Riqueza a toneladas

Galpão alugado pela mineradora, em Santa Maria de Itabira

Riqueza a toneladas

 

As primeiras toneladas de minério de ferro vão embarcar somente em 2016, mas os projetos da mineradora Manabi, em Santa Maria de Itabira e Morro do Pilar, já deixam claro que o cotidiano desses municípios nunca mais será o mesmo. Os investimentos da ordem de US$ 4,1 bilhões vão gerar muitas oportunidades de emprego e renda, além de receita para as prefeituras com royalties e impostos. Entre a população e autoridades, contudo, é perceptível um misto de expectativa e receio quanto ao que está por vir. Afinal, são cidades interioranas, com pouca infraestrutura, e que não esperavam mudanças tão expressivas.
 
Do total de investimentos, US$ 3,4 bilhões serão destinados ao projeto em Morro do Pilar, município com cerca de quatro mil habitantes que concentra quatro direitos minerários da Manabi. O processo ainda está em fase de sondagem, mas já se sabe que a produção será destinada à exportação.
 
A exploração da serra do Morro Escuro, em Santa Maria de Itabira, será menor, destinada ao mercado interno. O projeto receberá um aporte de US$ 721 milhões. As duas minas somam cerca de 1,5 bilhão de toneladas de recursos minerais, podendo chegar a dois bilhões em potencial exploratório. A expectativa é que as operações comecem em 2016, com produção estimada de 31 milhões de toneladas por ano.
 
O prefeito de Morro do Pilar, Christian Vieira de Matos, diz que por enquanto poucos trabalhadores foram contratados pela mineradora. Ao conversar com a reportagem, o chefe do Executivo se mostrou preocupado, embora esteja no final de seu segundo mandato. “A futura gestão terá de ter uma atenção muito grande, porque com o investimento vem também a violência, o tráfico de drogas, a piora no trânsito e outras questões”, afirmou. O projeto em Morro do Pilar deve gerar 1,2 mil empregos, demanda de mão de obra que a cidade e região não conseguirão atender. “Aqui será uma futura Itabira”, comparou o prefeito, se referindo aos impactos socioeconômicos da atividade na cidade de Drummond.
 
De acordo com documento enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pela empresa, a qualidade do minério nos dois municípios é elevada, com teor de ferro de 68,5%. “As características de nosso produto resultam em uma matéria-prima de alta qualidade e escassa, colocando-nos em uma posição vantajosa no mercado mundial, especialmente tendo em vista o recente crescimento da demanda das indústrias siderúrgicas por insumos de qualidade”, diz o prospecto da mineradora.
 
 O projeto Morro do Pilar compreende uma mina, uma usina de beneficiamento de minério de ferro e rede de escoamento da produção, composta por um mineroduto e um terminal portuário em Linhares (ES). O mineroduto terá 530 km de extensão e ligará a mina ao Porto Norte no litoral capixaba. Há, ainda, uma solução alternativa para a logística: um mineroduto de 170 km entre a mina e a Estrada de Ferro Vitória Minas (EFVM). No entanto, a Vale, que gerencia esta ferrovia, não confirma nenhum tipo de parceria.
 
 
Mais obras
Embora as contratações da Manabi ainda se restrinjam a alguns técnicos, auxiliares e engenheiros para a fase inicial do processo, a população morrense vive um grande movimento, mesmo que temporário, devido a obras de outras companhias. Quase concluído, o trecho de 25 km de asfaltamento, que ligará Morro do Pilar a Belo Horizonte, está a todo vapor e abriga na cidade funcionários da construtora, que precisam de hospedagem, alimentação, entre outros serviços. Há também a construção do mineroduto do projeto Minas-Rio, da Anglo American, que ligará Conceição do Mato Dentro ao Rio de Janeiro, com mais profissionais trabalhando.
 
Sobre o aumento de pessoas (empregados com poder aquisitivo), os comerciantes não têm do que reclamar. Novos hotéis e restaurantes foram inaugurados e os clientes só aumentam. O preço das locações de imóveis também deu um salto: muitas pessoas estão se mudando da cidade para locar suas próprias residências. “Uma conhecida minha alugou sua casa, de quatro quartos, uma sala e um porão, por R$ 4 mil mensais”, contou a comerciante Marlene Soares, proprietária de uma farmácia em Morro do Pilar.
 
Dona de uma pousada, Edelvais Tomás conta que recebeu propostas para locar todos seus quartos para uma das firmas que chegou para trabalhar na cidade, mas recusou a oferta. Continuou atendendo o público habitual e alguns executivos que não ficam por muito tempo. “Preferi manter a tranquilidade”, afirma. Mas o preço das diárias sofreu reajustes.
 
Mesmo sem ter ideia da dimensão do projeto da Manabi, o prefeito Christian afirma ter investido em melhorias no hospital e pavimentação de várias ruas da cidade. O desafio de gerir eficientemente o caixa do município, que receberá dinheiro como nunca na história de Morro do Pilar, ficará, portanto, para os próximos prefeitos. Os problemas socioeconômicos e ambientais também.
 
Santa Maria de Itabira
A produção do projeto Morro Escuro, em Santa Maria de Itabira, visa a usinas siderúrgicas, como ArcelorMittal, Usiminas, Gerdau, e empresas de mineração, como a Vale. As explorações na cidade serão compostas de uma mina e uma usina de beneficiamento.
 
O escoamento da produção deverá ser feito, inicialmente, por rodovias já existentes que ligarão o complexo às cidades de Ipatinga e Itabira, alcançando clientes nacionais ou utilizando o terminal ferroviário da EFVM. A viabilidade do escoamento por rodovias leva em consideração o percurso. Morro Escuro está distante 30 km das minas da Vale, em Itabira, e 120 km do parque siderúrgico em Ipatinga, no Vale do Aço.
 
Assim como em Morro do Pilar, o comércio santa-mariense também já sente o aquecimento do mercado consumidor – não exatamente por causa do projeto da Manabi, mas devido às obras do mineroduto da Anglo American. A diretora de uma rede de lanchonetes da cidade, Mariana de Castro, confirma que houve um crescimento de 30% nas vendas, desde que as empreiteiras começaram a atuar no município. As expectativas são as melhores possíveis nesse sentido, segundo ela. “O comércio vai se adaptando à nova realidade”, ressalta.
 
O prefeito Geraldo Coelho do Nascimento também se diz satisfeito com o investimento. Para uma cidade que sempre gerou poucos empregos e lidou com orçamentos baseados no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), novas fontes de renda são bem-vindas. Como não é candidato à reeleição, o dinheiro e o desafio também ficarão para os próximos gestores. 
 
Um grupo contrário à mineração, por outro lado, não está nada satisfeito com o projeto da Manabi em Santa Maria de Itabira. Por meio da internet, os organizadores do movimento convidam cidadãos locais para um protesto contra a exploração e dão exemplos de outras cidades que sofreram os impactos da atividade extrativista, social e ambientalmente. O manifesto tem apoio de instituições políticas e religiosas.
 
Conceição do Mato Dentro
Próxima a Morro do Pilar, Conceição do Mato Dentro já vivencia a experiência que cidades como Itabira conhecem há décadas. A mina do projeto Minas-Rio, da Anglo American, está localizada no município e é a principal operação da empresa no mundo. A exploração foi vendida à Anglo American pela MMX, de Eike Batista, e prevê capacidade de produção de 26,5 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.
 
O Minas-Rio tem o maior mineroduto do mundo, com 525 km de extensão, que atravessa 32 municípios mineiros e fluminenses, além do terminal de minério de ferro do Porto de Açu (RJ), do qual a Anglo American é parceira da LLX. O mineroduto para escoamento da produção já está sendo construído por companhias terceirizadas. Entre os municípios que recebem os operários para as obras estão Santa Maria de Itabira, São Sebastião do Rio Preto, Morro do Pilar e Santo Antônio do Rio Abaixo. 
 
 A previsão inicial era de que os primeiros carregamentos partissem em 2013, mas houve uma revisão no cronograma e a empresa adiou a inauguração da produção para o segundo semestre de 2014. A alteração foi necessária diante de fatores que incluem desde a ocorrência de fortes chuvas a entraves legais e paralisação parcial de obras em determinadas áreas na planta de beneficiamento. Para o início da fase de operação do Minas-Rio, serão criados 1.200 empregos diretos e 3.500 indiretos, sem falar nos impostos e royalties para as cidades envolvidas.
 
O cenário está sendo construído: jazidas nunca antes exploradas podem trazer o desenvolvimento para mais cidades do interior das Minas Gerais. É hora de se preparar para as consequências do progresso.     <