre a origem do desenho: veio do gênio que se inspirava nas montanhas, nas ondas do mar e nas mulheres.
Mas a genialidade tem seu preço. E um deles é "pago" pelos engenheiros e construtores que executaram os projetos de Oscar Niemeyer: a dificuldade de edificar em concreto e tijolos as curvas finas tracejadas pelo lápis do arquiteto. É o que conta o engenheiro civil Abel de Lemos Pires, 54 anos, responsável pela execução do projeto do Memorial Carlos Drummond de Andrade.
"É bem diferente executar uma obra em curva. O engenheiro está acostumado ao plano, com aquilo que é reto. E para um projeto como o do Memorial é exigida uma produção fora dos padrões", comenta Abel. Justamente por causa dessa dificuldade é que ele dá todos os méritos aos que participaram da construção. "Tivemos que fazer várias adaptações, usar ferramentas e metódos que fizessem o prédio ser curvado", completa.
Abel conta que a ideia de pedir um projeto a Niemeyer, a princípio, era tida como um sonho. Porém o também engenheiro da Prefeitura, Altamir Barros, levou a intenção à diante e foi atrás do arquiteto. Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade eram grandes amigos e isso era nisso que o município berço do poeta se apegava para convencê-lo de fazer o projeto.
Niemeyer topou e um helicóptero veio a Itabira para fazer filmagens e fotos da área em que o Memorial seria construído. O arquiteto foi rápido e os construtores mais ainda. Em 31 de outubro de 1998, data do aniversário do poeta, o prédio que guarda o acervo de Drummond foi inaugurado pelo prefeito Jackson Alberto de Pinho Tavares (PT).
"Me considero muito pequeno nessa obra desenhada pelo Niemeyer. Os méritos são dele e dos servidores da Itaurb que colocaram a mão na massa. Sinto orgulho de ter participado, mas não me considero excepcional dentro desse projeto excepcional", diz Abel, que também foi o executor de obras como o Parque de Exposições, o Pronto Socorro Municipal, reformas da Igreja da Saúde e da Casa Paroquial da Catedral, construções de escolas e dos canais da Bethânia e da Penha.